Editora Alfaguara
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'Oeste' é, desde já, um dos melhores livros de 2018

Romance de estreia da americana Carys Davies, conhecida como contista, livro fala de um viúvo que, no século 19, parte para a aventura

Paulo Nogueira *, Especial para O Estado

18 Agosto 2018 | 16h00

Dadas suas influência e supremacia nos últimos duzentos anos, é fácil esquecer que durante grande parte do século 19 os EUA ainda eram uma entidade geográfica e política flutuante. No final da Guerra da Secessão, o país ocupava apenas um terço da área atual. A compra da Louisiana à França, e depois um tratado com o Reino Unido, que integrou Idaho, Oregon e Washington, estenderam o território do Atlântico ao Pacífico. Mas foi só após a capitulação mexicana, que implicou a incorporação da Califórnia, Nevada, Utah e Arizona que os EUA assumiram algo próximo da forma contemporânea. 

E é esse contexto mutante – destacado pela famosa expedição de Lewis e Clark, a dupla de exploradores recrutados por Thomas Jefferson para cartografar o continente norte-americano, que constitui o pano de fundo de Oeste, o principesco romance de estreia da galesa Carys Davies. Aos 36 anos, Davies é uma celebrada contista, cujas coletâneas embolsaram uma baciada de prêmios prestigiosos. Como também aconteceu com George Saunders, a transição dela da narrativa curta para a longa resultou numa proeza. 

Em 1815, o protagonista Cy Bellman, viúvo de 35 anos, parte da sua fazenda de mulas na Pensilvânia para localizar animais eventualmente extintos, cujas ossadas acabam de ser encontradas no Kentucky. Para trás, deixa sua filha Bess, de 10 anos, confiada à árida tia Julie. O guia de Cy será um índio de 17 anos com o pitoresco nome de Velha de Longe. A jornada irá durar dois anos, por uma paisagem na época tão familiar quanto a superfície da Lua. 

Cy irradia uma aura magnética, entre o pragmático e o visionário: “Meu nome é John Cyrus Bellman e esta é a minha vida. Não é o que eu esperava, mas é assim é que é, pronto.” Só que “pronto” uma pinoia: refletindo os dois polos clássicos da cultura americana, esse rústico pragmático é também um transcendentalista. Os ossos evanescentes dos bicharocos assumem um caráter simbólico de demanda: “Bellman adorou aquela história, sentiu-se fortalecido por ela, pela ideia de que, qualquer que fosse sua noção de mundo conhecido, sempre havia mais alguma coisa com que você nunca tinha sonhado.”

O halo quixotesco é evidente, mas, paradoxalmente, também seu foco racional, que lembra até o método científico moderno sintetizado por Karl Popper, baseado em conjecturas e refutações. O que Cy pretende é testar uma hipótese no laboratório do mundo. Por outro lado, também caça uma quimera, uma miragem, num solipsismo egoísta. 

Apesar do carisma do aventureiro, a pequena Bess, abandonada num universo masculino hostil, no qual infelizmente os brutos também amam, pouco a pouco acaba ofuscando o protagonista. Em certos aspectos, Oeste quase sugere um Lolita que fosse contado pela ninfeta. Em dois anos Bess passa de criança a adolescente, despertando o desejo dos predadores. Com inteligência e dignidade tocantes, a menina é fiel à sua relação com o pai sumido. No dia em que Cy monta o cavalo, a tia o chama de “idiota” e aconselha a filha a esquecê-lo. Mas para Bess ele parecia “alguém com uma missão que o diferenciava dos outros.”

A prosa de Davies é lírica, de uma melancolia plangente e quase cósmica – mas também laboriosamente eficaz, mobilizando todas as ferramentas narrativas da ficção. Um romance curtinho, mas ilusoriamente singelo: de fato, com a densidade de um buraco negro. E com um desconcertante toque de conto de fadas, porém mais dos irmãos Grimm do que de Walt Disney – aqui, os súcubos podem realmente devorar os inocentes. Rola uma montagem alternada, que perto do fim entra em escalada, por meio de perigos simétricos, seja na viagem do pai, seja no reduto da filha. E, apesar de todo seu esplendor estético, Oeste vira um livro apaixonante, que salivamos para acabar e não acabar nunca, roendo as unhas até as clavículas. 

É assim que o grande romance histórico (como Guerra e Paz) se distingue da historiografia: combinando numa narrativa ficcional os dualismos da condição humana: o universal e o particular, a cultura e a natureza, o indivíduo e a espécie, a carne e o espírito, o físico e o metafísico, a matéria e a alma. E tudo isto coado nas existências de personagens idiossincráticos. Davies se esquiva ao anacronismo (a armadilha suprema do romance histórico) não apenas na acuidade da representação paisagística mas também na psicologia, delineando mentalidades que para nós são tão exóticas quanto os mamutes que Cy persegue. 

O terceiro e não menos arrebatador vértice do tripé de Oeste é o índio, que não se reduz ao bom selvagem de Rousseau. Ele não fala a língua de Cy nem este a língua dele, mas isso não desarma simpatias e até empatias meio enrustidas. Se o aventureiro é um Dom Quixote (com sua mistura de ridículo e nobreza, cristalizada na estapafúrdia cartola que usa), Velha de Longe corresponde a um Sancho Pança magrelo, ainda com as cicatrizes da espoliação das terras indígenas, mas também com um olho estoico no futuro. 

O narrador onipotente, ele próprio meio que anacrônico ou vetusto, é mantido sob rédea curta e acaba caindo como uma luva. Através dessa voz sóbria e equitativa, a autora não inflige ao leitor valores extemporâneos, mas espelha as múltiplas e caleidoscópicas sensibilidades, aqui e ali com um timbre mitológico (Bess é também uma espécie de mini Penélope, se debatendo para iludir seus pretendentes).

Se toda literatura digna desse nome contém uma lição não unidimensional sobre a condição humana, a deste romance talvez seja esta: “Uma coisa parecia importante até haver outra mais importante.” (pág. 97) Para Cy Bellman, quem sabe tal epifania chega tarde demais: escolhas erradas podem gerar consequências trágicas, pois a vida não volta – nem para nós nem para aqueles afetados pelos nossos equívocos. A meu ver, Oeste é desde já um dos livros do ano.

* Paulo Nogueira é autor de 'O Amor é um Lugar Comum' (Intermeios)

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