Art Streiber
Art Streiber

Onde está o grande romance da geração millenial?

Se ainda não surgiu uma obra-prima, autores de até 40 anos já surgem como promessas

Mark Athitakis, The Washington Post

20 de abril de 2019 | 16h00

Há um mês, mais ou menos, entrevistava o romancista Bret Easton Ellis quando ele me fez uma pergunta: “Onde está o grande romance dos millenials?”. Como nós da Geração X estamos pouco interessados em lidar com questões importantes, brincamos um pouco com a ideia antes de dar de ombros e desistir. Mas a preocupação de Ellis ficou comigo. Não é que os millenials sejam incapazes de escrever romances muito bons e ambiciosos. Uma Terra Fantástica: Swamplândia, de Karen Russell, e America Is Not the Heart, de Elaine Castillo, vêm à mente. Mas os millennials não têm como apontar para um marco geracional altamente reconhecido da mesma forma que nós da Geração X podemos: o filme Uma Vida Iluminada (2005) foi feito a partir do livro Está Tudo Iluminado; ou Graça Infinita, ou A História Secreta – nem mesmo um Psicopata Americano.

Os millennials têm muito material dramático para trabalhar. As gerações cujos membros mais velhos estão agora prestes a completar 40 cresceram com a ascensão da internet e a crise da economia; hiperconsciência global e narcisismo de Instagram; uma força de trabalho que praticamente tem como missão uma educação universitária, combinada com dívidas estudantis incapacitantes; “Sim, nós podemos”, depois bonés “Make America Great Again”. As tramas estão lá; tudo o que precisávamos, presumivelmente, eram os livros.

Não muito tempo atrás, o romancista Tony Tulathimutte sugeriu que estaríamos equivocados ao pensar que essa mistura de dilemas socioeconômicos levaria a um conto abrangente de “sexting” (envio de imagens de conteúdo sexual por celular), responsabilidade de adultos e AOC (Alexandria Ocasio-Cortes, política identificada com os millenials). “O romance geracional, como o Grande Romance Americano, é um reconfortante mito romântico”, escreveu ele no New York Times. Mas Tulathimutte sugere que os millennials não desistiram de um desejo romanesco de se explicar. Em vez disso, desistiram na soleira do romance social – a “besta com bilhões de pés”, como Tom Wolfe o definiu em ensaio que, para gerações tornou-se um modelo de uma importante obra de ficção que capturou a atenção dos leitores.

Por que: que atenção? Poucas figuras culturais trazem pelo menos um sinal de reconhecimento universal, e muito poucos deles são escritores; a Netflix sozinha contém muitos programas prontos para atender a uma compulsão exagerada para qualquer humano empregado razoavelmente acompanhar.

Em meio a tudo isso, o apelo da ficção literária está diminuído: de acordo com a Association of American Publishers, as vendas de ficção para adultos caíram 16% entre 2013 e 2017.

Assim, talvez não seja surpresa que os escritores mais jovens, agora enfrentando um momento muito mais difícil ao tentar invadir o mercado literário, possam querer conferir inteiramente o negócio de ficção. 

No ano passado, Ottessa Moshfegh publicou um maravilhoso romance melancólico, My Year of Rest and Relaxation (Meu Ano de Descanso e Relaxamento, em tradução livre), que é exatamente sobre o que é: saindo do trabalho, escapando da desgastante engrenagem do trabalho e cortejo e amizades, apenas apagando as luzes e dormindo por meses, tendo queixas e tensões, encrustando-as em camadas de drogas e ironia tão espessas que se qualificariam como estratos geológicos. “É como se eu estivesse no inferno”, lamenta o narrador do romance para sua antiética psicóloga. “Inferno? Eu posso te dar algo para isso”, ela responde.

Há uma série de escritores millenials cuja sensibilidade você pode chamar Moshfeghian – bem instruídos nos truques e alegorias de escritores de gerações passadas, que visam rompê-los em pedaços em nome de enfrentar o medo e ansiedade em maneiras que gerações passadas dissimularam com a sátira. Eu penso em Carmen Maria Machado, que em O Corpo Dela e Outras Farras faz um remix de contos de fadas e episódios de Law & Order em um lote surrealista, erótico e queer de histórias. Ou Valeria Luiselli, que em seu brilhante novo romance, Arquivo das Crianças Perdidas, rouba dos modernistas para desenvolver uma linguagem que combata as narrativas sulcadas sobre a fronteira entre os EUA e o México. Agora Rebekah Frumkin, que em sua ambiciosa estreia de 2018, The Comedown (A Derrocada) traz uma robusta história de múltiplas gerações acusando os boomers de desajeitados quanto a raça, religião e dinheiro. Ou Sally Rooney, cujo romance de 2017, Conversas Entre Amigos, lhe rendeu o apelido de “grande escritora millenial”, graças ao seu belo texto revisitando o bêbado da antiquada história de adultério.

Há outros que eu poderia acrescentar, sugerindo que as crianças estão muito bem – Angela Flournoy, Nathaniel Rich, Yaa Gyasi. Mas mesmo se eu continuasse a ampliar a lista, esse problema de atenção reaparece de novo: nenhum desses escritores são nomes conhecidos, não na forma como um David Foster Wallace ou uma Donna Tartt tornaram-se quando suas obras foram lançadas nos anos 1990. E independentemente de como você descobre os méritos desses romances milenares, nenhum de seus autores encaixa-se no molde de “porta-voz da geração”. Isso tem pouco a ver com o interesse por si próprio de um selfie – Luiselli é uma escritora expansiva e um exemplo perfeito, mas como a cultura mudou, nós simplesmente não temos mais espaço para um romancista que seja outro porta-voz de uma geração. A ideia de uma celebridade literária, antes parte do establishment americano nos anos 1960 e 1970, tornou-se um conceito um tanto quanto irônico nos anos 1980 e 1990. Hoje é um paradoxo.

Mas se isso nos poupar de uma geração de grandes e volumosos livros extremamente sérios – será um resultado positivo para a cultura, se não para os balanços financeiros das editoras. A decadência do antigo aparato literário significa uma nova era de engajamento pela cultura literária – não mais as entonações atualizadas de Updike em programas de madrugada na TV. Sem mais expectativas ou Grandes Homens romancistas que faziam de tudo para aparecer nas capas de revistas.

Eu suspeito que nada disso satisfaça Bret Easton Ellis. Seu novo livro, White, é um conjunto de ensaios pessoais nos quais ele rejeita os millennials como a “Geração Medrosa” que se transforma em pomposa quanto a filtrar a cultura pela identidade e não pela arte com letra maiúscula. Talvez ele esteja certo em sugerir que jovens artistas brilhantes têm menor probabilidade de destilar suas ideias na forma secular do romance. Mas também pode ser que a diversidade de escritores que fazem o trabalho de escrever uma grande ficção revele a necessidade de reconsiderar o que deveria fazer um grande romancista, como deveria escrever e se parecer. A grandeza está lá – só está operando na periferia de onde estamos acostumados a procurá-la. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.