Reuters
Reuters

Os 60 anos do julgamento do nazista Adolf Eichmann segundo um brasileiro que esteve no tribunal

'Guardo na memória, de forma rigorosamente nítida, o momento em que Eichmann entrou na jaula de vidro à prova de balas instalada no tribunal. Parecia calmo, embora fosse possível detectar um leve tremor em sua mão direita'

Zevi Ghivelder, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2021 | 16h10

Há 60 anos fui incumbido pela revista Manchete para cobrir em Israel o julgamento do criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann, capturado em Buenos Aires por agentes do Mossad, o serviço secreto israelense.

O dia 11 de abril de 1961 era um dia frio e ensolarado de primavera em Jerusalém. O julgamento começou com precisão às 9 horas da manhã. Guardo na memória, de forma rigorosamente nítida, o momento em que Eichmann entrou na jaula de vidro à prova de balas instalada no tribunal. Parecia calmo, embora fosse possível detectar um leve tremor em sua mão direita. Vestia um terno azul escuro, camisa branca, ambos pouco acima de seu tamanho, e gravata também escura.

Ficou parado de pé sem desviar o olhar para as centenas de pessoas que lotavam o tribunal. Colocou uma pilha de papéis na pequena mesa à sua frente e em seguida sentou-se. Minutos depois, o meirinho ordenou com alta voz que todos no recinto se levantassem enquanto três juízes se dirigiam a seus assentos na corte encimada por uma grande Menorah, símbolo do Estado Judeu. 

A credencial que recebi, indicava meu lugar: fila H, cadeira número 18. Ficava à esquerda da entrada, a uma distância de cerca de quinze metros da jaula. Dava para bem acompanhar o comportamento de Eichmann, sempre comedido. Durante todas as semanas em que o observei, parecia um funcionário público dotado de boas maneiras, em alguma repartição municipal. Sua postura só se alterava, mesmo assim pouco, durante os dramáticos depoimentos de sobreviventes do Holocausto: torcia o nariz para os lados. Um dia, enquanto o promotor descrevia com pormenores macabros o funcionamento das câmaras de gás, tirou um lenço do bolso e passou no rosto.

Junto à primeira fila do auditório havia duas grandes mesas destinadas à acusação e à defesa. O advogado de defesa era o alemão Robert Servatius, 65, estatura mediana, quase gordo e, um tipo mal encarado, sem preconceito ou exagero. Tinha o perfeito physique du rôle para a função que desempenhava com total competência. Suas primeiras palavras foram no sentido de questionar a validade jurisdicional de Israel para julgar Adolf Eichmann. Enfatizou que este era austríaco de nascença, servira ao exército alemão e residia em Buenos Aires. Portanto, só poderia ser julgado na Áustria, ou na Alemanha ou na Argentina.

Mas, o promotor israelense Gideon Hausner, 45, tinha feito um bom dever de casa. Apresentou à corte mais de uma dezena de jurisprudências de diferentes países segundo as quais criminosos tinham se evadido de países onde haviam cometido um ou mais crimes; fugitivos em outros países, foram capturados e tiveram seus julgamentos validados. Ademais, acrescentou o promotor, os crimes de Eichmann não se resumiam a um país, mas a diversos países da Europa ocupada pelo nazismo; não havia como apontar uma determinada localidade. Portanto, aduziu, a jurisdição era da alçada das vítimas e não do vitimador, ou seja, sendo as vítimas seis milhões de judeus, a competência para julgar o criminoso era o estado dos judeus, consubstanciado no Estado de Israel. A defesa da jurisdição formulada por Huasner é até hoje contestada por juristas, mas estes também ainda não conseguiram apontar uma jurisdição intocável. Como Eichmann era um militar enfileirado na Alemanha nazista, o foro mais apropriado talvez fosse o da Alemanha. Nessa hipótese, porém, avultava outra indagação sem resposta plausível: qual Alemanha, a Ocidental ou a Oriental?

O libelo acusatório, dividiu a culpa de Eichmann em duas vertentes: crimes contra o povo judeu e crime contra a humanidade. Para reforçar a tese de que a ação criminosa de Eichmann transcendia aos judeus, a promotoria convocou para depor o professor da Universidade de Columbia, NY, Salo Wittmayer Baron, americano de origem polonesa, considerado o maior historiador judeu do século 20. Baron ocupou o pódio das testemunhas durante quase um dia inteiro. Traçou um quadro da Europa ocidental nas décadas de 20 e 30, ressaltando a valiosa estrutura social, artística e cultural ali florescente e inclusive de que maneira os judeus haviam contribuído para algumas das mais importantes conquistas das iniciativas humanas naquelas quadras da história.

Os momentos mais pungentes do julgamento aconteceram durante os depoimentos de sobreviventes do Holocausto de diferentes países. A primeira pessoa a testemunhar foi particularmente significativa: o pai de Herschel Grynspan, o jovem judeu que, em 1938, havia matado com cinco tiros um cônsul alemão na embaixada da Alemanha em Paris, com a intenção de chamar a atenção do mundo para as levas de refugiados judeus que já começavam a vagar pela Europa. Para retaliar o assassinato, os nazistas promoveram a célebre “Noite dos Cristais”. Grynspan não chegou a ser julgado na França; depois da invasão nazista foi levado para Berlim e até hoje não se sabe como, quando e onde foi executado. 

Na segunda semana do julgamento aconteceram momentos de profunda emoção durante os depoimentos de Zivia Lubetkin e do poeta Aba Kovner, ambos sobreviventes da revolta do gueto de Varsóvia. A maneira pela qual descreveram seu combate tão desigual contra o exército alemão, contribuiu para desfazer a imagem consagrada no mundo de que os judeus não haviam reagido aos horrores que os vitimaram

Na verdade, o julgamento de Eichmann desencadeou uma revisão da história do Holocausto por grande número de pesquisadores e historiadores em todos os continentes. Suas obras puderam se basear em documentos que os nazistas produziram sem pudor ou restrição e que foram apreendidos intactos depois da guerra. Cinco anos depois do julgamento, o francês Jean- François Steiner lançou o livro Treblinka, a Revolta num Campo de Extermínio, propulsor de grande impacto internacional. Seguiram-se outros trabalhos que tiveram como foco a resistência judaica ao nazismo, pouco conhecida. No Brasil, viabilizei em 1969 a publicação do livro Inferno em Sobibor, um relato impressionante do sobrevivente Stanislaw Szmajner, que foi meu amigo durante toda sua vida.

Ao mesmo tempo em que foi abordado o heroísmo judaico, surgiram muitas obras de negação do Holocausto. Esses trabalhos afrontaram a realidade de maneira tão absurda, que medidas judiciais adotadas em diversos países proibiram sua circulação. Isto não significa, entretanto, que o negacionismo do Holocausto tenha desaparecido. Vai persistir na mesma medida em que persiste o antissemitismo.

A cafeteria no subsolo do tribunal era um agradável ponto de encontro, situada no mesmo grande salão habitado por cerca de duzentos correspondentes internacionais. (Um jornal israelense publicou uma nota apontando-me como o mais jovem de todos). Conheci muita gente interessante durante os dois meses em que cobri o julgamento. No tribunal sentava-se ao meu lado o escritor francês Joseph Kessel que ganharia grande fama com seu romance La Belle de Jour, adaptado para o cinema. Mantive frequentes boas conversas com a jornalista francesa Madeleine Jacob, com o americano Robert St. John e com o israelense Zeev Schif.

Muita gente me pergunta se conheci a filósofa americana judia Hannah Arendt. Não conheci e àquela altura sequer conhecia sua obra. É impressionante a maneira pela qual seu nome ficou associado ao de Eichmann pelo fato de ter acompanhado o julgamento e de ter batizado sua jornada criminosa como a “banalidade do mal”.

Esse rótulo aparece em seu livro Eichmann em Jerusalém, publicado em 1963. Arendt teve uma visão distorcida de tudo que viu e ouviu no tribunal. Ela abordou o planejamento da “Solução Final” como algo que se concretizou porque os nazistas “contavam com a cumplicidade das lideranças judaicas” Trata-se de uma afirmação impossível de ser provada, além de omitir que as lideranças judaicas, perniciosas no seu entender, também morreram nas câmaras de gás. Os componentes voluntários desses comitês por ela demonizados tinham como objetivo buscar um abrandamento ou um adiamento das ações dos opressores; Arendt viu a “Solução Final” como uma máquina gigantesca e sofisticada, na qual Eichmann havia desempenhado um pequeno papel, daí sua banalidade em face do mal. Esta formulação agride fatos concretos. Já em 1937, Eichmann se tinha engajado na questão judaica e feito uma viagem à antiga Palestina. No interrogatório a que foi submetido em Israel, disse ter ficado muito admirado com as inovações agrícolas dos pioneiros judeus naquela região a par de outros elogios.

Em 1942, quando Heydrich convocou a alta hierarquia nazista para uma reunião no castelo de Wansee, onde expôs os planos para a dita “Solução”, Eichmann estava presente e foi indicado para ser o executor do extermínio. Estava muito longe de ser um coronel insignificante na estrutura nazista.

Se Eichmann não tivesse um currículo nazista de raiz, não seria incumbido de uma tarefa tão nobre como a de exterminar todos os judeus na Europa ocupada por seus pares.

*Zevi Ghivelder é jornalista e escritor.

Tudo o que sabemos sobre:
HistóriaKarl Adolf Eichmannnazismo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.