Henry Fantin-Latour
Henry Fantin-Latour

Obra-mestra do poeta Rimbaud ganha novas traduções

‘Um Tempo no Inferno’ nos lembra que é preciso supor uma saída nem que ela seja pelo caminho mais duro

Caio Sarack, Especial para o Estadão

23 de outubro de 2021 | 15h00

O que a poesia pode fazer?

Antes disso um prólogo sobre os bastidores deste texto: por muitos minutos, ao ler a prosa poética de Rimbaud na tradução e coleção bilíngue produzida por Julio Castañon Guimarães para a editora Todavia, Um tempo no inferno e Iluminações (2021), folheio outra edição do poema, desta vez da N-1 Edições, que acompanha o estudo de Larissa Drigo, Desejos Ingovernáveis (2021), com outra tradução do poema, neste livro, ficou como "Uma estação no inferno". Depois dessas leituras todas, tinha neste papel apenas as seis palavras do primeiro parágrafo. 

Agora repleta de outras, mas antes, a página virtual em branco me fez perguntar genuinamente o que pode um texto como o do poeta francês. Conseguiria explicar a escrita de um texto na década de 1870, mas e a leitura dele nos anos de 2020? O que pode este texto? Ou ainda mais feroz: o que podem todos os textos como este, do passado ou de hoje? 

Ler um livro aqui e agora implica colocá-lo em contato com a realidade desse contemporâneo. Aliás, dizem muitos, que a realização da arte está justamente aí: a capacidade de se atualizar não pela maleabilidade ou por alguma gratuidade que a deixaria valer tanto quanto quisessem os leitores deste tempo ou de outro, ao contrário, assim pensamos seus defensores, ela teria uma característica própria que superaria os limites do real, porque guardaria algo mais profundo – ainda humano, é claro – uma resistência profunda que nega ser reduzida a uma utilidade do contexto ou convicção. 

Mas não só de defesas vivem os réus, mas da evidência de suas provas e, me parece, o texto poético está em maus lençóis diante do seu júri. Vamos à exposição do caso e do réu específico deste texto: a poesia de Rimbaud. 

Quando escrevo para um jornal sempre surgem duas forças aparentemente irreparáveis: a primeira é que a pauta esquenta-se e esfria-se ao sabor do pêndulo pouco artístico do mercado cultural; a segunda, é que o mercado cultural ainda é e sempre foi o espaço que legitimou a produção artística como parte do cotidiano e, por isso, presente na vida de tantas pessoas. Ou seja, convivo (penso que todos os que trabalham com isso) com duas condições que forçam o lugar cotidiano da cultura e o objeto artístico, qualquer que seja, a se estreitarem num corredor que vai espremendo-os, conduzindo-os e, por fim, modelando ambos. Deste cenário já extremamente incriminatório, a poesia de Rimbaud aparece no banco dos réus. Queria propor um jogo com o leitor e com a leitora, pensar uma situação lúdica para testar o que falei mais acima.

Vamos ao jogo: tentar acompanhar um trecho desse julgamento.

A palavra à Acusação 

Traz a primeira prova contra o acusado:

"Que era eu no século passado: só me encontro hoje. Sem andarilhos, sem guerras vagas. A raça inferior cobriu tudo — o povo, como se diz, a razão; a nação e a ciência.

Oh! a ciência! Retomou-se tudo. Para o corpo e para a alma, — o viático, — temos a medicina e a filosofia, — os remédios caseiros e as canções populares arranjadas. E as diversões dos príncipes e os jogos que eles proibiam! Geografia, cosmografia, mecânica, química!...

A ciência, a nova nobreza! O progresso. O mundo caminha! Por que não giraria?" (p. 13)

O poeta recalca o ódio contra a utilidade e contra o progresso, contra a ciência! É um negacionista! O que isso tem a ensinar a quem leia? Debate-se contra tudo de tal forma que não propõe saída alguma, simplesmente aprofunda a sensação de indiferença: se o poeta não informa a verdade, se o poeta não ensina a viver poeticamente dentro da vida real, para que serve hoje? Temos pouquíssimo tempo para terminar de ler, depois temos de levar o cachorro para passear, finalizar alguns e-mails do trabalho e, ainda por cima, precisamos nos entreter. Não há tempo para aprofundar o pessimismo, ao invés disso é necessário construir diante de tanta destruição.

    O que a poesia pode fazer? Nada, aliás, não haveria sequer motivo para ler poesia.

A palavra à Defesa

Traz a prova que redime o acusado:

"Que era eu no século passado: só me encontro hoje. Sem andarilhos, sem guerras vagas. A raça inferior cobriu tudo — o povo, como se diz, a razão; a nação e a ciência.

Oh! a ciência! Retomou-se tudo. Para o corpo e para a alma, — o viático, — temos a medicina e a filosofia, — os remédios caseiros e as canções populares arranjadas. E as diversões dos príncipes e os jogos que eles proibiam! Geografia, cosmografia, mecânica, química!...

A ciência, a nova nobreza! O progresso. O mundo caminha! Por que não giraria?" (p. 13)

O poeta não aceita a liberdade condicional, mas a quer completa, ele sabe, ao fim e ao cabo, que a vida não cabe nas fórmulas científicas de felicidade e realização. Os antidepressivos, os ansiolíticos, remédios para emagrecer ou para trabalhar mais e melhor, a poesia não segue o ritmo das obrigações, muito ao contrário nos liberta do fardo do trabalho e da diversão obrigatória, para que tenhamos chance de encarar uma humanidade diferente – aquela que nos coloca a todos como irmãos em espécie.

O que a poesia pode fazer? Tudo, aliás, haveria todos os motivos para ler poesia todos os dias, a todo instante.

    De volta ao jornal

    Ofereço à leitora e ao leitor esse jogo como pretexto. Pretexto para demonstrar a força da poesia de Rimbaud. O texto poético do francês que ressurgiu nos últimos meses em novas versões: com seleção de cartas e textos críticos de artistas contemporâneos de Rimbaud, como é o caso da edição da Todavia; além do caso também muito bem interessante de Desejos Ingovernáveis (2021), de Larissa Drigo, e o ensaio da pesquisadora e professora sobre a Comuna de Paris e Rimbaud, colocando o poema como um manifesto histórico-político que teve de ser poético para poder ser efetivamente político num período que a política era o recurso por excelência para aprisionar uns, violar outras e libertar poucos.

    A poesia de Rimbaud nos lembra a todos que, no fim, é preciso sempre supor uma saída nem que ela seja pelo caminho mais infernal, pelo corredor mais estreito – enfim, para expandi-lo com as próprias mãos. 

A fabulação, ou melhor, a imaginação poética sustenta sua importância porque nos interrompe em meio à violência automática e transformada em cotidiano. Ela atualiza uma chamada de atenção: "não serei mais capaz de pedir o reconforto de uma bordoada" (p. 21). Ler a poesia de Rimbaud nos faria, no limite, tornar a sua afirmação anterior numa pergunta de hoje: afinal, somos capazes de pedir a tal bordoada?

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