Bart Maat/EFE
Bart Maat/EFE

Obra-prima de Johannes Vermeer será analisada com tecnologia de ponta

'Moça com Brinco de Pérola (1665), tida como a 'Mona Lisa holandesa', pode ter mistérios desvelados

Nina Siegal, The New York Times

03 Março 2018 | 16h00

Como nasceu a Moça com Brinco de Pérola? Como Vermeer pintou a tela? Essas são, segundo Abbie Vandivere, conservadora da Mauritshuis Royal Picture Gallery, de Amsterdã, algumas das perguntas ainda não respondidas sobre o cultuado retrato da jovem de turbante azul e amarelo que olha sedutoramente sobre o ombro, pintado em 1665 por Johannes Vermeer. 

A resposta pode estar sob o rosto luminoso, oculta nas camadas de tinta e nos minerais pulverizados usados na tela feita há 350 anos. A busca está levando a um estudo intensivo e não invasivo da obra, com duração de duas semanas, que começa segunda-feira na Mauritshuis. O trabalho de exame e pesquisa, denominado The Girl in the Spotlight (A Garota em Evidência), é coordenado e supervisionado por Vandivere. 

Usando um arsenal de novas tecnologias exploratórias, algumas emprestadas da medicina – com nomes complicados como espectroscopia de reflectância de fibra ótica, difração de raios-X e tomografia de coerência ótica –, o museu/galeria espera reunir dados que permitam saber mais não apenas sobre o exterior como sobre a própria vida da Moça, como a obra é conhecida no museu.

Esta é uma das raríssimas ocasiões em que a Mauritshuis tira a Moça da parede. O trabalho de equipe será realizado com apoio do Instituto para Conservação, Arte e Ciência da Holanda e dele participam peritos da National Gallery of Art de Washington; do Rijksmuseum em Amsterdã; da Universidade Delft de Tecnologia; e da Agência de Herança Cultural da Holanda.

“Especialistas e equipamentos científicos de todo o mundo estão convergindo em torno dessa obra-prima ímpar”, disse Vandivere. “Tentaremos levantar a maior quantidade possível de informações num período muito pequeno – duas semanas –, trabalhando 24 horas por dia, todos os dias.”

A Moça é a estrela da coleção da Mauritshuis de pinturas holandesas do século 17 que atrai 400 mil visitantes por ano. Tirá-la das vistas do público faz diminuir a frequência de visitantes, razão de a equipe trabalhar contra o relógio. Mas a Moça não estará totalmente ausente: em lugar de levar o quadro para o estúdio de restauração, a diretora da Mauritshuis, Emilie Gordenker, decidiu fazer todo o trabalho no Golden Room do museu, um suntuoso salão com decoração do século 18. Ali, Moça e peritos ocuparão uma câmara de vidro provida de monitores de vídeo mostrarão aos visitantes o que está sendo feito. Uma reprodução tridimensional em alta resolução da tela ficará exposta num cavalete do lado de fora da câmara.

“Tivemos a grande preocupação de não isolar totalmente a obra, pois vem gente de todas as partes para vê-la”, disse Gordenker. “Ocasionalmente, ela estará numa plataforma sob o enfoque de câmeras de todo tipo e meio coberta por um scanner. Assim, os fãs e o público poderão acompanhar todo o processo.”

A chamada “Mona Lisa do Norte” foi examinada pela última vez há mais de 20 anos. Desde então, houve grande avanço instrumental usado no estudo de obras de arte. Em 1994, pesquisadores empregavam técnicas como radiografia, fotografia ultravioleta e reflectografia infravermelha, tirando ainda minúsculos fragmentos da pintura para exame.

Os recursos modernos usados em exames com imagem não são invasivos, o que quer dizer que não haverá escova ou chumaço de algodão à vista, nem retirada de partículas. As tecnologias reunidas para este exame vão “selecionar uns poucos terabytes de dados”, disse Joris Dik, da Universidade Delft de Tecnologia, um dos peritos. Os resultados poderão ser usados para se criar visualizações computadorizadas em alta resolução da pintura que até agora eram impossíveis. “É algo parecido com o Google Earth: clicamos e ampliamos, dentro e fora no quadro para examinar diferentes elementos nas camadas de tinta”, disse Dik. 

A Moça está em exibição na Mauritshuis desde 1881. Não era considerada uma particular atração da coleção – que inclui obras como a Lição de Anatomia do Dr. Tulp, de Rembrandt, e O Pintassilgo, de Carel Fabritius – até ganhar destaque numa grande exposição feita em colaboração com a National Gallery of Art de Washington, em 1995. Quatro anos depois, foi publicado o best seller do mesmo nome, de Tracy Chevalier. Em 2003, veio um filme com Scarlett Johansson que também se chamou Moça com Brinco de Pérola. 

Em seu livro, Chavalier imaginou a Moça como uma empregada doméstica de Vermeer, que posa para o quadro usando brincos de pérola da mulher do artista. Cria-se então um certo frisson entre o pintor e a modelo. Segundo Gordenker, a tela provavelmente não retratou ninguém em particular. Tentar descobrir a identidade da Moça na vida real – se é que existiu uma – não é um dos objetivos do novo estudo. “Uma das coisas que tornam esse quadro tão atraente é não sabermos de quem é a Moça”, diz. O estudo não se propõe a resolver esse mistério. / Tradução de Roberto Muniz

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