Marlene Awaad/The New York Times
Marlene Awaad/The New York Times

Opinião: salas de cinema podem conviver com o streaming

Em artigo, cineasta Sylvio Back fala sobre a conturbada relação entre as telas grandes e pequenas

Sylvio Back*, Especial para o Estado

30 de março de 2019 | 16h00

Atualizando o título da obra-prima de Chaplin 80 anos depois: tempos modernos, tempos simultâneos! Na contramão dos pessimistas, o cinema não acabou com o teatro, nem esse com o circo; nem o rádio com a televisão (nunca se construíram tantas salas e se criaram tantas emissoras). O VOD (vídeo sob demanda), na verdade uma espécie de “cine privé”, chamaria assim, em larga expansão no mundo inteiro, não é o ogro das salas de projeção: a telona continua imbatível. 

Na plateia – e não é de hoje para horror do cinéfilo puro sangue –, passou a predominar a síndrome da sala de estar. O inferno dos ruídos domésticos a mexer com nossa concentração se reproduz nos cinemas, as pessoas se comportam em público tal qual no particular, em alto e bom som. Deve ser por isso que os filmes estão cada vez mais rápidos, estrondosos e apocalípticos: não saia daí!

Como a História, que se acreditava sequencial e fatal, com destino utópico anunciado (na prática, funesto!), as novas tecnologias já chegam super dotadas, com DNA de viés complementar, portanto, aderentes ao caráter volátil do consumidor. Ou seja, desde já, ‘tâmo junto’! Afinal, a sociabilidade dos cinemas é de natureza erótica e, por definição, do livre usufruto individual ou coletivo, ao gosto das idiossincrasias do freguês! 

Famosos festivais e premiações já voltam atrás e se rendem à evidência factual do streaming, que não é nem seria o inimigo da telona. Nostálgicos anunciam a decadência do filme imantado à tela grande, como se prenuncia que a democracia está por um fio: nunca tantos viveram de boa como hoje, graças, pontual e precisamente, à liberdade de imprensa e de opinião veiculadas por documentários e filmes de ficção – seus melhores e mais consistentes arautos em ação. Claro, apesar da arrogância e censura de seus inimigos visando incrementar poder, ego e gozo: quanto mais mísseis, melhor! Seria essa a lógica?

Com todo respeito, nas palavras arrevezadas do fotógrafo e industrial Antoine, pai dos irmãos Lumière (Louis e Auguste) em 1895, “le cinéma est un invention sans avenir”, justamente eles que pela primeira vez projetaram “cenas animadas”, o cinema segue como a maior revolução de showbiz já vivenciada pela imaginário do homem. Uma curiosa traquitana de extrato circense que, desde o nascedouro imbrica cultura e entretenimento com intensa e extensa premonição. Nunca tantos reverenciam a exuberância de suas mágicas: da última “poeira” ao consumo hui clos dos smartphones, dos hologramas espetados no céu às salas cada vez mais espetaculares em todos os, literalmente, sentidos. Como sentencia Luiz Severiano Ribeiro na propaganda do seu circuito exibidor: “O cinema é a maior diversão”. Dito e feito.

Grana sempre foi o deus da hora em qualquer época. Sua criação constituiu-se em rito de passagem civilizatório. Aqui, cruzando dados empíricos dos sites Filme B e Tela Viva, do Rio Janeiro, e do Instituto Boca a Boca Filmes, de São Paulo, seja por falta de dinheiro do consumidor, seja pelo preço do ingresso, multiplexes e TVs por assinatura perdem público (e meus filmes, também, oh dor!). 

Mas, preveem os estudiosos, uma reviravolta é questão de tempo. Jovens entre 13 e 17 não trocam por nada o escurinho do cinema, opíparo espaço para amar ao mesmo tempo a Sétima Arte e os lábios da companhia ao lado. Espectador para virar telespectador é um upa etário (e vice-versa, ora direis!), já que é, como nós todos, primevo adicto de qualquer janela onde faísquem movies! 

Criadores do audiovisual, temos mais é que chancelar essa, digamos, saudável concorrência tecnológica sem volta: tela gigantesca, tela liliputiana, o filme é soberano. Depois, cinéfilo é cinéfilo. Streaming é dádiva, não dívida! Afinal, que nossas obras encontrem tantas e quantas dimensões horizontais e verticais, superfícies planas e abauladas que lhes promovam audiência: nenhuma atividade lúdica, é sabido, bate o encanto luminescente do cinema, nem o futebol. Que todos, provectos e aspirantes, quem assina audiovisual como quem o consome, tenhamos garantidos os direitos humanos ao lazer e à cultura pelo mais democrático olho imagético já forjado pelo estro do homem.

Quem de medo corre de medo morre, adágio caboclo catarinense dos tempos da Guerra do Contestado (1912-1916), vem a propósito de se elencar, afoitamente, o visionamento online como eventual debacle do cinema tal qual como arte, diversão e fruição pop. A recusa a um novo canal tecnológico de comunicação de massa – a lembrar que Chaplin chegou a abominar o “cinema falado” – seria virar as costas para a modernidade. Nada conseguirá deter a força do talento para criar, independente da oportunidade, modalidade e do veículo a seu dispor. O importante é chegar ao público, único e exclusivo mandatário a validar o que deve sobreviver. Sempre caberá a ele a última palavra. 

*SYLVIO BACK É CINEASTA, POETA E ESCRITOR; PRESIDENTE DA DBCA (DIRETORES BRASILEIROS DE CINEMA E DO AUDIOVISUAL), ENTIDADE DE GESTÃO COLETIVA EM DEFESA DO DIREITO AUTORAL

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