Jacky Naegelen/Reuters
Jacky Naegelen/Reuters

Os bafafás da ‘Gioconda’

Já roubaram a Mona Lisa, jogaram ácido, atiraram pedra; o vândalo da vez foi uma mulher, que atirou uma xícara

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

17 de agosto de 2009 | 12h27

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No proverbial mês do desgosto, as mulheres abafaram a banca. A bem dizer, continuam abafando. É só dar uma espiadela nas manchetes e relacionar quem as vem estrelando: Aung San Suu Nyi, Hillary Clinton, Marina Silva, Dilma Rousseff, Lina Vieira, Erenice Guerra, Iraneth Weiler. Verdade que da maioria delas ninguém há de se lembrar daqui a alguns anos – ou delas se lembrarão tanto quanto hoje nos lembramos de, por exemplo, Carolina Farah, Miriam Stevenson e Jênia Allilúeva, criaturas que um dia também tiveram destaque nos noticiários, até que o vento as levou.

 

(Miriam Stevenson: Miss Universo de 1954, aquela que, injustamente, tirou o cetro de Marta Rocha; Carolina Farah: pivô do escandaloso Crime da Mala, o primeiro, de 1908; Jênia Allilúeva, a "rosa dos campos de Novgorod", xodó do Stalin.)

 

Faltou listar outra destacada figura feminina do mês: Lisa Gherardini. Desta todos se lembram, esta todos conhecem, só que por outro nome: Mona Lisa. É a mulher mais famosa do mundo – desde o século 16. Sem exclusão das mais notórias heroínas bíblicas. Que rosto, afinal, tem Eva? E Maria? E Dalila? Não há quem nunca tenha visto o de Mona Lisa, ainda que somente em camisetas, cartões postais e no Código Da Vinci.

 

No primeiro domingo de agosto atiraram nela uma xícara de porcelana, sem nenhum dano à sua integridade física, pois um vidro à prova de balas há tempos a protege da sanha dos vândalos de museu. O vândalo da vez foi uma mulher. Oui, oui, elas estão em todas. Para o bem e para o mal.

 

Já roubaram a Mona Lisa, já lhe jogaram ácido e pedra; xícara, foi a primeira. De origem russa, nome não divulgado, a agressora levou sua "arma" na bolsa, prévio indício de insanidade, a menos, claro, que ela tivesse comprado a xícara na loja de souvenirs do museu ou seja hábito das russas andar com tal objeto na bolsa. Presa em flagrante, não opôs resistência aos seguranças e foi solta tão logo esclareceu a razão de seu faniquito. Contrariando o palpite de algumas agências de notícias, não fora acometida da síndrome de Stendhal (chilique provocado por excesso de exposição a obras de arte), apenas extravasara na Mona Lisa a frustração de não ter obtido, dias antes, a nacionalidade francesa.

 

Ora, Picasso também teve negado seu pedido de naturalização, três semanas antes da entrada dos nazistas em Paris, e nem por isso agrediu a Mona Lisa ou qualquer outra obra de arte. Seu único envolvimento com a Gioconda, aliás, foi por vias transversas. Quando a roubaram, em 1911, Picasso, cabreiro com o bafafá em torno do caso, mais do que depressa devolveu ao Louvre as duas cabeças de pedra pré-romanas que, quatro anos antes, um amigo de Apollinaire de lá roubara e guardara no estúdio do pintor.

 

Embora endeusada desde que Giorgio Vasari a viu, ainda no século em que Da Vinci a pintou e vendeu para o rei da França Francisco I, Mona Lisa só se tornou um ícone de massa a partir do seu sequestro no Louvre, pelo pintor e decorador italiano Leonardo Vincenza. Explorado à outrance pela imprensa parisiense, o sumiço da Mona Lisa despertou nos franceses um interesse nunca visto pelo Louvre, que passou a ser visitado diariamente por uma multidão de curiosos, jejunos em museu, mas sensíveis à fetichização do espaço vazio antes ocupado pela Gioconda.

 

A romaria só fez aumentar depois que o quadro, localizado numa galeria de Florença em 1913, voltou ao Louvre, seu templo desde a Revolução Francesa. Atraindo mais de 5 milhões de olhares por ano, é um fenômeno sem par na história da arte, para desgosto dos que têm em maior conta as belas pinturas de Ticiano, Veronese e Tintoretto que lhe fazem companhia. Agastado com os exageros da giocondolatria, o historiador e expert em arte renascentista Bernard Berenson não foi o único entusiasta a mudar radicalmente sua opinião sobre a obra. Também foi para protestar, dadaisticamente, contra a giocondolatria que Marcel Duchamp pintou bigode e cavanhaque numa Mona Lisa de cartão postal, acrescentando-lhe as iniciais "L.H.O.O.Q", trocadilhesco acrônimo de elle a chaud au cul (ela tem fogo no rabo).

 

Nas raras vezes em que viajou ao exterior (a Nova York e Washington, em 1963, a Tóquio e Moscou, em 1974), Mona Lisa atraiu mais gente que um concerto de rock ou uma missa rezada pelo papa. Não foi por acaso que o crítico Robert Hughes cravou sua passagem pelo Museu Metropolitan e a National Gallery como o marco zero da "irreversível depravação da arte pelo comercialismo".

 

Enigmática, hipnótica, irresistível, inebriante, dissimulada, sábia – sobre a Gioconda nada mais há que já não tenha sido dito, escrito e repetido. Pioneiro na deificação, Vasari também foi o primeiro a se fixar no sorriso dela, cuja doçura ("tão doce que parecia mais divino que humano") atribuiu ao ambiente criado por Da Vinci para manter Lisa Gherardine sempre descontraída. Durante todo o tempo em que posou para Leonardo, a mulher do mercador florentino Francesco del Giocondo desfrutou da companhia e das artes de músicos, cantores e bufões.

 

Lisa foi mesmo o modelo de Leonardo. A partir de um manuscrito, estudiosos da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, sepultaram de vez o mistério no ano passado. Muito papel foi gasto com especulações sobre a obra e a "verdadeira" identidade de Mona Lisa, inutilmente, sabe-se agora com certeza. Seu mítico sorriso, portanto, não teve por matriz o de Salai, o jovem factótum e amante de Leonardo, nem o da mãe do pintor.

 

Por essa Freud não esperava. Mas, se vivo fosse, algumas ilações procedentes poderia tirar de vários objetos que a sociedade de consumo criou inspirados na Gioconda. Nenhum, a meu ver, tão potencialmente freudiano quanto o dispositivo intrauterino Mona Lisa-CU375.

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