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'Oblómov', de Gontcharóv, volta para falar do 'homem supérfluo'

Personagem indolente criado pelo escritor russo é uma das mais fascinantes obras literárias do século 19

Flávio Ricardo Vassoler, Especial para o Estado

07 de setembro de 2019 | 16h00

Com tradução de Rubens Figueiredo, a Companhia das Letras acaba de publicar o clássico russo Oblómov (1859), de Ivan Gontcharóv (1812-1891), obra que consolidou o personagem Iliá Ilitch Oblómov, nobre que não precisa ganhar o pão com o suor do próprio rosto, como o protótipo por excelência do homem supérfluo, tipo literário que influenciaria toda uma geração de escritores russos, de Ivan Turgueniev (1818-1883) a Fiodor Dostoievski (1821-1881), de Liev Tolstoi (1828-1910) a Anton Chekhov (1860-1904).

Com a modernização sumamente tardia da Rússia – em pleno século 19, a pátria entre feudal e capitalista dos czares manteve a servidão como base de seu (sub)desenvolvimento econômico até 1861 –, a nobreza começa a se ver deslocada e questionada em face das novas demandas que a intelligentsia em litígio com o regime anacrônico e repressivo e o proletariado urbano em formação lhe impunham. O contexto histórico em transformação demanda de Oblómov ações efetivas para que o personagem, de bom coração e boas intenções, consiga se postar à altura das mudanças. 

Acossado por uma culpa de classe por causa da exploração secular a que os mujiques (camponeses) eram submetidos, o nobre Liev Tolstoi decide enveredar-se pelo estudo e pela prática pedagógicas, de modo a fundar, em Iasnaia Poliana, sua bela e vasta propriedade nas cercanias de Tula, cidade situada a pouco mais de duas horas ao sul de Moscou, uma escola em que senhores e servos emancipados estudariam conjuntamente. 

Protagonista do romance O Idiota (1869), de Dostoievski, o Príncipe Liev Nikoláievitch Míchkin conclama os patrícios de sua classe a visões de mundo e a atitudes radicalmente outras: “Porque eu mesmo sou um príncipe dos quatro costados e estou ao lado de príncipes. É para salvar todos nós, eu digo, que a casta não desapareça à toa, nas trevas, sem ter chegado a um acordo sobre nada, xingando por tudo e perdendo tudo no jogo. Por que desaparecer e ceder lugar aos outros quando podemos permanecer avançados e superiores? Sejamos avançados e, então, seremos superiores. Tornemo-nos servos para nos tornarmos superiores”. 

No Diário de um Homem Supérfluo (1850), a personagem de Turgueniev ao menos consegue legar suas impressões e, eriçado pelo desejo e pela paixão, entrevê a possibilidade de um contato mais estreito – de modo algum desprovido de dubiedade e hierarquia – com a criada Klávdia: “Apesar do nariz arrebitado e do hábito de rir sob o lenço, ela suscitou-me uma tão meiga paixão que, em sua presença, mal podia respirar; certo dia, no Domingo de Ramos, quando chegou sua vez de beijar reverentemente minha mão de senhorzinho, por pouco não me lancei a beijar-lhe os sapatos gastos de couro de bode”.

À diferença de Tolstoi, Míchkin e do homem supérfluo de Turgueniev, Oblómov, sempre deitado no berço esplêndido de seu sofá, elucubra em várias direções, entre uma xícara e outra de chá, e, hesitante e temerário, simplesmente estaca, sem conseguir agir. O dolce far niente oblomoviano pressupõe, como sombras a varrer o pó, a limpar o assoalho e a servir o chá preparado com o tradicional samovar, a legião de criados condenados a agir em troca do pão amanhecido de cada dia. Ainda que Oblómov não seja o mais acintoso dos senhores, seu privilégio de classe – ou, pior, de casta – faz com que a luta de classes se veja sintetizada, histórica e narrativamente, pela brutal e naturalizada expressão criado-mudo, sobre o qual Oblómov deposita os livros que sua letargia considera demasiado longos para serem lidos para além das primeiras páginas. [Se Macunaíma se teletransportasse para a Rússia e chegasse a tomar algumas xícaras de chá com o nobre Oblómov, a personagem do nosso Mário de Andrade (1893-1945) só faria suspirar: “Ai, que preguiça...”.]

Não fosse um amigo de infância a lhe apresentar uma jovem donzela e não fossem os servos a lhe arar as terras, Oblómov não chegaria a vivenciar o amor e sequer encheria os bolsos para, hoje e sempre, deitar em seu sofá acolchoado. Ocorre que, ainda que os cães não ladrem, a caravana da história passa: o caráter hesitante de Oblómov e seus patrícios não passaria despercebido à intelligentsia e aos ativistas revolucionários, que, em uma geração, fuzilariam os últimos herdeiros da dinastia Romanov e expropriariam as terras dos bebedores de chá. Se tivesse tido filhos, os herdeiros de Oblómov teriam que se ver com os comissários do Partido Bolchevique, ávidos por terras e grãos para alimentar os estômagos da Revolução Russa. No entanto, Oblómov bem poderia sentenciar: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa rapina indolente”. 

 

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