Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

'Opulência' mostra como a obra de Luis Krausz mapeia a memória judaica

Novo romance do escritor paulistano é mais um passo na consecução de um projeto literário que se ocupa de uma investigação da diáspora judaica

André de Leones*, Especial para o Estado

28 de março de 2020 | 16h25

O romance Opulência (Cepe Editora), do paulistano Luis S. Krausz, é mais um passo na consecução de um projeto literário que se ocupa de uma investigação da diáspora judaica. Há anos que seu autor vem resgatando as histórias e memórias dos judeus que emigraram para o Brasil na primeira metade do século 20, sobretudo entre o fim da 1ª Guerra Mundial (e a implosão do Império Austro-Húngaro) e ascensão do nazismo. “Os anos passam e as décadas passam”, ele escreve no novo livro. “As fotografias desbotam e se apagam, mas as paisagens da memória não perdem a cor, não enfraquecem, não desmaiam.”

Em Desterro (2011), a prospecção dessas lembranças sufocadas (mas não apagadas) pela calamitosa noite europeia tem início a partir de um ponto de vista ou, melhor dizendo, de uma voz que será retomada nos livros seguintes: a voz do filho de imigrantes que nasce e cresce na São Paulo de meados do século 20. Mantendo olhos e ouvidos abertos tanto para o presente — por exemplo, ao atentar para as mudanças sofridas pela cidade — quanto para o passado, esse narrador deambula geográfica e temporalmente por meio da convivência com uma galeria de personagens desterrados, os quais são como estilhaços da enorme explosão diaspórica provocada pelas perseguições antissemitas que culminaram na Shoah. Essas outras vozes são, portanto, essenciais para a construção da narrativa maior, marcada pelo extermínio e pelo exílio, e por tudo isso condenada à incompletude — milhões não têm voz porque foram engolidos por aquela noite. Além de Desterro, Deserto (2013), Bazar Paraná (2015), Outro Lugar (2018) e Opulência adensam tal mapeamento romanesco-memorialístico, espraiando-se por vários lugares (Tel Aviv, Londres, Rolândia, Nova York, Düsseldorf, Campos do Jordão, Paris).

O método dessa deambulação narrativa é sempre o mesmo, impulsionado pela disposição do autor para palmilhar por aí, ouvir o outro e resgatá-lo para nós. Há algo de W. G. Sebald nesse itinerário. Assim como o autor de Os Anéis de Saturno e Austerlitz, e conforme aponta Márcio Seligmann-Silva no posfácio de Desterro, Krausz é um Spaziegänger, isto é, “um caminhante, um flâneur”. No entanto, os motivos e tonalidades do autor brasileiro são incontornavelmente judaicos, e tal herança norteia cada passo que ele dá em sua caminhada.

Na prosa de Krausz, também é possível observar uma consciência da precariedade das paisagens às quais remonta, e não é raro que a existência presente de uma — São Paulo, Campos do Jordão — aponte de forma dolorosa para a inexistência ou obliteração de outra, como a Viena judia do começo do século passado. Como lemos a certa altura em Opulência, “o lá, de onde ele não era, era um lugar envolto em destruição e esquecimento: um lugar onde só restava silêncio”. Mas não se trata, felizmente, de um silêncio completo, consumado ou absoluto. Muitas vezes, resta apenas “uma impressão decaída” de pessoas que se foram, mas as sombras daqueles rostos e os ecos daquelas vozes já são suficientes para o trabalho de resgate e rememoração.

Em vista dessa precariedade própria do tatear memorialístico, o título do romance adquire uma conotação irônica. A opulência descrita em certos trechos, sobretudo naqueles que se detém em personagens como a ricaça Marianne Némirowska (com seu casarão em Campos do Jordão e o enorme apartamento na Haddock Lobo, em São Paulo, repleto de obras de arte e com vitrais projetados por Gershon Knispel), empalidece diante da riqueza inerente ao próprio esforço literário e à luta contra o esquecimento. De forma similar, também é ironizada a opulência do período em que se situa a narrativa, do “milagre econômico” alardeado pela ditadura militar brasileira no começo da década de 1970. Tal “riqueza” é exposta como oca e ilusória, típica de um país “onde não há guerra, mas onde tampouco há paz”.

Nesse mundo convulsionado, em eterna transformação, as obras de arte parecem fixar algo, manter uma janela para o que já foi e, eventualmente, para o que virá. Exemplo disso é um dos quadros da coleção de Némirowska, Bal masqué à l’Opera (1874): o teatro na tela de Édouard Manet é o da Rue Le Peletier, “que foi reduzido a cinzas num grande incêndio em 1873 (...)” — um ano antes do artista pintar a obra, portanto. “Mas o título do quadro de Édouard Manet faz pensar na Opéra Garnier de Paris, com seus fabulosos mármores Sarrancolin (...). Assim são os quadros: eles representam coisas que já não são mais e, às vezes, também, coisas que talvez um dia virão a ser.”

Não só os quadros, é evidente, mas obras de arte em geral possuem essa capacidade ao mesmo tempo “fixadora” e alusiva, na medida em que criam um vínculo entre paisagens reais e imaginárias, e entre estas e a memória. Isso é muito importante para os personagens desterrados que circulam pelas páginas de Opulência. Todos, em maior ou menor grau, carregam “o lar europeu no coração”, lar que não existe mais, que foi aniquilado pelos horrores da guerra e do extermínio. Assim, eles acabam funcionando como símbolos de um mundo extinto e da persistência do exílio (uma vez que jamais deixam de se sentir estrangeiros, deslocados), mas também da sobrevivência. A partir dessas pessoas e suas histórias, Krausz erige uma ponte entre o passado e o presente, honrando a memória tanto dos que partiram quanto dos que, contra todas as chances, permaneceram e seguiram em frente.

*André de Leones é autor dos romances Eufrates (José Olympio) e Abaixo do Paraíso (Rocco), entre outros

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