Russ Rowland/The New York Times
Russ Rowland/The New York Times

Ópera de Beethoven é atualizada para o sistema prisional atual

'Fidelio' ganha nova montagem com apoio do movimento Black Lives Matter

Ruan Ebright, The New York Times

12 Maio 2018 | 16h00

Poucos coros de opera são tão comoventes como o do grupo de detentos que canta no Primeiro Ato da ópera Fidelio de Beethoven. Liberados temporariamente das celas, os presos quase sussurram uma ode, como um hino, à liberdade: “Oh, que alegria respirar e novo e livremente ao ar livre”.

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A transformação da opressão em liberdade está na essência de Fidelio, que a pequena e intrépida companhia Heartbeat Opera está apresentando até 13 de maio no Baruch Performing Arts Center em Manhattan. Ali as vozes gravadas do coro da prisão de Midwestern se juntam no Coro dos Prisioneiros da ópera de Beethoven.

Para reviver a obra na era do movimento Black Lives Matter, o diretor artístico do Heartbeat, Ethan Heard, e o diretor artístico Daniel Schlosberg, ambientaram a produção dentro do sistema judiciário penal americano, que tem enviado à prisão um número desproporcionalmente grande de pessoas de cor.

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Com a ópera Fidelio e a sua concorrente Don Giovanni na era do #MeToo, a companhia Heartbeat continua seguindo os mesmos passos da sua encenação, no ano passado, de Madame Butterfly, que aborda questões relativas a asiáticos, orientalismo e os clichês da cultura das gueixas. A ópera de Puccini, disse Heard em uma entrevista, “é oportuna e está inserida nas discussões atuais, e desejo encontrar outra ópera que seja possível fazer alguma coisa como esta”.

Ele ficou arrebatado com Fidelio, que Beethoven compôs após a Revolução Francesa. A ópera narra os esforços de uma esposa para salvar seu marido preso por engano, se disfarçando de homem e se infiltrando na prisão. “Achei que era uma história apropriada para 2018”, disse ele.

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Na adaptação da companhia Heartbeat, a heroína é Leah (Leonore na ópera original), cujo marido Stan (Florestan) um cidadão naturalizado e ativista do movimento Black Lives Matter, é detido durante um protesto e levado injustamente para a prisão. Alguns dos papéis menores da ópera foram eliminados e Schlosberg fez o arranjo da partitura de Beethoven para dois pianos, dois violoncelos, duas trompas e percussão – um conjunto de câmera destinado a enfatizar musicalmente a história de heroísmo em meio ao tenebroso da ópera.

É uma versão que se coaduna com os esforços crescentes no campo da ópera para se colocar experiências e perspectivas dos negros no centro do palco, como é o caso de Charlie Parker’s Yardbird, de Daniel Schnyder; The Summer King, de Daniel Sonenberg, sobre o jogador de basquete negro Josh Gibson; Champion, de Terence Blanchard, sobre um boxeador gay, Emile Griffith; e o trabalho ainda em fase de elaboração de Tania León, Little Rock Nine.

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A musicóloga Naomi André, em seu próximo livro Black Opera: History, Power, Engagement (Ópera Negra: História, Poder, Engajamento), descreve como as óperas nos EUA e na África do Sul – países com histórias de racismo problemáticas – vêm sendo utilizadas para “oferecer uma narrativa alternativa da experiência racial em contraponto com a cultura dominante”. O poder das óperas, ela escreve, “repousa no que elas ofereceram ao seu público original como também no que pode ainda nos oferecer nos dias atuais”.

Existe um precedente histórico no caso das mudanças feitas pela companhia Heartbeat em Fidelio, e sua exploração da relevância política da ópera. Beethoven, um resoluto defensor dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, ficou fascinado com a peça de Nicolas Bouilly Léonore, ou l’Amour Conjugal, da época da Revolução. Mas o libretista do compositor, Joseph Sonnleithner, teve de contornar a censura do governo austríaco, ambientando a ópera na Espanha do século 16 e enfatizando o tema da “virtude da boa esposa” em vez de direitos civis.

Insatisfeito com a estreia mal sucedida da peça em 1805, que coincidiu com a ocupação de Viena por Napoleão, Beethoven reescreveu Fidelio no ano seguinte, condensando os três atos em dois. Quando ele e o poeta Georg Friedrich Treitschke a revisaram novamente em 1814, para coincidir com o Congresso de Viena, quando os líderes europeus conceberam um novo mapa geopolítico após a era napoleônica, o compositor acrescentou um novo coro final que deu mais peso simbólico para os prisioneiros recentemente libertados.

“O fato de a ópera ter passado por muitas revisões nos deu licença para entender que a música não era tão inalterável”, disse Scholsberg.

Embora o público do século 19 tenha assistido à ópera Fidelio entendendo que era uma história fundamentalmente doméstica, os condutores e diretores do século 20, a começar por Gustav Mahler e Alfred Roller em 1904, começaram a apresentá-la como uma alegoria predominantemente política. Mahler cortou a música do primeiro ato, que considerava inconsequente, e inseriu a dramática Overture nº 3, Leonore, no segundo ato, ao passo que o cenário estilizado, parcialmente abstraído conferiu à história uma universalidade atemporal.

Muitas produções após a 2.ª Guerra Mundial foram explicitamente políticas, mais pontuais do que atemporais. Numa crítica à opressão nazista, Fidelio foi a obra escolhida para a reabertura das casas de ópera da Alemanha e da Áustria. E numa Alemanha dividida durante a Guerra Fria, diretores de ambos os lados da Cortina de Ferro transpuseram Fidelio para cenários que iam desde os Gulags soviéticos às juntas militares sul-americanas e os campos de concentração alemães. E tomaram algumas liberdades no caso do libreto. 

Rejeitando o diálogo falado de Beethoven como também os recitativos cantados que se tornaram uma alternativa padrão, Wieland Wagner optou por um narrador na sua produção de 1954 em Stuttgart, Alemanha. Outros diretores substituíram o diálogo pelo verso político do século 20.

A produção da companhia Heartbeat também substituiu o texto falado. Heard trabalhou com o dramaturgo Marcus Scott para transformar o diálogo alemão num discurso americano contemporâneo. (Em uma cena Leah implora ao administrador da prisão para, por um curto período, deixá-los livres: “São pessoas. Pessoas que cometeram erros. Algumas cujo único erro é serem pobres”. (Ela também insinua que raça é um fator).

Uma aluna de Schosberg organizou um coro na prisão de Minnesota e colocou os colaboradores em contato com outros coros em Ohio, Iowa e Kansas. Em março a equipe ensaiou com o Oakdade Community Choir, o Kuji Men’s Chorus, o Ubuntu Men’s Chorus e o East Hill Singers.

Atrás das paredes de concreto e cercas metálicas eles encontraram artistas entusiastas. Um membro do coral Ubuntu mostrou orgulhosamente sua tatuagem de Johann Sebastian Bach. Gravações de vídeo e áudio dos grupos serão reunidas para criar a sublime música de Beethoven.

“Estes coros têm a ver com alcançar a humanidade por meio da comunidade. E os diretores desses coros encontraram uma maneira de alimentar a ideia de que esses detentos são pessoas”.

E concluiu: “E isto é o que Fidelio representa.” / Tradução de Terezinha Martino

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