Obama tenta redefinir partido num país que cansou de guerra, mas ainda quer projetar força Entre o falcão e a pomba Diplomacia da hesitação

PETER BAKER

THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2012 | 03h07

Ele se gaba de ter acabado com o inimigo número 1 dos Estados Unidos, mas, logo a seguir, promete trazer para casa os soldados envolvidos numa guerra impopular. Para o presidente Obama, os dias que antecederam o início de sua campanha pela reeleição foram gastos na tentativa de trilhar a tênue fronteira entre falcão e pomba da paz, possivelmente redefinindo as características de seu partido para os próximos anos.

Durante quatro décadas, os democratas foram identificados com uma imagem de tratamento leve para as questões de segurança, uma impressão profundamente enraizada que os prejudicou nas urnas. Mas, num país agora cansado da guerra que não renunciou ao objetivo de projetar sua força no exterior, Obama está tentando reposicionar seu partido em relação à segurança nacional, de maneira semelhante ao novo enfoque para as questões econômicas e as políticas internas trazido por Bill Clinton nos anos 90, buscando um ponto intermediário entre dois polos.

A mistura, revelada por uma viagem não anunciada ao Afeganistão na terça feira que culminou num discurso transmitido em cadeia nacional de TV, frustrou os críticos tanto à direita quanto à esquerda. Boa parte da base liberal democrata se desiludiu com Obama depois que ele triplicou o número de soldados americanos em território afegão, mantendo muitas das políticas de combate ao terrorismo de seu antecessor, George W. Bush, e chegando até a expandir algumas. Por outro lado, muitos conservadores dizem que, por trás do ataque surpresa que resultou na morte de Osama bin Laden, jaz uma abordagem fundamentalmente fraca diante dos rivais e de Estados imprevisíveis como Irã, Coreia do Norte e Rússia.

Se para alguns isso parece ser uma doutrina que comporta dois rumos antagônicos, a estratégia parece ter causado boa impressão numa ampla parcela intermediária dos americanos, de acordo com o resultado de pesquisas e grupos de trabalho. E os conselheiros de Obama deixaram claro nos últimos dias que acreditam na capacidade dele de, em se tratando da segurança nacional, jogar no ataque como nenhum outro candidato democrata fez desde a Guerra do Vietnã.

"Creio que o paradigma pós-11/9 que existiu durante anos, segundo o qual era preciso que um político fosse totalmente favorável às guerras no Iraque e no Afeganistão para não dar a impressão de não ser suficientemente aguerrido, não se aplica mais", disse Benjamin Rhodes, vice-conselheiro de segurança nacional do presidente. "Ele mostrou que se pode acabar com guerras e ao mesmo tempo atingir o inimigo com precisão."

Os republicanos veem a mudança mais como jogada para ganhar as eleições. "Ele está numa posição estranha, defendendo um ponto intermediário e ambíguo, e parece indeciso quanto ao rumo que deve seguir", disse o senador republicano John Cornyn, do Texas.

Faz tempo que Obama expressa uma visão complicada para a segurança nacional que não se enquadrava nos moldes tradicionais e foi inicialmente disfarçada por sua enfática oposição à guerra no Iraque. Mas, quatro anos mais tarde, Obama era o comandante de uma política de segurança nacional que uniu elementos de ambos os partidos.

"O que estamos vendo é a condução de uma política externa deliberada e extremamente eficaz - acima de tudo, pragmática", disse o deputado democrata Adam Smith, principal membro do partido ligado à Comissão da Câmara para os Serviços Armados. "Ele fez exatamente o que disse que faria."

Uma pesquisa de opinião realizada pela CBS e pelo New York Times no mês passado mostrou que Obama tinha neutralizado a tradicional vantagem republicana no campo da segurança nacional. Dos entrevistados, 59% expressaram sua confiança na capacidade do presidente de ser um comandante-chefe eficiente, pouco mais do que os 56% que disseram confiar em Mitt Romney, provável candidato republicano, nesse setor.

Mas, nos últimos dias, os republicanos lutaram para dar um contragolpe eficaz, ao menos do ponto de vista político. Eles se queixaram de uma politização da segurança nacional por parte de Obama quando sua campanha lançou na semana atrasada um vídeo elogiando o ataque que resultou na morte de Bin Laden. Mas, por mais que o vídeo tenha sido considerado inadequado por uma parte do público, incluindo funcionários da Casa Branca que temiam mexer com um tema tão sensível, o fato é que a divulgação manteve durante dias o debate concentrado nos temas pretendidos pela equipe de Obama.

Na noite de terça feira, o ex-secretário da Defesa Donald H. Rumsfeld disse à Fox News que a ordem de Obama para o início do ataque não foi "uma decisão difícil" e "teria sido inexplicável" se ele tivesse optado por outro rumo. Na quarta feira, os democratas divulgaram, satisfeitos, um artigo de jornal que dizia que Rumsfeld certa vez teria cancelado um ataque surpresa para capturar membros do alto escalão da Al-Qaeda porque o risco era alto demais.

Depois de dizer inicialmente que Obama estaria explorando o ataque, Romney e outros republicanos assumiram na quarta feira uma reação mais moderada à viagem do presidente ao Afeganistão.

Obama, que fez campanha ao lado de Clinton no domingo, parece estar seguindo o manual de seu antecessor democrata. Depois de afastar uma geração inteira de eleitores com posições liberais para as políticas domésticas, os democratas encontraram em Clinton alguém que levou o partido na direção do centro em se tratando de comércio, bem-estar social e gastos deficitários.

Grupos de trabalho formados recentemente pela Terceira Via, um grupo de tendências democratas dedicado a essa opção, identificou a possibilidade de sucesso relativo para Obama se ele seguir nessa mesma linha nas questões relativas à segurança nacional. Mas essa mudança se limita a Obama. Em se tratando dos democratas em geral, Matt Bennett, da Terceira Via, disse: "Ouvimos a mesma opinião registrada em 2008: eles são fracos, indecisos, temem usar a força. A culpa não é de Obama. Trata-se de algo que não pode ser solucionado num único mandato". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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