Onde o Brasil aprendeu a ser urbano

Em sua birra do Rio, atiçada pelos 200 anos da chegada de d. João VI, Cabral de Mello chega perto do ressentimento bairrista

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2008 | 11h23

O carnaval do Rio começou, oficialmente, na última terça-feira, com um cortejo de carruagens e roupas do início do século 19. Era uma homenagem da prefeitura carioca aos 200 anos da chegada da família real ao Brasil. O séquito desfilou debaixo de chuva, prestigiado por meia dúzia de gatos literalmente pingados. Ou São Pedro não vê com bons olhos a efeméride ou também pôs o prefeito César Maia em sua lista negra. Mesmo sem chuva, o desfile não atrairia muitos curiosos. Pelo que tenho notado, os cariocas andam pouco ligados no bicentenário, e as três escolas de samba que o transformaram em enredo este ano não são uma garantia de que o reinado joanino estará na boca do povo depois do carnaval. Por esse desinteresse o professor Evaldo Cabral de Mello não esperava. A julgar por uma entrevista ao Jornal do Commercio do Recife, publicada em 23 de janeiro, o historiador pernambucano imagina que os cariocas estejam festejando a vinda de d. João VI com um entusiasmo fora do comum. O que, a seu ver, não seria nada demais. Afinal de contas, segundo ele, os cariocas - e só os cariocas - têm motivos para comemorá-la, pois o Rio foi a única cidade brasileira a beneficiar-se com a transferência da corte, que a presenteou com a Biblioteca Nacional, o Jardim Botânico e outras benesses custeadas pela espoliação das províncias do Norte e Nordeste. Daí parecer-lhe abusiva e inútil qualquer tentativa de transformar o bicentenário "numa apoteose nacional". Cabral de Mello devota saudável ojeriza a comemorações e efemérides, que, ressalta, "nunca são desinteressadas", como bem sabem, ressalto eu, os súditos do alcaide carioca. De modo geral, as comemorações apenas servem de biombo para esconder mazelas e questões do presente. Quando não as do próprio passado exaltado. Nada heróica foi a viagem de d. João VI e sua corte, que, sitiados por Napoleão, fugiram às pressas de Portugal e aqui aportaram pouco menos andrajosos que os náufragos da balsa da Méduse retratados por Géricault. E a construção imperial, prometida pelo regente ao chegar, não passou de retórica, de "jogo de cena destinado a macaquear a fuga em ato de grande sabedoria política e afagar a vaidade ingênua dos vassalos brasileiros", nas palavras de Cabral de Mello. Em seus 13 anos de reinado, d. João VI empenhou-se, acima de tudo, em perpetuar aqui a estrutura do governo centralizador e absolutista da monarquia portuguesa. Apesar de ter feito do Rio o receptáculo de todas as riquezas do império português, com a ajuda de pretendentes a cargos públicos e favores régios, o legado deixado na cidade por d. João VI não foi o primor exaltado nos sambas-enredos. Seus gastos excessivos e a evasão de divisas que acompanharam o retorno da família real a Lisboa levaram a cidade à falência. O Jardim Botânico já estava entregue aos fungos, às ervas daninhas e aos ladrões de plantas quando a frota joanina zarpou de volta, em 25 de abril de 1821. Três anos depois, o teatro real pegou fogo. Nada, felizmente, aconteceu à Biblioteca Nacional. E a unidade territorial do Brasil assegurada pelos Bragança? Não é um valor supremo, que deva subordinar outros valores, como liberdades públicas e desenvolvimento econômico, acredita Cabral de Mello, discordando de outros historiadores e, sobretudo, de José Bonifácio, o Patriarca da Independência. Um país menor, que tivesse acabado mais cedo com a escravidão (por muito tempo um dos sustentáculos da economia fluminense) e realizado reformas até hoje adiadas, eis o Brasil sonhado pelo mestre pernambucano, que lamenta que o brasileiro ainda não tenha percebido como as aspirações de grandeza e unidade nacionais sempre serviram de pretexto para se evitarem ameaças aos poderosos do momento. "De d. Pedro I, o primeiro golpista, até o Estado Novo e o golpe de 1964, não houve ato de força que não invocasse a unidade nacional, cujo preço foi talvez demasiado caro para o que tivemos em troca", arrematou o historiador.Se, em sua cátedra, Cabral de Mello excede (talvez seja o maior historiador vivo do Brasil, e um dos raros a valorizar o passado do Nordeste desconhecido de seus colegas de ofício do Sul e do Sudeste), em sua entrevista, excedeu-se. Sua birra do Rio e do que chama de "tradição saquarema da historiografia brasileira, para a qual tudo o que acontece no Brasil é através do Rio, graças ao Rio e pelo Rio", deixou-se contaminar por algo perigosamente próximo ao ressentimento bairrista.É lícito acreditar que o oba-oba em torno da chegada de d. João VI seja "um produto a mais do narcisismo coletivo dos cariocas". Ocorre que o carioca tem motivos de sobra para ser narcisista. E ainda que o carioca, como afirma o professor, se considere o mais cosmopolita dos brasileiros, de modo algum procede o adendo de que ele, na verdade, seja, dos brasileiros, "o mais provinciano". Nem sequer tirando da disputa o pernambucano que bolou para a Rádio Jornal do Commercio do Recife o legendário slogan "Falando de Recife para o mundo". Exercitando-se no palpitômetro da história contrafactual, Cabral de Mello assegura que, sem os privilégios recebidos durante o reinado joanino, o Rio "não passaria hoje de Santos à margem da Guanabara". Por que não de uma Recife sem o Rio Capibaribe? Não vou aqui repertoriar as glórias que transformaram o Rio, ao longo dos séculos 19 e 20, numa das cidades mais atraentes (que o digam Joaquim Nabuco, Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Antônio Maria, Álvaro Lins, Josué de Castro, Luiz Gonzaga e outros tantos pernambucanos ilustres, que à margem da Guanabara se estabeleceram e adquiriram notoriedade) e cosmopolitas da América; no único balneário que, além de capital de um reino e uma república, exportou para o mundo inteiro cultura (a bossa nova, por exemplo, não nasceu em Sydney nem em Biarritz) e mitos como Carmen Miranda e a Garota de Ipanema - que, aliás, nunca sofreu concorrência da Garota da Boa Viagem. Pois tais e centenas de outras evidências não só consumiriam muito do espaço de que disponho como ocorreram depois do estabelecimento entre nós do clã bragantino. Seria o Rio pré-1808 um reles brejo à beira-mar? Não. Já era uma forte praça comercial e marítima. Centro administrativo do País desde 1763, embora menor que a antiga capital, Salvador, o Rio dispunha de um porto de dimensões consideráveis para os padrões da época e um dos mais bem localizados e confiáveis do mundo, com facilidade de intercâmbio com a Europa, América, África, Índias Ocidentais e as ilhas dos Mares do Sul. D. João e sua corte não encontraram no Rio uma tabula rasa, ressalta a historiadora Mary Del Priore, mas uma terra de vastos recursos, à espera de um governo eficiente que lhe desse prestígio político, e, para administrá-la, inúmeros brasileiros que haviam feito seus estudos em Coimbra. O Rio, disse-o bem Carlos Lessa, "foi o laboratório da urbanidade do País". Só isso vale mais de um samba-enredo.

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