Os cavaleiros do sinoapocalipse

Da baixa cotação da carne de porco aos crescentes estoques de carvão para eletricidade, passando pelo nervosismo no mercado de carros de luxo, a economia chinesa começa a emitir sinais de alerta

Foreign Policy, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2012 | 03h10

As luzes estão oscilando no motor econômico do mundo.  Por mais que as perspectivas para a China ainda sejam positivas, digamos, pelos padrões europeus, os números mostram que o histórico motor de crescimento do país pode estar com problemas. As empresas estão pedindo menos empréstimos. A produção manufatureira caiu muito. Os juros sofreram cortes inesperados. As importações estagnaram. As projeções para o PIB perderam força, e alguns dizem que a China já estaria em recessão. Em março, o premiê Wen Jiabao cravou a meta de crescimento para 2012 em 7,5%. Tida na época como conservadora, essa meta é hoje vista como presciente e, caso se torne realidade, seria a mais baixa taxa anual de crescimento na China desde 1990, quando o país enfrentou o isolamento internacional após o massacre da Praça Tiananmen, em 1989.

Quais são os indicadores concretos de que a China está passando por algo pior do que uma desaceleração corriqueira? Eis aqui cinco dados do mundo real que dão uma ideia da dimensão dos problemas enfrentados pelo país.

1. Adeus, BMW

O pacote de estímulo de US$ 586 bilhões que possibilitou à China passar quase incólume pelo declínio global de 2009 conseguiu apenas adiar a dor para os governos locais. Agora pede-se deles que quitem a dívida, e isso significa um período de grande aperto no cinto das prefeituras.

As frotas de carros chiques que os funcionários dos governos municipais acumularam livremente durante os anos de prosperidade estão entre os primeiros luxos que vão desaparecer. A cidade de Wenzhou planeja leiloar 80% de seus veículos neste ano - o equivalente a 1.300 carros - e vendas emergenciais do mesmo tipo devem ocorrer por todo o país. Até a Ferrari demonstra nervosismo ao comentar o declínio chinês, e não apenas porque o playboy Bo Guagua (filho do alto dirigente do PC caído em desgraça Bo Xilai) parece ter sido cortado da lista de compradores em potencial.

Para os governos municipais, parte da dor de cabeça decorre do fato de a venda de terras ter perdido força por uma iniciativa do governo central para esfriar o mercado imobiliário chinês, que apresentava sinais de superaquecimento, e também por causa da falta de dinheiro e confiança entre potenciais compradores. Em junho, o preço médio dos imóveis em cem grandes cidades chinesas aumentou pela primeira vez em nove meses, mas os preços ainda estão 1,9% abaixo do nível do ano anterior. Algumas instalações governamentais podem ser as próximas a serem leiloadas, depois que os carros oficiais forem arrematados por particulares. Então terá início a economia extrema: os elaborados banquetes oficiais da China podem se tornar bem mais prosaicos.

2. Distúrbios em Guangdong

Funcionários do alto escalão do governo alertam há décadas para o perigo de uma desaceleração econômica trazer como consequência a instabilidade social. Com poucas exceções, a moderna taxa de crescimento da China tem sido impressionante o bastante para manter a maioria das pessoas contente durante a maior parte do tempo. Mas, conforme o crescimento do PIB fica abaixo de 8% pela primeira vez em anos, o tecido social chinês pode se ver sob tensão, especialmente quando milhares ou até milhões de trabalhadores migrantes virem seus empregos ameaçados. "Está claro que a desaceleração no crescimento das exportações como resultado do enfraquecimento da Europa e dos Estados Unidos continua a ser um fardo para a economia chinesa", disse à Bloomberg Businessweek o economista Lu Ting, do Bank Of America em Hong Kong. Exportadores estão quebrando e algumas das fábricas que continuam abertas passaram de três turnos de trabalho para apenas um.

Os trabalhadores migrantes sempre forneceram a mão de obra que mantém funcionando o motor chinês do crescimento. Mas, para a estabilidade da China, é fundamental que tenham a sensação de participar da recompensa. A insatisfação deles traz o risco de ser o grande ponto fraco da China, como percebeu a cidade manufatureira de Shaxi, em Guangdong, ao se tornar palco do mais recente "incidente de massas" do país. O caso de Shaxi parece ter sido controlado, mas as autoridades não poderão lidar com muitas situações simultâneas desse tipo.

3. Sumiço dos ricos

Quando a situação fica ruim, os ricos tocam para o aeroporto.

A venda de artigos de luxo na China, setor de grande prosperidade, começou a perder força no início do ano. Mas isso não significa que os chineses ricos pararam de gastar. Eles simplesmente deixaram de gastar na China. No fim do ano passado, tornou-se claro que muitos chineses ricos estavam perdendo a confiança no mercado doméstico e passando a investir em bens conversíveis, como moeda estrangeira, em lugar de bens fixos, como imóveis. Agora eles procuram cada vez mais oportunidades de investimento em propriedades de alto padrão no exterior, em parte por causa das restrições domésticas e dos bons preços no exterior, mas também como forma de se proteger contra as incertezas políticas e econômicas no próprio país. Isso bate com a revelação feita no fim de 2011 de que mais da metade dos milionários chineses pensa em deixar o país e se instalar permanentemente no exterior.

Promotores chineses disseram que quase 19 mil funcionários públicos foram apanhados nos últimos 12 anos ao tentar fugir para o exterior com dinheiro obtido ilegalmente; eles usam o termo "funcionário nu" para se referir àqueles que transferiram fortunas ilícitas para algum buraco no exterior, instalaram lá suas famílias e aguardam o momento oportuno para abandonar o adernado navio chinês. Os ricos e os politicamente poderosos da China são com frequência membros da mesma família e, se o país de fato entrar em recessão, muitos ricos podem decidir que é chegada a hora de procurar a saída.

4. Um verão longo e quente

O consumo de eletricidade costuma aumentar no verão, quando as pessoas ligam o ar-condicionado para aguentar o calor. Mas neste ano muitos chineses parecem dispostos a enfrentar a temperatura para poupar. Em portos chineses há pilhas de carvão que deveria ser usado para alimentar as usinas elétricas. A queda na manufatura também é responsável por isso. Ainda no ano passado, Pequim falou em armazenar um grande estoque de carvão para evitar escassez. Parece que importou mais do que precisava, com cidadãos, empresas e fábricas em dificuldades cortando o consumo de energia para reduzir as contas. O preço do carvão já caiu 10% desde o ano passado. A queda pode prejudicar ainda mais a economia global, o que por sua vez reduziria ainda mais a demanda por exportações chinesas. Assim funciona a globalização: um chinês desliga o ar-condicionado e a economia mundial pega uma gripe.

5. Porco em baixa e ovos na estratosfera

Com a China consumindo cada vez mais carne, o preço da carne suína e bovina aumentou, puxado pela demanda incessante. Isso fez da inflação uma das preocupações dos governantes. Já em 2007, a China consumia 1,7 milhão de porcos por dia; em 2011 o Bureau Nacional de Estatísticas disse que o preço da carne suína tinha subido 57% em relação ao ano anterior.

Mas nos últimos quatro meses a demanda por carne suína perdeu força. O excesso de estoque resultante fez com que a importantíssima relação de preços porco/milho caísse abaixo do ponto em que a criação suína se torna rentável, obrigando o governo a intervir e comprar carne para estabilizar os preços.

Indiferente à queda no preço da carne suína, o preço dos ovos aumentou bastante - e tão rapidamente que os compradores começaram a usar a expressão "ovos na estratosfera". Além disso, os consumidores chineses, com a confiança abalada não apenas por causa da economia vacilante, mas também por uma longa série de escândalos envolvendo a segurança alimentar, estão optando cada vez mais pelo cultivo dos próprios legumes, verduras e frutas, de modo a evitar: a) serem tapeados; e b) consumirem pepinos que receberam injeções de substâncias que nenhum pepino deveria receber.

Neste segundo semestre, o vice-presidente Xi Jinping deve assumir a presidência da China, numa transição de liderança que ocorre uma vez a cada década. Conforme as fissuras começam a surgir nos alicerces econômicos de seu país, é o caso de se indagar se ele ainda quer o cargo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.