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Obra inédita de Oneyda Alvarenga orientada por Mário de Andrade é uma aula de música

Trabalho é um guia de iniciação à fruição musical pela ex-diretora da discoteca pública de São Paulo

João Marcos Coelho*, Especial para o Estado

07 de março de 2020 | 16h00

Em 1914, aos 21 anos, o jovem poeta Mário de Andrade botou seus poemas num envelope e mandou por correio para o então célebre poeta parnasiano Vicente de Carvalho. Numa cartinha, pedia-lhe a opinião sobre seus versos, a maioria sonetos. Jamais recebeu resposta. Tímido, chegou a bater no endereço de Carvalho, para confirmar que o poeta lá morava. Tudo certo. Soube, mais tarde, transformar a decepção juvenil em uma generosidade única: jamais deixou de responder a todos os que lhe pediam conselhos. Afinal, como diz em seu poema de 1929, “Eu sou trezentos, sou trezentos e cincoenta”. 

A publicação do livro A Linguagem Musical, de Oneyda Alvarenga (1911-1984), com estabelecimento de texto, introdução e notas de Luciana Barongeno, é duplamente interessante. De um lado, mostra a consistência da aluna de Mário no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, e que, por ele nomeada diretora da Discoteca Pública Municipal em 1935, realizou um trabalho de formiguinha, fundamental na formação de público, inédito no país. Oneyda – que ele preferia escrever com “i”, Oneida – não só deu acesso gratuito do público às gravações com um acervo então gigantesco de 1.000 discos, mas promoveu sessões de escuta e iniciação à audição. 

De outro, esmiúça uma linda história de trocas intelectuais entre professor e aluna que durou mais de uma década, a partir de 1931, quando a moça de 19 anos chegou a São Paulo, vinda de Varginha, cidade do sul de Minas Gerais, e foi admitida no Conservatório Dramático e Musical. Disciplinados, de 1933 em diante trocaram “cartas de trabalho” toda quarta-feira a respeito do livro, que nasceu como trabalho de conclusão de curso, o TCC, orientado por Mário, seu professor de História da Música. O manuscrito foi concluído em 1944,

A advertência inicial é enganosa. Nela a autora diz que “é, pois, simplesmente um livrinho didático, de vulgarização, e que a mais não pretende”. Dos oito capítulos, seis de fato podem ser considerados acessíveis ao público leigo em música e são, ao que tudo indica, subprodutos do trabalho de divulgação musical realizado por Oneyda à frente da Discoteca que hoje leva seu nome. Curtos, parecem “resumo-fichamento de ideias sem maiores discussões”, escreve Yara Caznok, da Unesp, no excelente posfácio. Mas outros dois – “Análise técnica da linguagem musical” e “Aspectos históricos da linguagem musical” -- ocupam sozinhos metade do livro e são bastante técnicos.

Influenciada pelo livro Como Ouvir Música, publicado em 1939 pelo compositor norte-americano Aaron Copland, mas só traduzido para o português em 1974, Oneyda constrói um itinerário simples para “ajudar o ouvinte inexperiente a aumentar suas possibilidades de prazer artístico”. E seu primeiro conselho é direto: “O requisito indispensável para bem ouvir música é... ouvir muita música. O simples contato com as artes facilita a percepção e compreensão delas. O gosto e a capacidade auditiva dos frequentadores assíduos de concertos melhoram sempre, mesmo sem nenhuma orientação preliminar”. 

Em econômicas quatro páginas e meia, Oneyda segue à risca o livro de Copland, de resto ainda hoje em dia ótimo guia para uma escuta adequada. Alerta que “nenhuma arte é imóvel” e que “diante de cada novo compositor, de cada nova peça”, o ouvinte deve sempre não se limitar a uma única audição. “Às vezes, uma única audição não autoriza um juízo definitivo, principalmente quando não se possui bastante treino. Em tais circunstâncias, é preciso ter humildade e paciência para adiar o julgamento até que nova o novas audições permitam um conhecimento seguro e uma crítica sem leviandade”. Dica muito importante, e que ontem como hoje afeta demais a música contemporânea. O compositor tem apenas uma chance de mostra-la ao público, e ele mesmo de ouvi-la em situação de concerto (o que é muito diferente da audição necessariamente empobrecedora no mp3, streaming, disco físico ou o que seja). Isso é condená-lo(a) à rejeição de ouvidos acostumados ao conhecido.Igualmente leves são os capítulos dedicados à “Inteligência musical”, ao “Prazer musical” e “Criação musical. O sentimento em música”. 

Note-se que o livro nasceu como TCC de Oneyda no Conservatório. Mário lhe propôs “um estudo sobre a linguagem musical observada do ponto de vista da estética modernista” e emprestou-lhe vários livros para a moça se apetrechar melhor para a empreitada. Daí Luciana Barongeno tirou o título de sua tese de doutorado “Lições de estética na biblioteca de Mário de Andrade”, que ocupa, em versão resumida, as 64 páginas iniciais. Ela esmiúça as trocas de correspondência entre eles, incluindo algumas inéditas. Deliciosos são os fac-símiles de algumas páginas do manuscrito de Oneyda, com anotações à margem, como Mário costumava fazer com seus livros. 

Às vezes Mário provoca a aluna em questões que ele mesmo enfrenta com alguma hesitação, como a do “belo horrível”, nesta anotação: “Verdade, Oneyda? E o chamado ‘belo horrível’? E o prazer dos que se deleitam em histórias policiais, em narração de crimes? Os que apreciam o estado de tensão angustiosa em que nos põem os romances de mentiras? Em todo caso estará certo? Porque mesmo nesses casos, paradoxalmente o prazer consiste justamente na emoção dolorosa” (1934).

É curioso como, na medida em que os anos passam, Oneyda ultrapassa a condição de aluna obediente que faz-tudo-que-seu-mestre-mandar. Luciana anota que ela “agora é capaz de recusar com desembaraço notas com sugestões em desacordo com sua visão particular do livro”. Em 1943, diz sem meias-palavras que “desisti de dar aos ‘Aspectos’ o feitio sociológico que você queria. Para isso eu precisaria estudar a sério sociologia e reestudar história da música nessa base. Era muito trabalho para um capítulo e eu não tenho tempo agora”. Ambos esperavam publicar o livro em seguida, mas não encontraram editor. “Em 1985, o boletim da Sociedade Brasileira de Musicologia publicou, com nota introdutória de Flávia Toni, a primeira versão, mostrando lado a lado o texto de Oneyda e as anotações de Mário”, esclarece Luciana. Esta é, portanto, a primeira edição do livro que quase se pode dizer escrito a quatro mãos, tamanha a interação entre mestre e aluna. Saboreá-lo significa conhecer um pouco mais o intelectual dominante no Brasil da primeira metade do século 20.

A LINGUAGEM MUSICAL

AUTORA: ONEYDA ALVARENGA

EDITORA: INTEMEIOS/FAPESP

196 PÁGINAS

R$ 48

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