ROBERT PRATTA | REUTERS
ROBERT PRATTA | REUTERS

'Olha eu aqui!' Autora indica como lidar com narcisistas: ao se deparar com um deles, fuja!

Na mais recente contribuição à bibliografia sobre o narcisismo, autora oferece um conselho para lidar com todo tipo de superególatra: antes que seja tarde, fuja!

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

27 Agosto 2016 | 16h00

Eles estão por toda parte. Em lugares suspeitos e insuspeitos. A qualquer hora são vistos, e é justamente isso o que eles mais desejam. Nos Jogos Olímpicos, deram um show coletivo: de olho no telão, acenando para as lentes da TV, “Ó, nós aqui!” Narciso se mirava nas águas de um rio, nossos narcisistas não podem ver um espelho ou uma câmera.

Sua vocação para papagaios de pirata é inexcedível. Se ninguém os filma ou fotografa, uma selfie, essa cocaína especular, quebra o galho. Suprassumo do onanismo fotográfico, a selfie foi o maior presente que a era digital ofertou às pessoas mais carentes de atenção, reconhecimento e adulação. Ególatras e exibicionistas, não resistem a um flagrante de si mesmos, estejam onde estiverem, a sós ou acompanhados. Dane-se a paisagem, dane-se o entorno, dane-se a Monalisa meio desfocada ao fundo. “Ó, eu aqui!”

Não foi pelo simples prazer de brincar com as palavras que neologismos como “selfish” e “narcistick” foram inventados. “Selfish” é um amálgama perfeito de selfie com egoísta, em inglês; “narcistick”, uma mistura de narcisista com stick, pau de selfie em inglês. A pandemia de selfies veio confirmar uma suspeita: o espectro do narcisismo ronda o planeta, germe de outro vocábulo recente – narcisfera, que é onde os embeiçados pela própria imagem (não apenas no sentido icônico) gravitam com mais intensidade e desfaçatez, a inundar as redes sociais de inanidades verbais e irrelevâncias visuais que deveriam ser de consumo restrito. E mais outro: narcifobia, que é a aversão que nos provocam os autocentrados internautas do Facebook, do Instagram e do Twitter.

Como não ter medo de pessoas com excessiva (e invasiva) autoestima? Medo e, em muitos casos, inveja. Pois se nem toda selfie evidencia um “transtorno de personalidade narcisista” (para usar o termo científico popularizado pelo psicanalista Heinz Kohut, meio século atrás), nem toda autoestima excessiva faz mal à saúde psíquica; às vezes pode ser saudável, estimulante, terapêutica, defende o doutor Craig Malkin em Rethinking Narcissism (“Repensando o Narcisismo”), provocante estudo sobre os malefícios e benefícios do narcísico culto ao bem-estar, ao protagonismo e à soberba benigna.

Como estimar qual a taxa ideal de autoestima? A partir de que ponto a autoestima torna-se destrutiva e autodestrutiva? Ao contrário da febre, da hipertensão e dos terremotos, não existe um instrumento nem uma escala para mensurar isso. Se algum cientista por ventura inventá-la, não lhe faltarão nomes mais apropriados que o seu para batizá-la: Escala Kim Kardashian, Escala Justin Bieber, Escala Donald Trump, Escala Kenye West. Todos irreprocháveis.

Um analista político insinuou há tempos a emergência de um novo sistema bipartidário na América, não mais opondo democratas e liberais a republicanos e conservadores, mas narcisistas (sob a sigla PN) e seus antípodas (do Partido da Baixa Estima). Por seu próprio jeito mercurial de ser e por seu fetiche do excepcionalismo americano, Trump seria filiado ao Partido Narcisista – o mais afinado, por sinal, com a maioria dos políticos, bons (Franklin Roosevelt), maus (Collor) e ditadores (Hitler, Stalin, Mao, Gadhafi). Por motivos óbvios, Bill Clinton seria colega de legenda de Trump, até porque o impulso libidinal é elemento destacado na caracterização do narcisista.

Ou foi, quando Freud enfiou sua colher no conceito colhido na mitologia grega pelos clínicos ingleses Havelock Ellis e Paul Näcke, ainda no século 19. Quatro anos antes de produzir seu estudo sobre o narcisismo, em 1914, Freud já usava o termo para explicar “a escolha de objetos nos homossexuais, que primeiro tomam-se a si mesmos como objeto sexual (...) e procuram jovens que se pareçam com eles, e a quem possam amar como a mãe os amou a eles”. Depois, sua análise embrenhou-se por outras veredas, para alívio dos gays e das mulheres, ainda que muitas delas, fiéis ao arquétipo delineado por Freud, não consigam passar por uma vitrine (até de açougue serve) sem dar uma espiada de soslaio em sua refletida silhueta.

De tanto ouvir falar numa “epidemia de narcisismo” (segunda no ranking de expressões prêt-à-porter, a primeira ainda é “banalidade do mal”) e de ler a respeito de NPD (a sigla em inglês de Transtorno de Personalidade Narcisista), Kristin Dombek resolveu investigar a procedência da metástase narcísica e a transformação de um problema psíquico individual em fenômeno cultural, de resto, retratado (por Tom Wolfe) e analisado (por Christopher Lasch) em seu primeiro apogeu, na década de 1970, adrede rotulada de “Me decade”.

Admirada por seus conselhos de alta (repito: alta) ajuda nas revistas The Paris Review e n+1, Dombek escreveu um rico e sombriamente engraçado ensaio de 140 páginas, The Selfishness of Others (“O Egoísmo dos Outros”, a US$ 10 na versão kindle), com ênfase na narcifobia e como o temor aos que fazem do mundo um espelho pode distorcer nossas relações interpessoais. É a mais recente contribuição teórica à colossal narcisobibliografia.

Assim como existem narcisistas de variada espécie e periculosidade – inofensivos (a turma do selfie e da autopromoção nas redes sociais), vaidosos, gabolas delirantes (“eu já transei com mais de 20 garotas da Playboy”), agressivos, fálicos, corporativos (vulgo bozós), farisaicos, oniscientes – existem livros que nos ensinam a farejá-los à distância (pelos mimos maternos, pelas postagens na internet), a distingui-los de perto (pelo mau comportamento social: loquazes, autorreferentes, espalhafatosos, arrogantes), e a lidar com cada um deles, seja para evitá-los, desmascará-los e combatê-los de igual para igual.

Como se defender de um narcisista extremado? Joseph Burgo, autor de The Narcissist You Know (“O Narcisista que Você Conhece”), tem as dicas necessárias. Como se vingar de um narcisista e usar contra ele as técnicas secretas da manipulação emocional por ele utilizadas? Leyla Loric e Richard Grannon ensinam em How to Take Revenge On a Narcissist (“Como se Vingar de um Narcisista”).

Dombek, de quem já lera observações inteligentes sobre sexo, aborto e descrença religiosa, navega pela mitologia grega, a literatura clássica (o inevitável Ovídio), a teoria psicanalítica (Freud, Alice Miller, Donald Winnicott, Otto Kernberg), por reality shows, pela autoajuda online, pela psicosociologia pop. Ela faz questão de distinguir bem os narcisistas prosaicos daqueles que postam mensagens superególatras nas redes sociais, pegam em armas e invadem shoppings, escolas e cinemas, para extravasar seu instinto homicida. Seu único conselho: fuja antes que seja tarde. Dos dois.

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