Oliver Stone, o ensolarado

Expert em sombrios filmes de guerra e tramas da Casa Branca, o cineasta saboreia o clarão democrata

Laura Greenhalgh e Ivan Marsiglia, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2008 | 17h41

Oliver Stone está feliz. E não esconde o estado de ânimo. Quando se põe a falar da vitória de Barack Obama, intercala frases do tipo "oh, meu Deus, esse é um grande momento". Vai fundo nas manifestações de admiração pelo presidente eleito dos Estados Unidos. "Confio na melhor parte da sociedade americana. E Obama a representa." Reconhecido em todo mundo por filmes de alta densidade dramática - como Platoon, de 1986, ou Nascido em 4 de Julho, de 1987, ambos relacionados aos horrores da Guerra do Vietnã - Stone parece ter trocado a luz sombria dos campos de batalha pelo clarão da volta dos democratas ao poder. E foi nesse tom que falou na última sexta-feira ao Aliás, por telefone, de sua casa em Los Angeles.Conta que não participou diretamente da campanha de Obama, embora admita ter colaborado financeiramente com ela. E nem teria tempo para sair por aí, como cabo eleitoral: enquanto o senador negro visitava o país de ponta a ponta, propagando o discurso da mudança, o cineasta corria contra o relógio para finalizar o filme W, que estreou recentemente nos EUA ( e em breve chega ao Brasil), cujo roteiro tenta mostrar com que acasos o rebento menos talentoso do clã Bush chegou à Casa Branca. Se as debilidades de George Walker Bush são bem evidentes para Stone, o cineasta, mais escancarado é o ressentimento de Stone, o cidadão: "Ele foi o presidente da guerra. Só pensou nisso, só fez isso. Muitos o apoiaram, mas uma boa parte dos americanos atravessou todos esses anos sentindo vergonha". Perguntado se a inicial ?w? tem mais a ver com ?war? do que com ?Walker?, ironiza: "Não, mas pode ser entendido assim". Também usou iniciais para batizar o filme JFK , de 1991, que explora os contornos obscuros do assassinato de John Kennedy, embora tenha preferido chamar de Nixon o filme em torno do "presidente Watergate" que rodou em 1995.Nascido em Nova York em 1946, filho de um corretor graúdo da Bolsa de Valores que perdeu fortunas no mercado de ações, Oliver Stone estudou em Yale, lutou no Vietnã, foi preso por porte de maconha, teve aulas de cinema com o diretor americano Martin Scorsese, mas professa admiração pelos mestres europeus Godard e Buñuel. É certamente um dos mais laureados diretores de cinema das últimas décadas - tem três estatuetas do Oscar, duas como diretor e uma como roteirista, fora outras tantas indicações, e ainda prêmios nos festivais de Berlim e Veneza. Admite que seu cinema de matriz política é feito mesmo para influenciar as pessoas, o que lhe rende certa implicância por parte da crítica. Recusa-se a ser visto como o cineasta especializado nos escândalos e intrigas da Casa Branca, diz que seu interesse primeiro é lidar com os valores da sociedade americana e não consegue fugir à provocação dos entrevistadores: sim, no futuro, bem que gostaria de dirigir um filme chamado simplesmente O. Hoje, ao menos, é a inicial da vez. Você é um diretor com particular interesse nessa instituição americana, a presidência. Como anda seu humor por esses dias?Estou mais do que feliz com esse grande momento da história dos Estados Unidos. É, potencialmente, uma mudança de jogo, representada pela vitória de Barack Obama. Eu realmente tenho fortes esperanças de que as coisas vão mudar, que vamos pôr um ponto final na era Bush e construir uma nova imagem para a América com base nos valores pelos quais sempre lutamos. É o momento deste país se recolocar diante dos olhos do mundo e diante de si mesmo. Precisamos reencontrar nossos valores. Acredita que a "mudança" prometida pelo presidente eleito realmente vá acontecer?Quem pode dizer ao certo? Não sei. O que sei é que Obama é muito inteligente, focado, e sabe que precisa pôr o país em outra direção. Pode levar tempo e haverá resistência, naturalmente. Não podemos ignorar a existência de um núcleo conservador muito forte na sociedade, como vocês bem sabem aí no Brasil. Há gente poderosa que não quer mudança. Olha, essa eleição não foi um passeio, sob qualquer ponto-de-vista que se veja. Foi uma vitória dura. A situação complicada da economia certamente ajudou, e acho mesmo que tornou essa vitória possível. Mas não se trata de uma vitória arrasadora, não. Como Roosevelt, Obama terá que solucionar questões complexas para mudar um sistema fortemente baseado na violência e na cobiça. Esse é o desafio. Porque a violência e a cobiça envolvem dinheiro. E tem dinheiro grande nessa parada. Que dinheiro?O orçamento de defesa dos EUA hoje é da ordem de US$ 1 trilhão. Uma enorme quantidade de riqueza é aplicada na guerra e em segurança. Falo aqui do conceito de segurança adotado pelo governo que está saindo. É muito difícil quebrar conceitos. Existe um imenso sentimento de medo na América hoje, um medo que só vi crescer ao longo dos últimos anos. Espero que essa nova geração, de gente jovem entusiasmada com Obama, mude esse sentimento. O medo foi uma estratégia política de Bush?Sem dúvida. E a grande coisa que se deve temer é o próprio medo. Pode parecer um clichê, mas é a pura verdade. Obama nos deu esse novo sentido. Ele não está assustado. Não parece aterrorizado como Bush, o homem das ameaças, do combate ao terror, o "presidente da guerra", blablablá. Bush disse ontem: "Esta é a primeira vez na história americana que acontece uma transição durante a guerra" (risos). Espero que ele não esteja nos gozando, porque qualquer pessoa que já tenha estado em uma guerra de verdade sabe que isso é bobagem. Este é o estilo de Bush. Já Barack Obama não está enfrentando a idéia de guerra, exatamente porque persegue a paz. A paz está logo ali, você só tem que fazê-la. Mas a guerra continua...Só que Obama não fica nos pressionando para manter o pânico. Ele não alimenta a engrenagem do medo, como Bush fez nesses últimos oito anos: medo, medo, medo. Daí Bush nos dizia "Ok, eu posso resolver isso, me dêem mais dinheiro e poder que resolvo o medo de vocês". No final das contas, tudo o que ele nos deu foi mais medo (risos). Você participou diretamente da campanha democrata?Não. Fiz doações, fui um contribuinte privado, mas apoiei a campanha. Apoiei oralmente, falando onde quer que surgisse o assunto, escrevendo a respeito quando convidado. Acompanho a trajetória política de Obama desde a chegada ao Senado até 2005, 2006, quando ele começou a disputar a indicação do Partido Democrata. Se pensarmos no que seria uma agenda crucial para Obama, que pontos você introduziria nela? Fechamento de Guantánamo? Retirada de tropas do Iraque?Vou responder com base naquilo que pessoalmente acho importante. Penso que ele deveria direcionar recursos para reconstruir a América. Isso é o que importa hoje. Precisamos pensar em novas fontes alternativas de energia para nos livrar da dependência da gasolina, precisamos investir mais em educação, precisamos encarar a reforma na área de saúde, enfim, agora é preciso colocar recursos neste país. E recuperar o respeito por nós mesmos, que foi profundamente abalado. Como assim?Bush vinha gastando por ano US$ 1 trilhão nessa economia maluca de guerra e pedindo mais dinheiro para financiar os conflitos. Foi um período temerário, que consumiu muitos dos nossos recursos. Isso pode mudar radicalmente agora, basta que Obama redirecione 25% do orçamento de guerra para investimentos no país, implementando uma nova política de caráter nacional. É o que deve ser feito depois de toda essa gastança inútil. Evidentemente, a indústria da guerra movimentou muitas corporações, lobbies foram formados, interesses se colocaram. Hora de mudar! Em vez de guerra, queremos o controle do clima, e, neste ponto, Al Gore está certíssimo, pode trabalhar com Obama para fomentar mais cooperação, mais tolerância e, fundamentalmente, mais paz para os Estados Unidos. Há muito por fazer: temos que derrubar barreiras raciais e ao mesmo tempo fechar Guantánamo. Mas tudo diz respeito, no fundo, à recuperação dos valores americanos. Obama realmente significa a recuperação desses valores?Sim, esta eleição comprova o que estou dizendo. Viram o comprometimento dos mais jovens? Houve uma participação em peso na campanha. Viram quantos cidadãos saíram de casa para votar? Nunca houve tamanha disposição. Isso já é a demonstração de um valor cívico recuperado. Meu Deus, este é um grande momento. Você parece dizer que os anos Bush representaram um baque na auto-estima americana.Mas claro. Muita gente apoiou Bush nestes anos todos, mas muita gente também sentia vergonha pelas coisas que ele fazia, vergonha pelos valores que ele evocava. Mas os envergonhados sabiam que essa situação um dia iria mudar. Aprendi no Vietnã que o idealismo sempre poderá superar o pessimismo. Ok, sou um bom garoto e estou confiante no que virá. É só o que consigo dizer e repetir, repetir (risos). Acredito na melhor parte da América e penso que Obama a representa. Quando começou a se ligar nos enredos da Casa Branca, que deram em filmes como ?JFK?, ?Nixon? e agora ?W?, sobre George Walker Bush?Não sou um cineasta interessado apenas na Casa Branca ou na presidência americana. Sou um cineasta interessado na América como país, e por isso também trabalhei sobre temas como o Vietnã ou Wall Street. Pude levantar grandes histórias tanto em Kennedy, quanto em Nixon, Reagan ou Bush. Mas, sem dúvida, Bush teve mais impacto em nosso país do que Nixon e Reagan combinados. Em 2040 ainda estarão falando no que ele fez - seus netos no Brasil vão falar dele... Bush envenenou a atmosfera. "Vejam o que aconteceu na América. O que houve com vocês, rapazes?" É inacreditável. A crise de crédito que ele nos deixou fez cicatrizes no mundo todo. Quando filmou ?JFK? você foi criticado por uma suposta tendência conspiratória. Mas dias antes das eleições, Obama foi alvo de neonazistas que ameaçaram matá-lo. Presidentes democratas são mais vulneráveis do que os republicanos?Sim. Eles são mais abertos a transformações, por isso despertam mais resistência. Mais medo. E mais gente conservadora não os aceita. Exatamente como ocorreu no Brasil nos anos 60, levando a um golpe militar. Espero que nada aconteça a Obama, mas houve rumores e não acho que esse tipo de risco esteja afastado nos dias de hoje.Que expectativa você tem para a normalização das relações entre Cuba e EUA a partir de agora? A poderosa comunidade cubano-americana vai finalmente aceitar o fim do bloqueio econômico à ilha?Tudo está na mesa. As relações exteriores dos EUA vão passar por transformações, Cuba não ficará de fora. Estou otimista. Mesmo porque esses caras (da comunidade cubano-americana) envelhecem e morrem. E as novas gerações não deverão ficar tão presas ao passado. Tanto nos EUA quanto em Cuba. É preciso negociar e negociar. 'W' foi finalizado às pressas para ser lançado antes das eleições?Não. Nós o fizemos em tempo recorde porque achávamos que Bush era um tema importante para este país discutir. Sua política, a guerra em que nos colocou, o estado de insegurança e medo em que nos encontramos, mereciam ser tratados em um filme. Ele se colocou na posição de rei do mundo. De "George, o Rei da Floresta". Essa é uma situação perigosa. Nossa Constituição foi violada por suas políticas. Precisamos saber que América votou nesse cara, que forças econômicas o apoiaram, quem seria o próximo Bush - Sarah Palin? - qual o novo idiota que poderá vir para reforçar os valores de cowboy que ele encarna. Foi por isso que fiz o filme. Passamos anos no escuro, sem as informações que temos hoje, possíveis pelo trabalho do jornalismo investigativo. Só agora sabemos das ilegalidades cometidas por essa administração, especialmente pelo senhor Dick Cheney (vice-presidente de Bush) . Como artista e diretor de cinema, seu objetivo é influenciar politicamente o público?Sim e não. Mas qual o problema? Faço filmes para ter impacto, para fazer sonhar e também pensar. Minha questão é como expandir a consciência das pessoas. Para que servem os filmes, afinal de contas? Só para fazer dinheiro? Não. Servem para elevar de alguma forma o grau de consciência das pessoas, fazê-las ver o mundo de outra maneira.No futuro podemos esperar por um filme intitulado 'O'?(Risos) Ai, ai, ai. Gostei disso, é uma boa idéia.A sociedade americana seguirá dividida, mesmo com Obama? Obama reabilita nossa democracia, é um bom homem, representa o melhor lado da América. Mas sua vitória é apenas o início. Adoro o fato de que ele seja negro e diga que a América pode ser multicolorida, também mais tolerante com os imigrantes. É um ideal difícil de se concretizar, porém belo. As pessoas precisam acreditar em alguma coisa. É o que mantém o mundo em movimento, faz as novas gerações crescerem e buscarem alternativas. É um passo importante. Graças a Deus temos esse senhor para se opor a tudo isso que está aí. Graças a Deus, graças a Deus. JOGO VICIADO"Medo, medo... daí Bush dizia ?me dêem dinheiro que eu resolvo o medo de vocês?"SÍNDROME JFK"Democratas são mais vulneráveis. Espero que não aconteça nada a Barack Obama"

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