Olhos puxados ao mar

Numa eventual guerra naval sino-japonesa, a China começa mais forte, mas o Japão é mais bem preparado

JAMES HOLMES É PROFESSOR DE ESTRATÉGIA NO NAVAL WAR COLLEGE; COAUTOR DO LIVRO RED STAR OVER THE PACIFIC; TEM UM BLOG CHAMADO THE NAVAL DIPLOMAT; ESCREVEU ESTE ARTIGO PARA A FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2012 | 03h09

JAMES R. HOLMES

Lorde Wellington qualificou o triunfo aliado em Waterloo como "algo que ocorreu por um triz, como você nunca viu na vida". O veredicto de Wellington poderia descrever o possível resultado de um confronto entre forças japonesas e chinesas pelas Ilhas Senkaku (nome japonês)/Diaoyu (como são chamadas na China), ou em outras áreas da costa do nordeste asiático. Essa batalha pareceria algo impensável antes de 2010, quando a guarda costeira do Japão prendeu pescadores chineses que navegavam nas costas das disputadas ilhas. No entanto, ela agora parece mais possível. Quando o Japão deteve e deportou ativistas chineses que desembarcaram nas ilhas em meados de agosto, um general chinês, Luo Yuan, pediu à China para enviar cem barcos para defender as Ilhas Diaoyu. Num editorial publicado em 20 de agosto, o Global Times, tabloide nacionalista chinês, alertou que "o Japão pagará por suas ações... e o resultado será muito pior do que eles esperam".

Isso é mais do que mera retórica. Em julho, a Frota do Mar da China Oriental realizou exercícios simulando um ataque de barcos anfíbios às ilhas. Os lideres chineses estão claramente pensando o impensável. E as pessoas saindo às ruas para destruir carros japoneses e atacar restaurantes de sushi significa que a população chinesa está apoiando seus líderes. Mas, quem sairia vencedor num improvável confronto de titãs no Pacífico - China ou Japão?

Apesar da imagem atual do Japão de militarmente fraco, uma guerra naval pode não significar uma derrota fragorosa do país. A Constituição japonesa "pacífica" do pós-guerra afirma que o Japão "renuncia à guerra como direito soberano da nação e à ameaça ou uso da força como meio de resolução de disputas internacionais". No entanto, a Força de Autodefesa Marítima Japonesa (FAMJ) vem acumulando excelentes recursos, como equipamentos de guerra submarina, desde a 2ª Guerra Mundial. E os marines japoneses são famosos por seu profissionalismo. Se os comandantes conseguirem gerir com competência suas vantagens geográficas, materiais e humanas, Tóquio pode até vencer uma guerra marítima contra a China.

Foram as guerras navais do passado entre os dois rivais que deram lugar à controvérsia atual envolvendo as ilhas. Durante a guerra sino-japonesa de 1894-1895, o engajamento de uma frota provocou uma reviravolta no domínio chinês da Ásia numa única tarde. A Marinha Imperial Japonesa, apressadamente improvisada a partir de barcos e componentes importados depois da Restauração Meiji (1868-1912), massacrou a Frota Beyiang da China, considerada amplamente superior em termos materiais. A Batalha do Rio Yalu, em setembro de 1894 foi vencida pela superioridade da marinha japonesa em capacidade dos marinheiros, artilharia e moral. Embora o Japão não seja mais uma potência em ascensão, a FAMJ preservou a cultura da excelência humana.

Se ocorresse uma reprise da Batalha do Yalu, como a marinha japonesa atuaria para conseguir vencer a China? O cenário é reconhecidamente improvável. Uma guerra entre China e Japão é algo duvidoso, a não ser que Pequim consiga isolar Tóquio diplomaticamente, ou Tóquio se isole por meio de uma diplomacia estúpida. Excluindo isso, um conflito provavelmente envolveria os Estados Unidos combatendo do lado japonês. A guerra é um ato político - "a arte de governar apontando armas", nas palavras do historiador naval Alfred Thayer Mahan . Mas deixemos por enquanto a política de lado e nos fixemos nas perspectivas de guerra em termos estritamente militares, uma disputa entre japoneses e chineses pelo poder marítimo.

Em números absolutos, não há dúvidas da superioridade chinesa. A marinha do Japão dispõe de 48 "grandes vasos de combate de superfície", navios cuja finalidade é reagir contra ataques de grandes frotas inimigas. A força da marinha japonesa inclui ainda navios de transporte de helicópteros; destróieres (contratorpedeiros)com mísseis teleguiados equipados com sistema de combate Aegis de última geração (uma combinação de radar, computador e controle de tiro existente nos navios de guerra da marinha americana); e uma variedade de destróieres de menor porte, fragatas e corvetas. Uma esquadra de 16 submarinos com propulsão a diesel e eletricidade amplia o poder da frota de superfície. Compare-se essa força aos 73 grandes navios da marinha chinesa, seus 84 barcos de patrulha equipados com mísseis, seus 63 submarinos. As perspectivas são assustadoras para o Japão. Em números absolutos, a marinha chinesa é muito superior.

Mas dados brutos podem ser enganosos, por três razões principais. Primeiro, como observou o estrategista Edward Luttwak, armas são "caixas de surpresa": até serem de fato utilizadas em combate, ninguém sabe com certeza se terão o desempenho anunciado. A batalha, e não as especificações técnicas, é o verdadeiro árbitro do valor da tecnologia militar. Prever com precisão como navios, aviões e mísseis responderão em meio ao estresse e o caos do combate é quase impossível.

Isso é especialmente verdadeiro quando o conflito envolve uma sociedade aberta contra uma fechada. As sociedades abertas costumam debater suas falhas militares em público, ao passo que as fechadas tendem a manter suas deficiências longe da vista, acrescentou Luttwak. Ele se referia à competição naval entre soviéticos e americanos, mas isso se aplica também à disputa sino-japonesa. No papel, a marinha soviética parecia se impor. Contudo, durante a Guerra Fria, os navios de guerra soviéticos navegando em alto-mar mostraram sintomas indiscutíveis de decadência, desde manutenção descuidada até cascos enferrujados. A marinha chinesa também pode estar escondendo alguma coisa. Já a qualidade dos equipamentos da marinha japonesa e seus recursos humanos poderiam, em parte ou inteiramente, contrabalançar a vantagem numérica da marinha chinesa.

Em segundo lugar, nas guerras existe a variável humana. No clássico relato The Naval War of 1812 (A Guerra Naval de 1812), Theodore Roosevelt afirmou que o sucesso da marinha dos Estados Unidos em combates navio a navio com a marinha real britânica foi resultado da qualidade do design e construção dos navio e da superior destreza de combate. Em outras palavras, fatores humanos e materiais. No caso do fator humano, ele é medido pela competência dos homens, da artilharia e de uma miríade de características que distinguem uma marinha de outra. Os marinheiros fazem essa diferença não quando ancorados num porto polindo equipamento, mas em alto-mar. As flotilhas da marinha japonesa navegam pelos mares asiáticos continuamente, operando sozinhas ou com outras marinhas. Em comparação, a marinha chinesa é inerte. Com exceção de uma ação antipirataria no Golfo de Áden, que teve início em 2009, as frotas de navios chineses somente aparecem para rápidos patrulhamentos ou exercícios, deixando pouco tempo para a tripulação desenvolver um ritmo operacional, aprender a profissão ou desenvolver hábitos saudáveis. A vantagem em termos humanos é do Japão.

E, em terceiro lugar, é um erro reduzir o problema apenas às frotas. Uma guerra naval não seria um simples confronto marinhas no nordeste asiático. A geografia situou os dois titãs asiáticos próximos um do outro: seus territórios, incluindo as ilhas mais isoladas, são plataformas "inafundáveis" para mísseis e porta-aviões. Armados e fortificados, esses locais em terra constituem instrumentos formidáveis de poder marítimo. Assim, é preciso incluí-los no poder de fogo de ambos os países.

O Japão forma o arco norte da primeira cadeia de ilhas que contorna a linha costeira asiática, constituindo a fronteira leste dos Mares Amarelo e da China Oriental. Nenhuma ilha entre o Estreito de Tsushima (que separa o Japão da Coreia) e Taiwan está a mais de 800 quilômetros da costa da China. A maioria das ilhas, incluindo Senkaku/Dyaoyu, está muito mais perto que isso. Nessas águas pouco claras, qualquer possível área de confronto estaria ao alcance do poder de fogo das tropas instaladas na costa. Ambos os exércitos possuem uma força área tática com um raio de combate que alcança os Mares Amarelo e da China Oriental e chega ao Pacífico Ocidental. Ambos possuem mísseis de cruzeiro antinavio que se somam a sua capacidade de ataque.

No entanto, existem algumas assimetrias. Os mísseis balísticos convencionais da marinha chinesa podem atingir regiões por toda a Asia, pondo em risco forças japonesas antes mesmo de elas deixarem o porto ou seus aviões decolarem. E o 2ª Corpo de Artilharia da China, a força de mísseis, teria instalado mísseis balísticos capazes de atingir alvos no mar a partir do continente. Com um alcance estimado de mais de 1.600 km, esses mísseis podem chegar a qualquer ponto dos mares da China, atingindo portos marítimos em todas as ilhas japonesas, e ir ainda mais longe.

O cobertor chinês é mais curto. Examine o caso das Ilhas Senkaku, as mais difíceis de defender do ponto de vista japonês. Elas estão situadas na extremidade sudoeste da cadeia de ilhas Ryukyu, que estão mais próximas de Taiwan do que de Okinawa ou das maiores ilhas do Japão. Defendê-las a partir de bases distantes seria difícil. Mas se o Japão mantiver permanentemente seus mísseis balísticos 88 antinavio, facilmente transportáveis e operáveis, e uma equipe especializada em mísseis nas ilhotas e ilhas vizinhas de Ryukyu, suas tropas terrestres podem criar áreas de fogo sobrepostas que converteriam os mares próximos em zonas proibidas para os navios chineses. Uma vez instalados, seria difícil desalojá-las, mesmo para decididos pilotos e lançadores de foguetes chineses.

Quem aglutinar forças marítimas, aéreas e terrestres de modo a se tornarem a arma mais letal de combate no mar, tem uma boa chance de vencer. Pode ser o Japão, se seus líderes militares e políticos pensarem criativamente, adquirirem o equipamento correto e o dispuserem no mapa para obter o máximo efeito. Afinal, o Japão não necessita derrotar o exército da China para vencer um confronto no mar porque ele já detém as terras disputadas; tudo o que precisa é negar o acesso à China. Se os mares do nordeste asiático se tornarem terra de ninguém, mas as forças japonesas permanecerem ali, a vitória política será de Tóquio.

O Japão também desfruta da luxo de concentrar suas forças em casa, ao passo que a marinha chinesa está dispersa em três frotas espalhadas ao longo da costa da China. Os comandantes chineses enfrentam um dilema: se concentrarem as forças para ter superioridade numérica durante as hostilidades, correm o risco de deixar outros interesses a descoberto. Será prejudicial para Pequim deixar desprotegido, digamos, o Mar do Sul da China durante um conflito no nordeste.

E finalmente, os líderes chineses seriam obrigados a considerar quanto uma guerra naval poderia atrasar o projeto de ampliar o poder marítimo do país. A China apostou seu futuro diplomático e econômico em grande parte numa marinha transatlântica poderosa. Em dezembro de 2006, o presidente Hu Jintao ordenou aos comandantes das Forças Armadas que montassem uma "marinha popular poderosa" para defender as linhas marítimas vitais - em particular as rotas que ligam os exportadores de energia no Oceano Índico aos usuários na China - "não importa como". Isso exige um grande número de navios. Se o país perder parte da sua frota num confronto sino-japonês, mesmo em caso de vitória, Pequim poderá ver revertidos "em uma tarde" seus esforços para se tornar uma potência mundial.

Esperemos que os líderes militares e políticos da China compreendam tudo isso. Assim, a Grande Guerra Naval Sino-Japonesa de 2012 não sairá destas linhas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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