Mohamad Torokman/Reuters
Mohamad Torokman/Reuters

O xadrez do mundo árabe

'Todas as peças estão ali no tabuleiro, menos uma: os próprios palestinos', diz cientista político

JULIANA SAYURI, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2012 | 03h11

Trégua não é uma palavra muito forte em certos cantos do mundo. Noutros, porém, parece vital. É o caso de fronteiras fragilizadas por tensões históricas como o conflito árabe-israelense. A partir da noite de terça-feira, foguetes militares riscaram os céus de Israel e bombardeios devastaram bairros da Faixa de Gaza - de um lado, quatro palestinos mortos; de outro, três trabalhadores tailandeses feridos no sul de Israel. Antes da nova rodada de confrontos com mísseis, um bilionário emir fez uma provocativa visita ao território palestino brindando o poder do Hamas com toda a pompa diplomática, o que acabou por reinflamar os nervos cá e lá.

"O emir do Catar está jogando o jogo da política regional. É um tabuleiro de xadrez no qual esses líderes vão movendo suas peças e tentando conquistar aliados conforme os próprios interesses. Mas todo apoio vem acompanhado de amarras e compromissos", analisa o cientista político norte-americano Norman Finkelstein.

Ph.D. por Princeton e pupilo de Noam Chomsky, Finkelstein é considerado um enfant terrible nas rodas intelectuais por opiniões polêmicas como o apoio ao Hezbollah e ao Hamas contra as Forças Armadas israelenses. Filho de sobreviventes de Auschwitz, nascido em Nova York, o intelectual se tornou persona non grata em Israel por suspeitas (nunca confirmadas) de envolvimento com elementos "hostis" do Líbano, em 2008. No ano seguinte, teve suas muitas controvérsias retratadas no documentário American Radical: The Trials of Norman Finkelstein. Ainda assim se mantém como um dos principais pensadores da questão palestina.

"Há perspectivas razoáveis para uma alternativa de dois Estados independentes se - e esse 'se' é muito importante - contar com a mobilização dos milhões de palestinos", considera o autor de Knowing Too Much (2012), What Gandhi Says (2012), The Holocaust Industry (2000) e The Rise and Fall of Palestine (1996). Para Finkelstein, o impasse persistirá nesse território instável até que os palestinos despertem para o tabuleiro geopolítico do Oriente Médio. Por enquanto, sem xeque-mate.

Seria realista esperar um acordo de paz no momento?

Todas as peças estão no tabuleiro, dispostas a uma resolução desse conflito histórico. As transformações dos últimos tempos nos permitem manter certo otimismo. Há três poderes regionais que podem apoiar fortemente a questão palestina: o Egito, o Irã e a Turquia. Também é preciso considerar o Movimento dos Países Não Alinhados. No plano regional, é certo dizer que os palestinos conquistaram apoio significativo, e não só entre árabes e muçulmanos, mas entre governos, que lhes conferem certa autoridade, poder e respeito. Também tivemos grandes mudanças na opinião pública mundial nos últimos tempos. Israel está à beira de se tornar um Estado pária na comunidade internacional. E, finalmente, houve grandes mudanças na opinião pública americana. Nos EUA, cerca de 50% da sociedade já tem um olhar mais crítico sobre as diretrizes israelenses, tanto que tivemos fissuras e rompimentos no apoio de judeus americanos a Israel. Esses fatores, se articulados, poderiam promover uma reviravolta no conflito, pressionando um recuo de Israel.

O que falta?

Falta uma liderança palestina. Não há liderança unificada. Os palestinos estão fragmentados - e as tensões históricas entre Hamas e Fatah certamente dificultam isso. Não estão engajados na ideia de desobediência civil em massa, similar ao que fizeram na primeira intifada (em 1987). Sem a mobilização dos próprios palestinos, as outras peças nunca encontrarão lugar certo. Há perspectivas razoáveis para uma alternativa de dois Estados independentes se - e esse 'se' é muito importante - contar com a mobilização dos milhões de palestinos que vivem ali. Só assim poderão conquistar sua independência.

O chanceler Riad al-Malki parece confiante em que a Palestina conquistará status de 'Estado não membro' das Nações Unidas em breve. É uma possibilidade real? 

Primeiramente, Riad al-Malki não é um ministro das Relações Exteriores. Se não há um Estado palestino, não há um presidente e não há um ministro das Relações Exteriores. Na Autoridade Palestina, eles se atribuem títulos para se premiar com poder e privilégios. São farsantes, empreiteiros a serviço dos EUA e de Israel, mantendo em ordem os territórios ocupados. No entanto, sobre a questão das Nações Unidas, acredito que esses passos serão significativos se acompanhados, insisto, por movimentos dos próprios palestinos. Caso contrário, a entrada nas Nações Unidas será uma mudança meramente simbólica, quase cosmética. Por outro lado, a ausência de um Estado reconhecido pela comunidade internacional também custa aos palestinos. Custa sofrimento: a instabilidade, as humilhações cotidianas, a fragilidade econômica, o desemprego e, no caso da Faixa de Gaza, o bloqueio. Não há economia. A economia é movida basicamente por ações de caridade e de ajuda externa. Tudo isso abala os palestinos, inclusive psicologicamente. Porém, para o bem ou para o mal, os seres humanos são alavancados para a ação, uma vez confrontados com a injustiça real. Talvez isso provoque o despertar tão necessário aos palestinos.

O emir do Catar brindou a liderança do Hamas na Faixa de Gaza nessa semana. Foi a primeira visita de um chefe de Estado desde 2007. O que indica essa visita?

Antes de tudo, queria destacar que o emir deu cerca de US$ 400 milhões ao Hamas. Isso significa que os palestinos poderão usar o dinheiro para investir em projetos de infraestrutura. Por outro lado, o emir certamente está jogando o jogo da política regional. É um tabuleiro de xadrez no qual esses líderes vão movendo suas peças e tentando alinhar aliados conforme seus interesses. Na minha opinião, o saldo político é negativo. Os palestinos não conseguem se libertar da necessidade de apoio vindo da Arábia Saudita e do Catar, por exemplo, que são bastiões reacionários. Seria melhor ficar livre deles. Egito e Turquia não têm grandes motivos para apoiar os palestinos neste momento, mas representam uma tendência mais progressista em relação aos demais países da região. Cada uma dessas potências regionais está tentando usar a questão palestina em benefício próprio. Todo apoio vem acompanhado por amarras e compromissos. É o jogo.

Ainda nessa semana, Gaza e Israel trocaram bombardeios mais uma vez.

Para dizer a verdade, ainda não entendi o gatilho para esses novos ataques. Obviamente Israel não está feliz com o fato de que o Hamas esteja se fortalecendo. Diante do poder político e bélico israelense, o Hamas encontrou maneiras não só de sobreviver, mas de ganhar pontos no conflito - dentro do território ocupado e na região. Israel está frustrado. Viu que o uso da força, desde o bloqueio de 2008/2009, não teve o resultado que esperava. Ao contrário. Com a Irmandade Muçulmana no Egito, o apoio do presidente Mohamed Mursi e a visita do emir Hamad bin Khalifah al Thani, com os alinhamentos especialmente a partir da Primavera Árabe, o Hamas está numa posição politicamente mais forte no plano regional. No entanto, dentro do próprio território palestino, o momento mais forte do Hamas foi em 2006, quando eleito pelo povo.

E em Israel? Há força política interna para liderar um processo de paz?

Não. Mas porque uma força política interna não é interessante para eles. O trabalho sujo policial é feito pela Autoridade Palestina - e as contas para pagá-la vêm dos aliados europeus. Na questão política, o trabalho é feito pelos EUA, que impedem que Israel fique isolado no tabuleiro geopolítico. Portanto, econômica e politicamente, a ocupação é gratuita. Por que iriam pôr fim a ela? Nesse sentido, as eleições israelenses em 2013 não mudarão nada.

No último debate presidencial, Obama e Romney discutiram diversas questões sobre o Oriente Médio e Israel, mas a Palestina nunca foi mencionada. Por que esse silêncio?

Neste momento, a Palestina não representa um problema. Se os palestinos ficarem quietinhos e não incomodarem os Estados Unidos, eles não são sequer mencionados. Se estivessem organizados, já estariam fazendo barulho, o que provocaria a sangrenta repressão israelense. Talvez assim os poderes regionais, o poder americano e a comunidade internacional despertassem para a ação, o que se converteria em real apoio aos palestinos. Nesse novo alinhamento, seria bem-vinda a entrada de outros países no jogo, como o Brasil. O desafio é: a comunidade internacional, nos movimentos populares, mas também nos governos, seria capaz de se movimentar rápido o bastante para que a repressão israelense não seja devastadora? Sem dúvida há tensões entre Barack Obama e Binyamin Netanyahu. Mas Obama não faz nada sem pressões. Portanto, faltam justamente pressões para ações serem tomadas. Os EUA ainda se portam como um dos principais obstáculos para resolver a questão israelense-palestina, pois ainda dão músculo político a Israel.

Mas no livro Knowing too Much, o sr. diz que o romance dos judeus americanos com Israel está quase no fim. Por quê?

Porque os judeus americanos são esmagadoramente liberais. Nas últimas eleições presidenciais, 78% dos judeus votaram em Obama, o que é uma porcentagem muito alta se comparada, por exemplo, aos votos recebidos dos latinos (63%). A ideia de justiça, a importância de organizações internacionais como a ONU, o valor dos direitos humanos, tudo isso faz parte do pensamento liberal americano atual. O conflito Israel-Palestina já é visto sob uma perspectiva mais crítica. A própria história de Israel - a real, não a mitológica - também é mais conhecida. Assim, é difícil para os judeus americanos conciliarem seus princípios liberais com as diretrizes israelenses, pois o país às vezes se porta como um Estado antiliberal.

Outro livro do sr. é dedicado ao movimento Occupy. Como What Gandhi Says se relaciona com o conflito Israel-Palestina?

Comecei esse livro pensando se a estratégia do Mahatma Gandhi de resistência não violenta seria aplicável à questão Israel-Palestina nos territórios ocupados. E, sim, minha conclusão é de que temos muito a aprender com Gandhi, um verdadeiro líder político, especialmente sobre a ideia de desobediência civil. Ele pode nos ensinar o caminho para tentar responder a questões importantes: como mobilizar um povo? Como determinar metas para um movimento? Como convidar os espectadores a entrar no jogo? Como ultrapassar a fronteira da indignação verbal para ajudar povos oprimidos a conquistar sua emancipação?

Apesar dessa ideia de não violência, certa vez o sr. declarou solidariedade ao Hezbollah e ao Hamas contra Israel.

Eu apoio o direito do Hezbollah de resistir à ocupação armada no país. É um direito elementar em qualquer país do mundo, o de se libertar da ocupação estrangeira no próprio país. Não me considero, e nunca me considerei, numa posição controversa. Além disso, o Hezbollah tem diversos níveis de organizações e sofisticados níveis políticos, no geral bem impressionantes. Por outro lado, há os dilemas do Hezbollah em relação à Síria, e considero impossível, de qualquer maneira, justificar o apoio de alguém a Bashar Assad.

A disputa por Jerusalém terá fim?

Tento ser esperançoso, mas realista. Muitas coisas que pensamos que jamais aconteceriam... aconteceram. Um presidente negro na África do Sul, o colapso da União Soviética, um presidente negro nos EUA. Se pensássemos isso 30 anos atrás, ririam na nossa cara. Seriam ideias tão realistas quanto abrir uma delicatessen em Marte. Mas em 1989 a URSS começou a ruir. Em 1991, Nelson Mandela despontou no poder. Em 2008, Barack Obama conquistou a América. Então não digo "nunca". Para muitos, Jerusalém deveria ser uma unidade administrativa, uma capital para Israel no lado oeste, outra para a Palestina no lado leste. Faz sentido para mim. E é possível. Como disse antes, todas as peças estão no lugar. A chave hoje são os próprios palestinos.

NORMAN FINKELSTEIN É CIENTISTA POLÍTICO NORTE-AMERICANO, Ph.D. PELA UNIVERSIDADE PRINCETON E AUTOR DE A INDÚSTRIA DO HOLOCAUSTO

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