Os cubistas de Cuiabá

Livro retrata a cultura e o trabalho ‘fora do eixo’ no interior do grupo que foi para as ruas nas manifestações de junho de 2013

Eugênio Bucci, O Estado de S. Paulo

29 Novembro 2014 | 16h00

O autor não poderia ser melhor. O jornalista Rodrigo Savazoni é o escritor certo para uma missão traiçoeira: apresentar um perfil compreensível do controverso (e admirável) Fora do Eixo. Sem procurar disfarçar o entusiasmo com seu tema, Savazoni mantém o distanciamento necessário para não perder o olhar crítico. Vale a pena ler. 

A “aventura” narrada em Os Novos Bárbaros - A Aventura Política do Fora do Eixo começa em Cuiabá, em 2002, quando Pablo Capilé, Lenissa Lenza e Mariele Ramires criam o Espaço Cubo. Misto de república estudantil, produtora cultural e “agência de publicidade jovem”, o Espaço Cubo tinha a ambição de promover eventos culturais longe do eixo Rio-São Paulo. (Tudo bem que a geografia não lhes deixava outra escolha: instalados na capital mato-grossense, bem longe do Rio, já nasceram mesmo completamente fora do eixo.)

Entre outras excentricidades, o Espaço Cubo logo inventou a própria moeda, o Cubo Card, nos “preceitos da economia solidária”. Era usada em transações internas. Em 2005, os cubistas de Cuiabá começaram a articular shows em cidades médias de outros Estados. Foi então que a expressão “Fora do Eixo” pôs o pé na agenda nacional. A moeda solidária se espalhou.

Em dezembro de 2013, o Fora do Eixo realizou seu 5º Congresso com números impressionantes: “18 casas coletivas, 91 coletivos e cerca de 650 coletivos parceiros”. Tudo lá é coletivo, como logo se vê. Um exército cultural de 600 ativistas diretamente vinculado à organização mobilizam algo como 2 mil outros agentes, num poder de agitação movido mais a trabalho voluntário do que a dinheiro. Que não é miúdo. “No detalhamento das contas de 2012”, conta Rodrigo, “a organização movimentou, de forma descentralizada, cerca de R$ 5 milhões, sendo que destes a metade origina-se de patrocínios públicos (R$ 1,7 milhão) e privados (R$ 500 mil).”

Em suma, qualquer que seja o ponto de vista adotado por quem quer que seja o observador, não há como negar: o Fora do Eixo é o mais barulhento, substancioso, inventivo e, claro, controvertido fenômeno cultural da juventude da era Lula. Entre outras coisas, foi ele quem abrigou a Mídia Ninja, que tumultuou (para o bem) a cena da imprensa brasileira em junho e julho de 2013. Não prestar atenção ao que se passa nesse “coletivão” meio hippie meio hacker é como ignorar o Circo Voador no Rio dos anos 1980 - ou pior do que isso.

Os Novos Bárbaros é um livro à altura de seu objeto. Originalmente escrito como dissertação de mestrado (no programa de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do ABC, em Santo André, em 2013), mescla reportagem e citações bibliográficas academicamente à esquerda, que vão de Manuel Castells a Frederic Jameson. Juca Ferreira, ex-ministro da Cultura no segundo governo Lula e mais provável novo futuro titular da mesma pasta no segundo governo Dilma, assina o prefácio. Quanto a Pablo Capilé, o expoente máximo do Fora do Eixo, ator principal das aventuras de Os Novos Bárbaros, andou aparecendo mais de uma vez no horário eleitoral de Dilma Rousseff em 2014. 

Um movimento que apoia expressamente o governo e recebe verba pública tem lá suas complicações, é lógico. Eles estão a serviço da retórica do Palácio do Planalto? Eles contestam o poder? É uma boa discussão, sem respostas simples. Savazoni evita embarcar na propaganda. Explora as contradições dos coletivos todos e, quando necessário, deixa perguntas no ar.

No posfácio, escrito depois da defesa do mestrado, comenta alguns dos principais ataques desferidos contra o Fora do Eixo na imprensa e nas redes sociais. Uma das acusações é especialmente delicada: a organização exploraria “trabalho escravo” de seus liderados. O autor registra a acusação e registra a resposta do grupo, que diz enxergar “o trabalho como um meio de libertação humana.” Isso mesmo. Está na página 203. Savazoni não fica nem de um lado nem de outro: “Podemos estar tanto diante de um grupo que promove práticas de exploração de mão de obra quanto de um núcleo promotor de outras relações possíveis de produção”.

Mas a resposta do Fora do Eixo chega a ser ofensiva. Esse tipo de “elogio” ao trabalho na boca de quem dele se beneficia parece escárnio. Lembremos que, no alto do portão do complexo de campos de extermínio de Auschwitz-Birkenau, o maior símbolo do Holocausto, pesava com letras de ferro uma frase inesquecível: “O trabalho liberta” (Arbeit macht frei). O dístico de Auschwitz é horror e barbárie. Os “novos bárbaros” deveriam repudiá-lo, não reproduzi-lo. Será que se esqueceram de Paul Lafargue, para quem o “amor ao trabalho” seria “uma estranha loucura”?

Outro ponto incômodo é a contabilidade que embaralha notas de reais com as tais moedas “solidárias”. Para quem recebe verba pública, é complicado. Fui um dos entrevistadores de Pablo Capilé e Bruno Torturra no fatídico programa Roda Viva de agosto de 2013. Insisti quanto pude para que Capilé esclarecesse esse negócio. Foi terrível. O diálogo emperrou e eu não entendia nada do que ele falava a respeito. Continuo não entendendo até hoje, o que não me impede de aplaudir o livro de Rodrigo Savazoni.

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Eugênio Bucci é jornalista, professor da ECA-USP e da ESPM, e autor, entre outros livros, de A Imprensa e O Dever da Liberdade (Contexto)

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