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Obra-prima do Nobel de Literatura William Faulkner ganha reedição

Experimento técnico e literário, 'O Som e a Fúria' anuncia declínio do estilo de vida do século 19

Caio Sarack*, Colaboração para o Estado

23 Setembro 2017 | 16h00

Ao ler o cortante título da obra do escritor norte-americano William Faulkner (1897-1962), O Som e a Fúria, somos tomados por uma certa circunstância que parece nos colocar, num só gesto, em atenção. Ressoando o monólogo de Macbeth, Faulkner retoma não só o peso existencial da peça de Shakespeare, como também traz com sua obra a consciência sobre o cânone. Impossível, portanto, falar dessa obra sem situá-la na história da literatura mundial: publicada no final da década de 1920, O Som e a Fúria não só é um retrato do desmoronamento de um tipo de vida social que remonta ao século 19, como também um experimento técnico literário. 

Frente a esse desafio, o tradutor da obra tem consigo a tarefa hercúlea de vertê-la para o português; a missão desafiadora, muito bem recebida por Paulo Henriques Britto, é publicada pela Companhia das Letras com dois posfácios: um do próprio tradutor, suas agonias e delícias com o texto de Faulkner; e outro, o interessantíssimo ensaio sobre a temporalidade na obra do filósofo francês Jean-Paul Sartre. A tradução convida o leitor a acompanhar suas dificuldades semânticas e até mesmo sobre as idiossincrasias das palavras. Omissões, constrições, alargamentos ou até mesmo juízo sobre o uso corrente da língua portuguesa no Brasil comparada ao uso do inglês colocam a tarefa de Britto entre a cruz e a espada.

Shakespeare nos escreve um dos versos mais conhecidos – e não por isso menos profundo – de toda literatura quando coloca em cena Macbeth que descobre a morte da rainha: “Life… it is a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing.” (Vida... é uma história contada por um idiota, repleta de som e fúria, significando nada). Quando abrimos a primeira página do livro do estadunidense, estamos apresentados ao tolo que irá nos narrar. Benjamin sofre de um forte retardamento mental, portanto o narrador assume o instrumentário literário, as palavras, as inversões e sobreposições de tempo como se estivéssemos acompanhando as percepções e representações de Benjamin. O mesmo se repete nos outros capítulos: a forma narrativa e o texto propriamente escrito emulam e criam a partir dos critérios que podem ser encontrados na personagem mesma que narra. A interação entre conteúdo literário e sua forma é apresentada pelo autor ao mesmo tempo em que ele faz uma crítica da literatura contemporânea, pensá-lo como prosador excepcional é também pensá-lo como um pensador da literatura. Ao fazer isto, Faulkner estende uma corda tensa por sobre o vão entre o enredo e as questões mais fundamentais da vida: enquanto estamos mergulhados nas sinestesias de Benjy – “O fogo subia e descia atrás dele e de Versh, deslizando no rosto dele e no de Versh. Dilsey terminou de me colocar na cama. A cama tinha o cheiro de T.P. Eu gostava do cheiro” – subitamente, apresenta-se um aforismo na boca do negro Roskus: “Morrer não é tudo.” A lucidez e a desrazão se irmanam, e isto ocorre entre Benjy e si mesmo, entre as outras personagens, entre a narrativa e o leitor. 

O que significa para a obra literária conter elos contraditórios, empatia e indiferença, ressentimento e redenção, lucidez e desrazão, vida e morte? Se a morte não é tudo, como falou Roskus, por que ela paira sobre a vida como o cedro do quintal que faz sombra sobre Benjamin, Quentin, Caddy, Jason, Dilsey? O filósofo existencialista Jean-Paul Sartre nos escreve em seu ensaio sobre a temporalidade em O Som e a Fúria: “A desgraça do homem é ser temporal”, portanto o livro só é possível, não porque o tempo abstrato solda o elo das contradições, mas sim o homem se faz no tempo, amarga e envelhece, vive e morre encarnando este tempo. E se assim o é, se todos estamos condenados a viver e morrer no tempo que encarnamos, como não imaginarmos a todos – junto com o esclarecido Quentin, o débil Benjy e o ressentido Jason – sob o mesmo signo, o símbolo de algo que nada significa, que não há razão própria? A resposta de nossa pergunta: recebemos, junto de Quentin, o relógio de seu avô dado pelo seu pai. “Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo”. Mas como esquecer algo que é constitutivo de nós?

O autor se situa no mundo e no seu tempo, conhece e reconhece os descaminhos que se desenham no desenrolar do século 20: se as personagens não são seu autor, ao menos seu autor é todas as suas personagens, escreve-nos Camus. Faulkner é um ser temporal, é ele que vira o suporte para suas personagens e as constrói com as palavras, com os vazios de textos, com a omissão e a repetição – a leitura de O Som e a Fúria é a explosão do espelho em que Benjy, tolo e alheio, mergulha nos eventos da vida, distante e submisso; é a beleza redentora que subterraneamente retiramos do niilismo suicida de Quentin. Não há fuga possível, é preciso ensurdecer ao som da fúria.

*Caio Sarack é mestre em filosofia pela FFLCH/USP 

O Som e a Fúria

Autor: William Faulkner

Tradução: Paulo Henriques Britto

Editora: Companhia das Letras

376 páginas

R$ 59,90

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