New Museum
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Obra da artista Lynn Hershman Leeson investiga como a tecnologia molda nossas vidas

Artista que se dedica ao tema desde os anos 1980 é objeto de exposição individual no New Museum

Jillian Steinhauer, The New York Times

16 de julho de 2021 | 10h00

NOVA YORK - Para mim, e acho que para muitos outros, a pandemia provocou muita introspecção envolvendo diferentes aspectos da minha vida. E o mais importante foi a minha dependência da tecnologia, o que considerei especialmente preocupante durante o ano passado. Num certo ponto, depois de meses de isolamento social pontuados por chamadas de vídeo e um uso febril do Twitter, senti que estava perdendo a cabeça, como se minha capacidade de distinguir o mundo virtual e o mundo físico estivesse derrapando. Uma sensação estranhamente hipnotizante e aterradora que relembrei recentemente depois de ver a exposição individual intensa e emocionante de Lynn Hershman Leeson no New Museum intitulada Twisted.

Artista e cineasta pioneira no campo das novas mídias, ela passou a maior parte da sua vida em San Francisco, tendo crescido em Cleveland, Lynn Hershman Leeson vem contemplando nossa ligação com as máquinas desde a década de 1960. Ela começou sua carreira seguindo caminhos mais tradicionais como o desenho, a pintura e a colagem e depois passou para as esculturas em cera, depois os vídeos e obras de arte usando discos de laser, telas sensíveis ao toque (na década de 1980), webcams, inteligência artificial e mais recentemente, em colaboração com cientistas, um sistema de purificação da água e DNA.

Como uma mulher realizando um trabalho experimental, com frequência sobre a identidade feminina, Hershman Leeson foi marginalizada durante décadas pelas instituições de arte estabelecidas. Em 2014 realizou uma retrospectiva das mudanças de carreira no ZKM Center for Art and Media, em Karlsruhe, Alemanha, e cinco anos depois sua obra foi peça central de uma exposição coletiva na galeria The Shed. Mas Twisted é sua primeira mostra individual em Nova York - e ela completou 80 anos na semana anterior à inauguração da exposição.

A exposição, com curadoria de Margot Norton, de algum modo faz uma reparação da sua exclusão: é um levantamento da sua obra forte e inteligente que concede a ela o crédito há muito tempo merecido. E também parece limitada e às vezes deficiente, omitindo muita coisa e ao mesmo tempo comprimindo muito do seu trabalho basicamente num único andar do museu.

A exposição me surpreende de modo similar a um álbum com os maiores sucessos: uma excelente introdução para os neófitos e uma dose de inspiração para aqueles familiarizados com o trabalho dela, mas não profunda o bastante quando você está sintonizado com a genialidade dela.

Lynn Hershman Leeson talvez seja mais conhecida por The Electronic Diaries (1984-2019), um projeto de décadas no New Museum numa galeria no piso térreo do museu. Nele tem gravações em vídeo falando sobre sua vida, particularmente seus traumas. O processo serviu como terapia, dando a ela a chance de se encontrar e considerar a índole da identidade de modo mais amplo, através das lentes de uma câmera. As obras (atualmente são seis partes) são quase bizarramente visionárias no sentido de como elas previram o advento de plataformas de postagens confessionais na mídia social e para algumas das suas primeiras e astutas observações a respeito. “Penso que nos tornamos uma espécie de sociedade de telas, diferentes películas que nos impedem de conhecer a verdade, como se a verdade fosse algo quase insuportável e demasiado para enfrentarmos, do mesmo modo que os nossos sentimentos”.

Os Diaries dão a ideia do estilo e das preocupações da artista antes mesmo de você seguir para o andar superior onde a exposição se concentra. A mostra, cronológica e temática, foca no mais importante tema da sua prática: a relação entre tecnologia e o indivíduo. Na época em que incorporou essa ideia, por volta dos seus 20 anos, Lynn estava grávida e foi hospitalizada com um problema cardíaco que ameaçava sua vida. Ela produziu desenhos e colagens de pessoas com partes internas do corpo repletas de equipamentos - uma maneira de visualizar os trabalhos ocultos do corpo e talvez imaginando meios mecânicos de se manter à distância da morte.

Dezenas dessas primeiras peças (mais do que necessárias) estão penduradas nas paredes da primeira sala, mas despertam interesse principalmente como documentos históricos. Esteticamente elas não competem com as Breathing Machines, ao lado. Essas esculturas engenhosas e cativantes consistem de caixas com moldes de cera assustadoras de rostos femininos. A sua presença no local desencadeia uma trilha sonora, seja a tosse e a respiração pesada de Butterfly Woman Sleeping (1967) ou o monólogo inquietante do Self-Portrait as Another Person (1965) que indaga: “O que você teme?” E diz, “sinto-me realmente perto de você”. A ideia de ser seduzido por uma máquina é recorrente na obra de Lynn, como também seu interesse na participação do espectador e o seu estudo de como as normas de gênero moldam as associações particulares das mulheres com a tecnologia.

Logo depois, Lynn iniciou uma exploração radical da identidade. Durante cinco anos a partir de 1973, a artista criou uma personagem chamada Roberta Breitmore que ela também representou no mundo real. Tendo estudado psicologia, ela criou uma história pregressa de Roberta e produziu mapas detalhando a linguagem do corpo e a maquiagem que usava para transformá-la na personagem. A artista se revelou como Roberta e expandiu sua personalidade por meio de experiências. Roberta obteve uma carteira de motorista, abriu uma conta bancária e frequentou um psiquiatra. Ela tinha uma escrita à mão distinta e mantinha um diário. Num determinado ponto, Roberta colocou um anúncio em um jornal procurando emprego de doméstica e um homem que respondeu ao anúncio tentou inseri-la numa rede de prostituição.

Twisted documenta extensivamente a figura de Roberta, com fotografias, roupas e uma avaliação psiquiátrica (O médico sugere um transtorno esquizofrênico, simples). O arquivo levanta a pergunta fundamental sobre que elementos formam uma pessoa. Além deles, quais são necessários, quais são supérfluos e quem decide?

Se há algo que Twisted deixa extremamente claro é a premonição de Lynn Hersman Leeson. Ela não só encontrou meios de usar tecnologias avançadas, mas também viu como essas tecnologias estão nos moldando. Seu vídeo Seduction of a Cyborg (1994) é uma parábola: uma mulher que não consegue ver recebe doses de ondas eletrônicas que destroem seu sistema imunológico e a transformam num ciborgue viciado em computador. Em seis minutos, antes do advento da mídia social, a artista previu a situação do meu cérebro confundido pela pandemia.

The Electronic Diaries contém uma lacuna: a artista deixou de produzi-los no final dos anos 1990 e os retomou 20 anos depois. A exposição não faz rigorosamente a mesma pausa, mas expõe o salto correspondente de um passado de tecnologias agora antigas para um presente de tecnologias futurísticas. Que aparecem em três novos projetos, entre eles Twisted Gravity (2021), uma série de painéis conectados a dois sistemas de purificação de água desenvolvidos em Harvard. Figuras de mulheres estão plastificadas e à medida que a água é purificada as figuras pulsam em cores neon. Belo e otimista, Twisted Gravity não tem a tensão que caracteriza a melhor obra da artista: uma visão profunda da tecnologia que é uma faca de dois gumes, que nos seduz e nos ludibria, mas também oferece a oportunidade de nos transcendermos.

O novo projeto que avança ainda mais na direção da dicotomia é The Infinite Engine (2013 - em curso), uma exploração multifacetada da bioengenharia e da modificação genética. Ocupando três galerias, ele abrange um conjunto de materiais, incluindo entrevistas por vídeo com cientistas importantes, uma orelha transplantada, um peixe geneticamente modificado que brilha no escuro e duas peças de resistência: um anticorpo que leva o nome da artista, desenvolvido com o Dr. Thomas Huber, e uma ampola contendo o seu arquivo artístico convertido em DNA, feito com Bill Peck. A instalação é uma mistura alucinante: Lynn apresenta os resultados da sua pesquisa, mas eu esperava mais de uma estrutura ou história que ajudasse a dar sentido a tudo isso. Estou satisfeito em saber mais sobre a criação, em 2002, de cabras com genes de aranha, mas sem mais contexto não compreendo as implicações.

The Infinity Engine representa a mudança recente de Lynn Hershman Leeson da mídia para a ciência e de um tom íntimo, especulativo, para a reflexão evangelista. Quanto mais tempo você passa na exposição, mais emerge a continuidade e não só porque a orelha transplantada lembra os fragmentos faciais em cera que ela produziu nos anos 1960.

A bioengenharia se debate com perguntas que Lynn Hershman Leeson vem fazendo o tempo todo, sobre o que nos faz humanos e o que é criar ou modificar a vida. Num determinado momento, um cientista que ela entrevista, Caleb Webber, pergunta retoricamente, “o que queremos ser no futuro?”. A frase ficou gravada na minha cabeça. É uma pergunta norteadora da carreira da artista e depois de seis décadas ela continua criando respostas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Este texto foi publicado originalmente no New York Times

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