Onde anda Clouseau?

O romancista Somerset Maugham dizia que a Riviera francesa é um lugar ensolarado para personagens sinistros. No domingo, um desses personagens entrou num hotel de Cannes e saiu rapidamente US$ 133 milhões mais rico.

HARRY MOUNT, HARRY MOUNT, ESCRITOR, JORNALISTA BRITÂNICO, É AUTOR DE HOW ENGLAND MADE THE , ENGLISH - FROM HEDGEROWS TO HEATHROW , (PENGUIN, UK). ESCREVEU ESTE ARTIGO PARA , O JORNAL DAILY MAIL, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2013 | 02h14

Numa ação incrivelmente ousada, o assaltante solitário entrou no Carlton Hotel, o mais glamouroso da cidade e com toda a frieza, rosto encoberto e ameaçando os funcionários com uma pistola, roubou uma grande quantidade de diamantes e joias da Leviev Diamonds, um dos maiores grupos joalheiros do mundo, que estavam em exposição no lobby do hotel.

Debaixo do nariz dos seguranças, o bandido mascarado pôs as joias numa maleta e saiu caminhando calmamente pela Croisette - a avenida em frente ao mar onde estrelas de cinema, modelos e bilionários costumam aparecer para ver e ser vistos.

Nos últimos anos, a Croisette se tornou o campo de caça favorito dos ladrões de diamantes mais audaciosos do mundo. Em maio, durante o Festival de Cinema de Cannes, US$ 1,5 milhão em joias foi roubado do cofre do quarto do hotel de um joalheiro americano que trabalha para a Chopard, um dos centros de comércio de diamantes mais famosos da Suíça.

Dias mais tarde, um colar de cerca de US$ 2,4 milhões também foi roubado por um ladrão em uma recepção de magnatas do cinema em Cap d'Antibes, um resort ainda mais exclusivo, não longe dali. O próprio Carlton de Cannes - o centro do glamour da Riviera desde sua construção, em 1911 - revelou-se um alvo particularmente irresistível. Já em agosto de 1994, três ladrões armados de metralhadora invadiram a joalheria do hotel e limparam suas prateleiras, levando joias no valor de cerca de US$ 59 milhões. Nunca foram presos.

Mas o roubo de domingo foi ainda mais humilhante. As primeiras estimativas calcularam o valor das joias roubadas em US$ 53 milhões. Entretanto, após um detalhado levantamento do inventário, a polícia francesa acreditava que o valor chegaria a nada menos que US$ 133 milhões.

A operação teve todos os elementos cinematográficos - e, de fato, em 1955, Ladrão de casaca, de Alfred Hitchcock, foi ambientado justamente no Carlton de Cannes. No filme, o ator Cary Grant faz o papel de um ladrão sofisticado, aposentado, suspeito de roubar os diamantes pertencentes à mãe milionária de sua amada, Grace Kelly.

Mas essa não é a única semelhança com Hollywood. Os principais suspeitos do roubo fazem parte de uma gangue conhecida como Os Panteras Cor-de-Rosa, nome inspirado no primeiro filme do inspetor Jacques Clouseau, interpretado por Peter Sellers, sobre um ladrão internacional que planeja roubar o maior diamante do mundo. Em algumas de suas ações passadas, a gangue - que age no mundo inteiro - fez referências provocadoras e zombeteiras ao filme.

Em 2002, depois de um assalto à Graff's, uma joalheria de Mayfair, no centro de Londres, um membro da gangue, Milan Jovetic, de Montenegro, escondeu um anel de diamantes azuis de US$ 750 mil no pote de creme de beleza da namorada - o mesmo recurso usado na comédia A Pantera Cor-de-Rosa. A ação dos ladrões, entretanto, não teve nada de engraçado. Durante todo o tempo, um cúmplice de Jovetic brandia um revólver Magnum .357. O bando levou joias no valor de US$ 35 milhões, das quais só foi possível recuperar o equivalente a US$ 4,5 milhões.

Em maio de 2005, a Graff's foi novamente assaltada, ao que se presume, de novo pelos Panteras. Dessa vez foram levadas joias no valor de US$ 1,5 milhão.

Na quinta-feira, um dos chefes do bando, o bósnio Milan Poparic, de 34 anos, fugiu de uma prisão suíça onde cumpria pena de 6 anos por outro roubo de diamantes em Neuchatel, na Suíça, em 2009. Na fuga, um grupo de comparsas de Poparic invadiu a prisão de Orbe jogando uma van contra o portão principal do edifício.

Em seguida, mantiveram afastados os guardas com rajadas de fuzis Kalashnikov enquanto Poparic e outro homem, um sequestrador suíço chamado Adrian Albrecht, escalavam o muro da prisão e entravam numa van que os aguardava, fugindo a toda velocidade. Como se o incidente não fosse suficientemente embaraçoso para as autoridades suíças, Albrecht escapara da mesma cadeia, em 1992. E, em maio deste ano, um terceiro membro dos Panteras fugiu da prisão de Bois-Mermet, em Lausanne. A suspeita é que Poparic tenha se reunido com seus antigos cúmplices e coordenado o assalto de domingo em Cannes.

E cúmplices não faltam. Além de bem equipada, a polícia calcula que a organização criminosa reúna cerca de 200 ladrões, muitos deles ex-soldados da antiga Iugoslávia, calejados pelas guerras nos Bálcãs. O grupo estaria envolvido em assaltos à mão armada a 120 joalherias em mais de 20 países, dos Estados Unidos à Suíça, de Dubai à Espanha, que lhe renderam mais de US$ 575 milhões.

A polícia atribui aos Panteras todo tipo de crime, de narcotráfico a assassinatos - mas a especialidade do bando é mesmo o tradicional roubo de joalherias. As técnicas usadas nos assaltos não são muito diferentes das ações clássicas em que os bandidos arrebentam os vidros das vitrines ou balcões e levam as joias. Eventualmente, porém, eles gostam de incrementar suas ações com uma pitada de ousadia cinematográfica.

Em outro assalto memorável da quadrilha, em Biarritz, na costa ocidental da França, os Panteras deram uma mão de tinta a um banco de praça perto da joalheria que iriam atacar para que os transeuntes não sentassem ali e se tornassem testemunhas acidentais da façanha.

Em 2007, durante o assalto a uma loja em Ginza, o bairro do comércio de luxo em Tóquio, suspeitos de pertencerem à gangue roubaram uma tiara de diamantes de US$ 2,3 milhões. Eles jogaram gás lacrimogêneo em três balconistas - que ficaram temporariamente cegas, mas sem se ferir mais gravemente - e em seguida levaram a tiara, colares e outras joias. As gravações das câmeras de segurança mostraram os ladrões entrando calmamente na loja, elegantemente vestidos com camisas brancas engomadas, um deles portando até um guarda-chuva. A ação durou apenas 36 segundos. Fugiram de bicicleta, driblando habilmente o trânsito pesado da metrópole.

Em 2005, foi outro o método de fuga usado pelos Panteras Cor-de-Rosa numa ação em St. Tropez, França, onde o bando, após invadir e limpar uma joalheria, desapareceu a bordo de uma lancha. Nessa operação, usaram máscaras e camisas floridas estilo havaiano.

Em 2008, quando assaltaram uma filial da Graff's - um de seus alvos favoritos - em Dubai, forçaram a entrada da loja jogando duas limusines contra as portas, levando joias no valor de US$ 12 milhões.

E, como os criminosos de Hollywood não gostam de repetir disfarces, os Panteras também são criativos no figurino bandido. Em 2008, marmanjos vestiram roupas femininas para roubar a joalheria Harry Winston, de Paris. Usavam perucas loiras, óculos de sol e lenços da moda, mas levavam ocultas granadas de mão e revólveres Magnum .357. Fugiram com esmeraldas, rubis e diamantes no valor de US$ 100 milhões.

Em 2009, em mais um assalto à Graff's, dessa vez na Bond Street, Londres, usaram o que havia de mais moderno em matéria de maquiagem. O prejuízo em joias roubadas na ação chegou a US$ 60 milhões.

Seria um erro, porém, achar que esses ladrões são do tipo romântico. Os Panteras são conhecidos por procurarem se apoderar da riqueza sem o menor escrúpulo, prontos a solucionar qualquer problema com seus Kalashnikovs. Em 2005, o balconista de uma joalheria de Viena que teria reagido levou um tiro no rosto, em outro roubo atribuído aos Panteras.

A experiência em todos esses assaltos tem provado que raramente as joias levadas pelo grupo são recuperadas. Colares, tiaras e braceletes são desmontados imediatamente, o ouro e a platina são fundidos e as pedras preciosas, vendidas sem grande dificuldade no mercado internacional de diamantes. Resulta que prender os autores dos roubos é mais fácil que encontrar as peças roubadas. E, como se viu, eles continuam agindo, apesar das prisões.

Em 2007, três membros do bando foram acusados de participar do maior roubo de joias do Japão, quando foram levados US$ 22 milhões em mercadoria, inclusive o colar da condessa de Vendôme, com 116 brilhantes e um diamante central de 125 quilates. Em 2008, três Panteras foram condenados por assaltos realizados na França. Outros foram presos em Chipre, Mônaco, Roma e Atenas - onde, em março de 2012, foram descobertos três sérvios que usavam perucas, estudando o ambiente numa joalheria ateniense. Um deles fugira recentemente da cadeia local.

Com uma equipe tão ampla e versátil, a organização parece, até agora, invencível. Mal a polícia corta uma cabeça dessa hidra, duas ou três renascem em seu lugar. Para os joalheiros preocupados com seus colares de diamantes, a verdade assustadora é que os Panteras são muito numerosos e insistem em fugir das prisões, de maneira que, aparentemente, nem um exército de inspetores Clouseaus de verdade - por mais "brilhantes" que fossem - parecem capazes de colocá-los na cadeia. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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