Obamadrama - últimos capítulos

Presidente enfrenta ao mesmo tempo a Fox News, cobranças do vice e tentativa de confisco de seu Nobel

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2009 | 03h23

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O e-mail provocativo de um leitor esboça um paralelo entre Hugo Chávez, o casal Kirchner, Lula e Obama. De comum entre os quatro, uma inquietante pinimba com a imprensa. "Depois de fazer a cabeça do casal Kirchner, estará Chávez influenciando a Casa Branca?", pergunta o leitor, ironizando a bordoada que a assessora de comunicação do governo Obama, Anita Dunn, deu no canal a cabo Fox News, no domingo passado.

Como, até prova em contrário, Obama não atua na mesma liga de Chávez e do casal Kirchner, sugiro a substituição do presidente americano pelo Maradona (ou, talvez, só a retirada do Obama, sem incluir Maradona, que, por mandar apenas na seleção argentina, não tem poderes para pressionar e fechar jornais e rádios), e também um indulto ao Lula, que, apesar de espiar a mídia a três por dois, preferiu investir pesado numa emissora chapa branca (TV Brasil) a jogar pesado com a concorrência.

A bordoada na Fox News foi o momento mais eletrizante dos últimos capítulos do Obamadrama que há nove meses se desenrola nos Estados Unidos. Em entrevista à CNN, Anita Dunn declarou, com todas as letras, que a Fox News não merece ser levada a sério porque não é um canal de notícias, mas uma linha auxiliar do Partido Republicano, razão pela qual, adiantou, a Casa Branca decidira tratá-la como se trata um adversário. Em miúdos: entrevistas exclusivas para a Fox News nos próximos meses, no, no, Nanette.

Regozijo na Fox News e entre os republicanos paleozoicos, que, como era de esperar, se fizeram de vítimas e redobraram os ataques a Obama e ao governo. Pressionado pela direita, pela esquerda, pelos liberais que nele depositaram esperanças desmedidas e até pelos gays, que também no domingo cobraram em passeata o cumprimento das promessas de campanha do candidato democrata, Obama está pagando caro pelo seu democratismo, pelo seu temperamento conciliador, por sua ingênua crença numa gestão apartidária e na boa índole de alguns (ou muitos) republicanos. Será que tudo vai mudar?

Nos últimos dias, Obama foi até ameaçado de perder seu vice, Joe Biden, e o Nobel da Paz.

Ao ler a reportagem de capa da Newsweek sobre a postura crítica de Biden diante da escalada na guerra no Afeganistão, Arianna Huffington sugeriu em seu site, Huffington Post, que ele renunciasse ao cargo. Melhor fazer um mea culpa agora do que daqui a alguns anos, num livro de memórias, como preferiram diversos estrategistas da Guerra no Vietnã, ponderou a grega mais poderosa de Washington e da mídia online.

O confisco do Nobel é mais um factoide da direita. Minguada a polêmica sobre a procedência ou não do prêmio, desencavaram um artigo da Constituição americana (artigo 1, seção 9) que proíbe qualquer autoridade do país de receber "emolumento e título" de monarcas e países estrangeiros. Theodore Roosevelt e Woodrow Wilson receberam, sem problemas, os seus Nobel da Paz quando exerciam a presidência; verdade que pelo que cada um havia feito, para pôr fim à guerra russo-japonesa e criar a Liga das Nações, respectivamente, e não por façanhas vindouras, como Obama. Mas se Bush inventou a guerra preventiva, o que impede a Academia Sueca de inventar o Nobel antecipatório?

No dia 13 de setembro, numa reunião com os cérebros da segurança nacional, na Casa Branca, Biden, contrário ao envio de mais 40 mil tropas para o Afeganistão, feito pelo general McChrystal, perguntou aos presentes quanto se gastaria naquela guerra este ano. Alguém respondeu: US$ 65 bilhões. E no Paquistão?, indagou o vice-presidente. "US$ 2,25 bilhões", informaram. Se os terroristas da Al-Qaeda estão quase todos no Paquistão, e o Paquistão possui armas nucleares, essa desproporção militar é um absurdo estratégico, observou Biden. Silêncio sepulcral no recinto. Os ataques terroristas, ocorridos em Lahore, na quinta-feira, provaram que Biden e quem mais duvida que a guerra no Afeganistão seja, como diz Obama, "necessária", estão com razão.

Por essas e outras, a revista inglesa New Statesman estampou na capa, semana passada, uma fotomontagem de Obama com o cabelo de Bush, identificando o compósito como "Barack Obama Bush", julgamento, a meu ver, apressado e injusto, pois Obama ainda procura a maneira mais eficaz e consensual de dar conta da plúmbea herança maldita que os republicanos lhe deixaram. Na última London Review of Books, David Bromwich faz um balanço acurado das dificuldades e vacilos do governo Obama e do "horror" em que se transformou o Partido Republicano, uma confraria de demagogos, falcões, mentirosos, santarrões e racistas, avessa ao convívio democrático.

Bromwich não deve ter ficado tão espantado com a prensa na Fox News quanto ficaram alguns comentaristas liberais americanos, como John Nichols, da The Nation, por exemplo. É possível que até tenha considerado positiva essa aparente mudança estratégica do governo Obama, cuja brandura tanto o desanima.

Na edição de sexta-feira da revista eletrônica Salon, Gene Lyons soltou o verbo a favor do chega pra lá de Anita Dunn. A Fox News é mais do que uma "linha auxiliar do Partido Republicano", virou "o braço direito do Ministro da Verdade de 1984", disparou Lyons. Desde a eleição de Obama, ela abdicou de vez da objetividade. Festeja qualquer tropeço do atual governo. A derrota de Chicago para o Rio foi por ela comemorada como uma vitória da "Nação Fox". Suas leviandades, distorções e mentiras já foram (e continuam sendo) compiladas pelo Media Matters for America. Propriedade de Robert Murdoch, presidida por um ex-consultor dos republicanos, Roger Ailes, mais conhecido como "Dr. Fox-enstein" por ter criado um monstrengo com repórteres rastaqueras e comentaristas com pouco ou nenhum escrúpulo pinçados de outras emissoras, a Fox News (vulgo Faux News) não faz jornalismo, e sim entretenimento disfarçado de jornalismo.

Mas, enfim, é apenas um canal a cabo, visto por 20 ou 30 milhões de telespectadores. Os demais 307 milhões de americanos? Estão ocupados com outras coisas, mais relevantes. E que assim continuem.

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