Ali Karakas | DIV
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OLHA, MAS NÃO ENCOSTA

O direito da mulher sobre seu corpo é uma conquista. O problema é o quanto esse direito está reconhecido e introjetado em todas as mentes

Maria Lucia Homem, O Estado de S.Paulo

15 Novembro 2015 | 07h00

 

Uma mulher queria ser bonita, desejável e chamar a atenção de todos. Normal. Foi educada para ser assim, desde o berço. Essa é a norma há uns 15 mil anos. No mínimo, 4 mil. Há estudos.

Uma mulher queria ter um corpo bonito, desejável e olhado. Ela seguia esse fio invisível e inconsciente de uma das formas mais insidiosas da submissão feminina e humana. Queria a beleza e a sedução, armas (máximas?) do seu sexo. Queria chamar a atenção e muitos likes. Essa mulher vive hoje.

Só que para isso precisaria ter um corpo “perfeito”, na cada vez mais perfeccionista e delirante cultura que é a nossa. Sim, cada vez que enveredamos pela ideia da perfeição podemos estar seguros de que se trata de um delírio. O lugar do humano, dizem os livros sagrados e laicos, está bem longe do lugar dos deuses (eles existindo ou não).

O caso é que, para materializar um ideal de perfeição, temos que fazer sacrifícios. Todos os sistemas políticos, mais ou menos coercitivos, sabem disso. E o altar em que se oferece o mártir é sempre um altar religioso. Aquele que ousa buscar o além deve trabalhar duro. E mais: aquele que deseja transcender qualquer situação deve lutar contra os pecados da preguiça, da gula, da luxúria, do prazer. Em nome de um prazer que para esse sujeito pareça maior. Todos os olhares sobre mim. Todos os olhares que me constituem na ciranda infinita do reconhecimento imaginário. Sou mulher e preciso do seu olhar.

Enfim, exercícios, dietas, suplementos, pílulas. Meu corpo fatiado em cada músculo a ser trabalhado, dominado. O controle sobre a alimentação para fazer a máquina corpórea se enquadrar nas apaziguadoras e “científicas” taxas de gordura, massa, volume. E ainda o consumo de substâncias – legais e ilegais – que se compram sem receita no grande mercado virtual chamado internet, no qual todas as taras e métodos são vendidos.

Tenho um corpo perfeito e preciso do seu olhar. Do seu, do dele, e mais aquele. De muitos. Centenas, milhares. De fato, milhões de seguidores.

E é isso que vai alimentar o sacrifício. Se eu não sustentar a promessa, autorizo você a me punir. O curioso é que no universal das imagens fetichizadas e narcísicas em que vivemos, a punição é justamente a imagem invertida de mim. E, num circuito entre erotismo e castigo, ofereço os nudes para a best (termos, aliás, que explicitam o estilo levemente cafona e anglo-saxonado da linguagem ainda colonizada que nos cabe).

O corpo é meu e eu o ofereço ao seu olhar.

Mas preste atenção: não pode pôr a mão.

De novo: o corpo é meu e você olha. Esse, o limite. Você pode usufruir dele dessa maneira. O corpo é meu, o olhar é seu. De preferência de longe e no escuro do seu quarto.

O corpo é meu e você não deve gozar dele além disso.

Não encosta, não encoxa, não penetra. Não fala nem assobia.

Aí um dos grandes cernes da discussão. Os limites entre eu e outro, meu e seu não são tão distinguíveis como gostaríamos. O feminino há milênios se faz a partir de um lugar amalgamado com o desejo do outro, ao mesmo tempo que busca barrar os desdobramentos da própria lógica desejante. Isso tem implicações em todos os níveis desse debate, incluindo o velho clichê “você provocou”. Você provocou o meu desejo. Sabemos bem que a discussão sobre as causalidades alimenta um dos polos mais complexos do pensamento, desde que o mundo é mundo e a razão tenta decifrá-lo.

Eu sei que eu sou bonita e gostosa e sei que você me olha e me quer. E sei que eu desejo que você me olhe e me queira.

Mas não encosta. Isso não é álibi para você invadir o meu espaço físico e subjetivo. Eu sou um sujeito moderno, livre e de direitos.

Não assedia. Não domina. É crime.

Meu corpo é meu.

E mais: meu útero é meu.

Desde o século passado, a mulher em quase todo o mundo é um sujeito de direito. Pleno. Para além do outrora unânime pátrio poder, a mulher pode ir e vir, comprar, vender, decidir suas vestes, votar e, pasmem, ler, escrever, pensar e decidir os destinos do coletivo. E há meio século pode ter em suas mãos o controle contraceptivo e o exercício de sua sexualidade de forma mais livre. Hoje em dia, aliás, a mulher controla não só a contracepção como a própria concepção. Não temos somente a pílula e os demais métodos, temos os bancos de sêmen. A mulher pode gerar sem o homem. E o contrário não é verdadeiro.

Não é de se estranhar, portanto, as vagas conservadoras. O pêndulo do poder se desloca e isso não é sem efeitos nem resistências. O direito da mulher sobre seu corpo é um direito conquistado. O problema é justamente o quanto esse direito está reconhecido e introjetado em todas as mentes. Por que isso ainda é uma questão? Não só porque o corpo da mulher atiça o olhar dos homens (e das mulheres) e ela ainda serve a isso. Mas também porque a mulher carrega o fruto em seu ventre. Ela é hospedeira. Nesse sentido, o corpo da mulher é transcendental. Ele transcende, por sua natureza e sua história, os limites do próprio corpo. Ele tem implicações diretas sobre o outro. O corpo da mulher está indissoluvelmente ligado ao outro que o deseja e ao filho que pode nascer desse desejo.

Meu corpo é meu. Meu corpo é para você. Meu corpo é para ele.

Mas meu corpo é meu. Acima de tudo, meu.

MARIA LUCIA HOMEM É PSICANALISTA, PESQUISADORA NO NÚCLEO DIVERSITAS/ USP E PROFESSORA DA FUNDAÇÃO ARMANDO ÁLVARES PENTEADO (FAAP). AUTORA DE "NO LIMIAR DO SILÊNCIO E DA LETRA" (BOITEMPO)

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