Onde o passado jamais passa

Organizadas e sempre farejando bons negócios, as oligarquias mantêm há séculos o Nordeste manietado

Marco Antonio Villa*, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2007 | 23h04

As denúncias contra o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), que motivaram vários processos no Conselho de Ética do Senado Federal, servem como exemplos de como se estrutura a "grande política" nacional e de sua relação nefasta com o Nordeste. Calheiros tem como base eleitoral a cidade de Murici, onde seu jovem filho é prefeito. A família controla as principais atividades econômicas, além, claro, da transferência de recursos federais. Murici, de acordo com o IBGE, tem 25 mil habitantes, dos quais 15 mil são eleitores. Sobrevivem do plantio de banana, laranja e manga. Na pecuária destacam-se 10 mil cabeças de boi, que acabaram ganhando notabilidade nacional. Entre os 5.500 municípios brasileiros listados de forma decrescente no Índice de Desenvolvimento Humano, Murici ocupa o 4.994º lugar, isto depois de Calheiros ter sido deputado estadual, deputado federal, líder do governo Collor, senador, ministro da Justiça e presidente do Congresso Nacional. O programa Bolsa-Família é o responsável pela subsistência da maioria da população. Segundo o Ministério do Desenvolvimento Social, o cadastramento das 3.285 famílias foi realizado sob responsabilidade da secretária municipal de Ação Social. Seu nome? Soraya Calheiros. Ela é tia de Renanzinho, filho de Calheiros e esposa de Remi, irmão de Renan que também foi prefeito de Murici por oito anos. A vice-prefeita, Rita de Cássia Tenório, faz parte da família de João Tenório, que foi suplente de Teotônio Vilela Filho e hoje exerce o mandato. A política em Murici, como vemos, é uma atividade familiar.O domínio municipal e a influência no governo estadual não bastam. É essencial para a preservação da liderança local a presença no centro do poder, em Brasília. Em outras palavras, o pequeno e miserável açougue Stop Carnes, cercado de moscas, em um bairro miserável - que teria comprado parte do rebanho do senador -, é a face mais cruel do domínio oligárquico. Em contrapartida, em Brasília, o coronel veste ternos caros, freqüenta ambientes finos, é cordial, um verdadeiro cavalheiro. Na província não convive com os opositores. Pelo contrário, os destrói, quando necessário. No centro do poder é um exemplo de democrata. Calheiros não é o único. Logo será página virada da nossa história. Na verdade, tentou ser um oligarca em uma terra controlada e manietada pelos usineiros. Esforçou-se: comprou jornais, rádios, fazendas, tudo para ter poder econômico e político. Mas foi abatido em pleno vôo. Será substituído por outro. Afinal, em Alagoas - microcosmo do Nordeste - esta dominação tem séculos de história. Mudança? Só de família dominante.A elite nordestina atua organizadamente, sempre farejando bons negócios públicos. Ou melhor, negócios privados com dinheiro público. Tem uma ampla presença no Congresso Nacional. Afinal são 27 senadores e 151 deputados federais. Sempre discursam em defesa da região, se emocionam com os dramas sociais, apontam os problemas econômicos, exigem a transferência de recursos federais, mas em momento algum identificam na sua atuação política qualquer responsabilidade pela miséria permanente na região. No Maranhão, por exemplo, a família Sarney manteve o controle do estado por 40 anos. Hoje - após a derrota eleitoral do ano passado - controla os cargos federais no Estado. O domínio oligárquico foi tão maléfico para o Maranhão que entre os 50 municípios com pior IDH no Brasil, quase 40% são daquele Estado. A família controla vários partidos políticos, canais de televisão, rádios e jornais. Localmente, exerce seu poder a ferro e fogo. Já no sul representa o papel de modernizadores e até de intelectuais. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, o chefe do clã escreve artigos poéticos; já em São Luís, no jornal da família, ataca violentamente, com linguagem rasteira, seus opositores, geralmente antigos aliados que romperam com o patriarca.No Ceará, hoje, quem manda é a família Ferreira Gomes. É chefiada por Ciro Gomes. A família domina a cidade de Sobral e de lá estendeu seus tentáculos para todo o Estado. Hoje, o irmão é o governador, outro irmão é deputado estadual, a ex-mulher é senadora, Ciro é deputado federal. A parentela se espalhou pela máquina do Estado, ou seja, não só no Executivo e Legislativo, mas controlando também o Judiciário. Na Paraíba, a família Cunha Lima resolve as divergências políticas à bala. O atual deputado Ronaldo Cunha Lima, em 1993, em João Pessoa, entrou em um restaurante armado e atirou três vezes em Tarcísio Burity, seu adversário político, que acabou sobrevivendo. O processo se arrastou graças ao foro privilegiado. Quando o STF ia julgá-lo - isso depois de 14 anos - ele renunciou ao mandato, o que devolve o processo à Justiça comum. Ou seja, mais uma década, no mínimo, para se esgotarem todos os prazos de protelamento, lembrando que Cunha Lima tem 71 anos. A vil manobra foi elogiada na última quinta-feira pelo plenário do Senado Federal. Uma dúzia de senadores teceu loas ao ex-senador. A renúncia foi considerada um "ato de grandeza" (César Borges - BA), o senador uma "figura encantadora" (Arthur Virgílio - AM) e recebeu "sentimento de apreço" (Eduardo Suplicy - SP). Vê-se que a oligarquia tem fortes aliados no Senado Federal, um apoio regional amplo, suprapartidário, mas de um caráter...As oligarquias nordestinas sufocam qualquer manifestação de independência ou de oposição. Daí a necessidade de tomar o aparelho de Estado como um verdadeiro butim. São os senhores dos seus Estados. Por meio de casamentos intra-oligárquicos solidificam e expandem seu poder. Um estudo - ainda que ligeiro - dos sobrenomes dos políticos e membros do Judiciário regional fornece um quadro que causa pavor aos defensores da democracia e das liberdades. Isso explica a impunidade gozada pelas famílias.Buscando encobrir seu domínio de classe, atribuem a fatores externos o atraso regional. E o espelho invertido é - mas não só - especialmente São Paulo. A culpa é do "imperialismo" paulista. Curiosamente, a elite nordestina tem apartamento em São Paulo, visita rotineiramente a capital paulista, é voraz consumidora das lojas de grifes, escolhe sempre os mais caros restaurantes, freqüenta teatros e cinemas. Não se esquece de estabelecer laços econômicos com o grande capital. Contudo, quando retorna a seus Estados ocorre uma transmutação e o discurso antipaulista volta à tona: passa a ser - numa espécie de inspiração althusseriana - o determinante em última instância da miséria regional.O domínio da oligarquia nordestina alcança o coração do Estado - o governo da União. Os presidentes da República - especialmente após a redemocratização de 1985 - são chantageados pelos oligarcas. Nada passa no Congresso Nacional sem a anuência das grandes famílias. Elas engessam o poder Executivo e frustram o desejo de mudança expresso pelos eleitores na escolha do presidente da República. Como nenhum presidente até hoje teve a audácia política de se contrapor aos chantageadores, o País assiste inerte às mudanças ocorridas na economia internacional e não consegue construir um projeto nacional. Em outras palavras: seria como se na democratização portuguesa e espanhola, nos anos 70, o ritmo político tivesse sido determinado, respectivamente, pelo Alentejo e a Galícia. *Marco Antonio Villa é historiador, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor, entre outros livros, de Vida e morte no sertão - História das Secas no Nordeste nos séculos XIX e XX (Ed. Ática)

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