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Obra de Monteiro Lobato pertence aos seus leitores

Em domínio público, autor difundiu grandes nomes da literatura mundial no Brasil

Pedro Bandeira*, Especial para o Estado

16 de março de 2019 | 16h00

Dentre tantos pioneirismos que marcaram a trajetória profissional de Monteiro Lobato, um dos principais foi a revolução que ele promoveu na oferta de Literatura para o Brasil de seu tempo. Como escritor, adaptador, tradutor e editor, ele foi prolífico. Mexeu em tudo, para todas as idades. Sua adaptação do Pinóquio, do Carlo Collodi, é muito mais engraçada do que o original, embora o escritor italiano, de acordo com a Lei de Direitos Autorais, só viesse a cair em domínio público a partir de janeiro de 1961. O trabalho de Lobato é tão primoroso, que na Itália deveriam oferecer a tradução da adaptação do brasileiro: os italianinhos haveriam de divertir-se a valer! Em Collodi, Gepeto fabrica uma marionete, que logo se demonstra falante e movente, mas Lobato foi mais longe, criando um primeiro capítulo hilário, em que Gepeto vai à marcenaria de um certo Mestre Cereja em busca de uma boa madeira para construir seu boneco e... lembro-me de rolar de rir com as peripécias que uma acha de madeira endiabrada começa a provocar, saltando e chocando-se com as canelas do pobre Mestre Cereja! Que delícia! Mas é claro que qualquer italianinho ou quem quer que seja sempre poderá ler o texto integral de Collodi.

Em 1930, Lobato lança Peter Pan, sua versão livre do livro do inglês James Barrie, que só cairia em domínio público em janeiro de 2008. E que versão! Tudo em uma oralidade primorosa que encantaria os inglesinhos de hoje, se tivessem a ventura de divertir-se com a tradução inglesa da versão do Lobato. Mas é claro que o original do Barrie continua intocado à disposição de quem quiser.

Lobato também nos ofertou o divertidíssimo Dom Quixote das crianças, fazendo com que até um pirralho como eu acabasse, um pouco depois, aos 12 anos, descobrindo dois grossos volumes encadernados em couro na estante de um tio e viesse a devorar os livrões do que eu imaginei na ocasião ser uma “aventura de cavalaria”! Mas o original do primeiro romance da história (e a maior joia da Literatura, na minha opinião) continua intocado por aí, com ilustrações de Gustave Doré, de Picasso, para quem quiser deliciar-se.

E não foi por falta de esforço do Lobato que a população brasileira continuaria no atoleiro do analfabetismo por mais muitas décadas. Lobato adaptou e remexeu os Grimm, Andersen, Perrault e, ao abrasileirar o imortal Robinson Crusoé, teve o “cuidado” de omitir todas as partes em que a solidão do náufrago demonstra ser também sexual. Mas foi por causa dessa adaptação primorosa de Lobato que na adolescência procurei o fantástico livrão do Daniel Defoe. Um portento, à disposição de quem quiser ler, letra por letra.

Não conheço trabalhos acadêmicos que tenham esmiuçado o Lobato tradutor/adaptador, mas, como leitor, passei a conhecê-lo mais um pouco ao verificar que, em sua tradução de Por quem o sinos dobram, não constam as páginas em que o americano afinal consegue comer a linda revolucionária espanhola. Pobre Hemingway! É... naqueles anos ninguém comia ninguém no Brasil... Pelo menos não na Literatura “séria”. E, nesse aspecto, Lobato era seríssimo!

Esse autor foi mesmo um formador de mim. Não só “inventou” a Literatura infantil que me profissionalizou e me sustenta (meu primeiro livro é uma tentativa descarada de imitar o fazer literário dele), como em minha opinião foi o melhor contista da primeira metade do século XX. Seus contos de humor são dignos de Wodehouse, de Jerome K. Jerome, de Mencken. Seu Bugio Moqueado poderia ter sido assinado por Edgar Alan Poe, se este fosse brasileiro. Brrr... Que medo! O melhor conto macabro da história da Literatura brasileira.

Fui formado pela Literatura infantil desse autor. É claro que fugi da gramática, da aritmética, da geografia e da física que ele procurou me ensinar, e, mesmo não gostando dos xingamentos racistas de Emília, o que me afastava e ainda me afasta de Caçadas de Pedrinho é a ideia de matar uma linda onça! Não posso aceitar que a minha maravilhosa Narizinho, minha primeira paixão, aquela delicadeza de mulherzinha, a mãezinha do sonho, possa esfregar uma faca de serrar pão no pelo macio de uma onça pintada, enquanto Emília a perfura com um espeto de frango... Ah, pra mim não!

No entanto, a sorte é que as obras de Lobato continuam e continuarão sendo publicadas em sua íntegra, com gramáticas, aritméticas, onças mortas e xingamentos preconceituosos pra quem quiser ler! De minha parte, continuo lendo tudo dele, e agora já posso mostrar toda a minha paixão por seu mais lindo livro: Reinações de Narizinho. Por isso, imaginando que haja muitos velhos brasileiros como eu, que se apaixonaram por esta personagem, minha adaptação chama-se Narizinho, a menina mais querida do Brasil. Lobato a aprovaria. Ou não?

Lembro-me de um evento em uma das primeiras Bienais do Livro de que participei. A certa altura, uma menina aí por seus 5 aninhos, passou por mim levando debaixo do braço um livro que eu havia escrito. Fiquei contente e comentei: “Que gracinha! Esse livrinho é meu...” Ato contínuo, a deliciosa menininha encolheu-se, abraçada ao livro, e me fuzilou com o olhar: “Não! É meu!”

É claro! Aquele livrinho era dela. Era dela inteiro, para imaginá-lo como ela quisesse! Não era mais meu! Com essa criança aprendi que um livro, depois de publicado, não é mais de seu autor. Ele voa, penetra nos cérebros de quem o lê, modifica-se lá dentro, toma outros coloridos, outras dimensões, e torna-se infinito. É verdade: meus livros não são mais meus, são dos meus leitores.

Por isso, Lobato não é mais dele, é muito nosso!

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