Onda nada a ver

Para surfista e repórter que cobriu conflitos, o negócio é botar prancha na água por amor - e não para ganhar a crista do pódio

William Finnegan, The New York Times, O Estado de S.Paulo

01 Novembro 2015 | 02h02

Os missionários da Nova Inglaterra que chegaram ao Havaí em 1820 ficaram horrorizados ao ver pessoas surfando enquanto eles navegavam em barcos a vela. "Alguns de nós, derramando lágrimas, viraram o rosto diante daquele espetáculo", escreveu Hiram Bingham, o líder dos missionários. Essa exibição devastadora da "barbárie" seminua - na realidade, o "he'e nalu", rico de significados religiosos tradicionais - teria de ser erradicada. Vinte e sete anos mais tarde, com a destruição da cultura havaiana por obra das mudanças postas em prática com a ajuda dos missionários, Bingham escreveu com satisfação referindo-se ao "declínio e descontinuidade da prancha de surfe".

Evidentemente, o surfe nunca se extinguiu totalmente. Alguns havaianos, principalmente Duke Kahanamoku, que ganhou o ouro na natação nas Olimpíadas de 1912 e 1920, o mantiveram vivo, e o esporte foi se difundindo lentamente em todo o mundo. Hoje são milhões sem conta surfando. As melhores ondas em todas as costas acessíveis do mundo estão superlotadas de praticantes. Até em lugares medíocres frequentemente encontram-se multidões. Surgiu a indústria multibilionária do surfe, ansiosa por "promover o crescimento do esporte". E, agora, o comitê organizador da Olimpíada de Tóquio propôs a inclusão do surfe nos Jogos Olímpicos de 2020. Quando ouvi a notícia, pensei: "Muito bem, os calvinistas não conseguiram acabar com o surfe, mas talvez as Olimpíadas consigam".

A competição organizada é totalmente periférica ao surfe em si. As pessoas surfam por amor. Os surfistas viajam até o fim do mundo para encontrar ondas enormes. Passei grande parte dos meus 20 anos caçando ondas em todo o hemisfério sul. A maioria dos surfistas tem períodos de descanso na própria casa que eles mal conhecem. Dedicar-se ao surfe implica uma profunda imersão, literal e filosófica, no oceano. O objetivo, se há um objetivo, é de certo modo um mergulho na beleza. É possível surfar por dezenas de anos sem pôr os olhos numa competição de surfe.

Mas, com o aumento da popularidade, criou-se uma estrutura competitiva sem nenhum profissionalismo, diferente em cada região. O que há de mais visível é um circuito internacional, no qual alguns dos melhores surfistas mundiais fazem milagres ocasionais em baterias de 30 minutos. O julgamento é confuso, obtuso, subjetivo. Afinal de contas, o surfe tem mais a ver com a dança do que com o futebol americano. E depois há o oceano. Se as ondas são boas, a competição será boa - e nesse caso eu provavelmente farei parte do público global, grudado na transmissão ao vivo pela internet, esperando que algo transcendente aconteça. Se forem precárias, será impossível ficar assistindo.

O surfe dá boas fotos. E permite fazer vídeos impressionantes. Mas não é um esporte para espectadores. Com exceção de alguns locais, é terrivelmente tedioso de olhar. Difícil ver o movimento na praia, e em geral não há muito. Os surfistas podem ficar horas olhando ondas, mas estão acostumados à calmaria. Todos os outros ficam muito mais satisfeitos com as gravações.

Acrescentar um esporte às Olimpíadas é tarefa monumental. No surfe, quem se encarregou disso foi um magnata das sandálias de praia, Fernando Aguerre, que cresceu na Argentina e fez fortuna na Califórnia. Fernando trabalhou como um mouro por 20 anos. Um esporte olímpico precisa de uma "confederação mundial" . Aguerre foi eleito nove vezes à presidência da Associação Internacional de Surfe, pouco conhecida, que evidentemente qualifica.

Para demonstrar seu amplo apelo, um esporte precisa de muitos filiados e de associações nacionais, e Aguerre reuniu uma centena. A lista começa com o Afeganistão e inclui Nepal e Letônia. Países sem saída para o mar tem lagos, onde é possível praticar um stand-up paddle com um remo, que conta como surfe segundo as normas inventadas para essa finalidade. Aguerre afirma que 35 milhões de pessoas surfam, inclusive 2 milhões no Japão. Esses números parecem exagerados; por outro lado, é impossível verificá-los.

O Comitê Olímpico Internacional, que escolhe os esportes a serem acrescentados ou eliminados do evento, se preocupa com o oceano, em relação ao surfe. Será que essa fera indomável proporciona um "campo de jogo igual para todos"? Aguerre ofereceu a solução: piscinas artificiais com ondas. Míseras imitações, com ondas pequenas, fracas, curtas de água potável, mas pelo menos essas pequenas ondas falsas são idênticas, e a tecnologia certamente se aperfeiçoará.

Por enquanto, parece que a estreia do surfe na Olimpíada de 2020, pressupondo que a proposta de Tóquio seja aprovada, ocorrerá no oceano, na península de Chiba, que tem ondas no verão. Aguerre promete criar uma atmosfera impressionante de "festa na praia" em torno do evento. Na realidade, ele constantemente lembra o COI de que pode trazer o "estilo de vida jovial" de que as Olimpíadas precisam para se renovarem (o skateboarding também é uma proposta para Tóquio) e invoca Duke Kahanamoku. Inflamado, quando uma proposta anterior fracassou, Aguerre anunciou: "O surfe naturalmente está decepcionado por não ter sido incluído".

Entretando, parece grosseiro criticar sua visão idealista. Os motivos de Aguerre não são apenas comerciais - ele vendeu sua empresa de sandálias e é um filantropo muito ativo. "Se o surfe chegar às Olimpíadas," disse, quando o contactei, "será possível levá-lo a lugares onde teria de existir, como África e Ásia". Deixando de lado o fato de que muitos locais de surfe africanos e asiáticos já são tremendamente superlotados, nunca me ocorreu que deveria se praticar o surfe em algum lugar, e muito menos em todas as partes do mundo. Ma talvez Aguerre esteja certo. Talvez o cociente de felicidade do mundo possa aumentar. Que floresçam mil piscinas de ondas!

Desejo, egoisticamente, que o surfe saia de moda, deixando as ondas para os ultraconservadores. Mas isso não irá acontecer. O que acontecerá, muito provavelmente, são as Olimpíadas e uma outra onda de crescimento e de interesses comerciais. Hiram Bingham deve estar se revirando no túmulo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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