Obama sai do armário Até então um cauteloso centrista, presidente americano começou a falar como quem quer, enfim, deixar sua marca

LÚCIA GUIMARÃES

NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2013 | 02h07

Um murmúrio correu pela multidão. Não pela esmagadora maioria de 1 milhão que lotava o Mall de Washington. "Ele disse Stonewall?" Sim, foi o que disse Barack Obama, que, com uma frase em seu discurso de posse, elevou a revolta de um bar gay do boêmio Greenwhich Village de 1969 ao mesmo patamar histórico da luta pela emancipação da mulher, no século 19, e da luta pelos direitos civis dos negros americanos, na década de 1960. Mais estava por vir. Ao final da segunda cerimônia de posse do primeiro presidente negro da história americana, o próprio Obama tinha, perdoem o trocadilho, saído do armário. O cauteloso centrista que despontou no firmamento político com apenas um discurso, em 2004, e falava em tons quase messiânicos sobre o destino da América unida, capaz de transcender a polarização ideológica, apresentou ao país na segunda-feira uma lista de intenções incomum para a ocasião, como a redistribuição de renda através de um sistema de impostos mais justo e a acolhida aos imigrantes sem documentos. Não todos os 11 milhões, certamente, mas sobretudo os que já têm vínculos no país e chances de se educar.

Como orador afiado, o presidente recorreu a uma moldura retórica para enquadrar muito do que faz a direita mais extrema espumar. A lista de Obama foi apresentada como uma evolução natural da declaração da independência americana. Impedir as manobras de obstrução ao voto dos negros, respeitar a igualdade civil dos gays, defender o salário das mulheres, cuidar dos idosos pela previdência, investir na educação dos jovens e impedir que crianças sejam mortas a tiros na escola, garantiu Obama, era o que tinham em mente os fundadores da república quando escreveram sobre o direito inalienável "à vida, à justiça e à busca da felicidade."

Ao parar de tentar apaziguar a versão mais colérica e intransigente do Partido Republicano representada no Legislativo americano nas últimas décadas, dizendo "acredito mesmo numa distribuição mais justa de renda e no poder da coletividade sobre o individualismo de fronteira", Obama fez mais do que pegar a oposição de surpresa. Aumentou as expectativas de eleitores que têm visto nele um conciliador atávico. Nenhum grupo de eleitores presta mais atenção na evolução de Barack Obama do que os afro-americanos, 12% da população. Eles são também 40% da população carcerária no país com maior número de detentos per capita no mundo. Enfrentam um desemprego de quase 15% comparado ao nível de 7,8% da população em geral.

O acadêmico Jelani Cobb é autor de The Substance of Hope, Barack Obama and the Paradox of Progress e escreveu o ensaio Barack X, na revista New Yorker pouco antes da eleição de novembro. No ensaio, ele tratou da presidência Obama sob o prisma da herança de líderes diferentes como Martin Luther King e Malcolm X. Cobb diz que a ascensão de Obama dá esperança e ao mesmo tempo aprofunda o ceticismo dos negros americanos, conscientes de que ele jamais continuaria morando na Casa Branca se tentasse explicitamente curar a ferida racial. Professor associado de história e diretor do Instituto de Estudos Africanos da Universidade de Connecticut, Cobb conversou com o Aliás após a cerimônia de posse da última segunda-feira. Ele analisa os pontos mais importantes do discurso do presidente.

Os detalhes.

"O discurso de posse me surpreendeu por ser muito mais específico do que se esperava. É comum os discursos de posse serem genéricos, falarem do progresso americano e das nossas virtudes. Mas o Obama foi mais além nos detalhes. Podemos pôr esse discurso como um contraste ao discurso da Convenção do Partido Democrata de 2004, que colocou o Obama no cenário nacional. Ali, ele falava sobre a unidade transcendental, do tema de um país que não estaria dividido. Na segunda posse, ele falou de unidade mas mencionou especificamente os excluídos da sociedade americana. E destacou como teremos que lutar para incluir esta população na nossa sociedade. A frase mais significativa foi quando ele se referiu a Seneca Falls (local da a primeira convenção nos Estados Unidos a lutar pela emancipação feminina, em 1848), Selma (cidade do Alabama de onde partiram as marchas pelos direitos civis dos negros em 1965) e Stonewall (rebelião no bar gay de Manhattan em 1969). Ao juntar as três lutas, acho que surpreendeu a maioria.

A ironia da identidade racial.

"Obama não invoca a tragédia da segregação - costumo dizer que ele é um mulato irônico - como referência a sua identidade. A maioria das pessoas considera Obama birracial. Mas, nos Estados Unidos, se você tem um pai negro e uma mãe branca e vice-versa, você é considerado negro, ponto - com todas as consequências dessa condição. Com Obama, de repente, as pessoas quiseram mudar as regras e dizer 'ele é birracial'. O fato é que a maioria dos afro-americanos é birracial, minha bisavó era branca. O que me ofende é que séculos de história são apagados para que uma parte do eleitorado se sinta mais identificada com Obama. Mas nossa vida não muda por causa do rótulo.

O mito de uma era pós-racial.

"Nem Obama acredita nisso. Ele sabe quanto a questão do racismo pesa na vida dos afro-americanos e disse isso diretamente a uma plateia da Associação Nacional de Pessoas de Cor, fundada no começo do século 20. Há dinâmicas muito claras, como a crise da bolha imobiliária, que teve um impacto muito maior entre os negros, e como o fato de a maioria da população carcerária ser composta de afro-americanos. Um exemplo da consciência de Obama é seu ministro da Justiça, Eric Holder, ter ido atrás e processado judicialmente departamentos policiais que fazem o chamado perfil racial, detêm e revistam muito mais negros.

A paciência dos negros.

"Não importa o grau de decepção com a falta de progresso em questões que afligem em maior proporção os negros americanos, eles deram 93% do seu voto a Barack Obama em 2012. Essa paciência é fácil de explicar: eles viveram o racismo. Perceberam como ia haver e houve hostilidade contra Obama. Só há um problema com isso: não importa quanto você se identifica com um líder, não é bom que se solidarize muito com ele. Deve manter um nível saudável de desconfiança. Esta situação de termos um presidente negro não tem precedente. Temos que descobrir como nos identificar com a luta de Obama sem sacrificar nossos objetivos específicos, o que nos fez votar nele. Obama não foi eleito com a maioria do voto branco. E nossa história nos mostra que cada etapa de conquista negra foi seguida de alguma represália. A surpresa com a hostilidade a Obama para mim reside no fato de que a grande mídia, como a Fox News, se tornou um fórum para esse tipo de ideia, como a nacionalidade de Obama, traficando com a demagogia fanática. Mas a teoria conspiratória nos Estados Unidos é uma tradição que não se resume à questão de raça. John Kennedy foi acusado de ser um agente de Moscou. Bill Clinton foi acusado de acobertar o suposto assassinato do assessor Vincent Foster, que de fato se suicidou. Certas figuras proeminentes ainda criticaram Obama principalmente em dois aspectos: diziam que ele não atacou a pobreza com agressividade e não seguiu a tradição pacifista do movimento de direitos civis ao aumentar o esforço de guerra no Afeganistão. Mas, num contexto político em que o presidente foi forçado a mostrar sua certidão de nascimento para provar que é cidadão americano, o que se podia esperar, com realismo? E, diante do Congresso mais obstrucionista das últimas décadas, o que pensavam que ia acontecer?

O sistema penal.

"A maioria das pessoas atrás das grades foi condenada por infrações não violentas ligadas a drogas. Mudar a maneira como o país trata do problema da droga poderia ser o grande legado do Obama. Uma vez que você joga na prisão uma pessoa que cometeu uma pequena ofensa, as chances de ela obter emprego são drasticamente reduzidas e isso leva a maior risco de cometer crimes mais graves. Lembro que, nos anos 1990, quando Newt Gingrich era o líder republicano da Câmara, ele acabou com as bolsas de estudos, as Pell Grants, para detentos. Isso é um exemplo da mudança de direção do sistema penal. E há também algo pernicioso que pune muito mais a população negra. A maioria dos detentos afro-americanos vem de áreas urbanas pobres. Mas há um grande número de prisões em áreas rurais. Essas áreas rurais, mais brancas e conservadoras, dão boas-vindas às penitenciárias porque a população carcerária entra na contagem do censo. E permite a essas regiões com menor densidade demográfica ter maior representatividade eleitoral e, por exemplo, ter mais investimento do governo em educação. Enquanto isso, os afro-americanos não estão sendo contados nas cidades de origem. Aí está um incentivo para não reformar o sistema da justiça criminal.

Os gays e os conservadores cristãos.

"Quando Obama mudou de opinião e apoiou o casamento gay, não me passou pela cabeça que seria atacado pelos afro-americanos. Temos uma população cristã negra conservadora que não aprova a igualdade para o casamento. Mas o fato é que não vamos às urnas mobilizados para votar nessas questões, tal como os brancos conservadores. Há muito os republicanos falam da 'direita cristã'. Mas, ainda que cristãos negros compartilhem os ideais cristãos de outros grupos, vão votar em democratas porque acreditam que eles protegem mais os empregos, a ação afirmativa, e vão se manifestar contra crimes de ódio. E também acreditam que o político democrata vá respeitar mais sua humanidade, sua condição de próximo. Quando estamos lidando com disparidade econômica, o voto tende a ser pragmático. Só depois de ter segurança econômica é que se começa a votar em questões de estilo de vida.

O simbolismo do primeiro-casal.

"A importância da imagem do casal não pode ser subestimada, é tremenda. É um aspecto quase tão importante simbolicamente quanto certas questões de política. Há esse desejo coletivo de testemunhar uma família intacta, de duas pessoas que se querem bem e se apoiam ao longo da vida. Especialmente entre os afro-americanos, é um contraste com o estereótipo do relacionamento negro disfuncional. Quando um casal branco se separa é porque não se entende bem. Quando um casal negro se separa é porque a família negra está em colapso. Barack e Michelle representam o ideal mítico do black love."

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