Os demônios da multidão

Tudo pode ser explicado pelo futebol, demonstra a Copa América, que apresenta o continente como ele é

Sérgio Augusto, Versão Impressa

17 de julho de 2007 | 17h02

A Copa América começou bem e mal. Mal porque o Brasil estreou dando vexame. Bem porque a derrota para o México desmistificou os critérios de convocação e escalação de Dunga ainda a tempo de uma recuperação, ou, melhor dito, de uma superação. A goleada da Argentina sobre os EUA foi outro fator positivo. Em princípio, uma Copa das Américas sem contar, entre os finalistas, com o Brasil (uma possibilidade) e a Argentina (uma improbabilidade) perderia todo o interesse, de resto já debilitado pela mediocridade do atual futebol uruguaio.Mas o torneio deste ano tem características singulares: é o primeiro verdadeiramente continental e está sendo disputado, pela primeira vez, na Venezuela. Não na Venezuela de Andrés Pérez ou Rafael Caldera, mas na de Hugo Chávez, o mais espetaculoso líder político da América Latina da atualidade. Bola murcha no gramado? Pode deixar que Chávez garante o show, sozinho ou fazendo dupla com Evo Morales. Os dois andam tão afinados que suas seleções empataram no jogo de abertura da Copa.Abertura mais expressiva, na atual conjuntura, impossível. Não pela tradição futebolística dos dois contendores (a Venezuela jamais chegou às finais de uma Copa América e a Bolívia só levou a taça jogando a 3.577m de altitude, 44 anos atrás), mas pela liderança que Chávez e Morales ocupam na copa do populismo continental. O anfitrião, como se esperava, comportou-se como o dono da bola. Fez questão de dar o pontapé inicial no jogo de abertura, acompanhado de Morales e Maradona, e cuidou para que nenhuma manifestação contra seu governo e o recente fechamento da RCTV irrompesse nas arquibancadas. Sem truculência (afinal de contas, o mundo estava de olho na Copa). Bastou-lhe a compra de grande parte dos ingressos, o que reduziu bastante a afluência de oposicionistas ao estádio Pueblo Nuevo. E, quando antichavistas ensaiaram uma vaia, o locutor oficial do estádio abafou-a com um esperto cala-boca, anunciando a presença do craque argentino. Terminada a partida, a dupla se desfez fisicamente. Enquanto Morales ia a Zurique, para reverter a recente decisão da Fifa de proibir a realização de jogos oficiais em cidades situadas acima de 2.500m de altitude, Chávez deu um pulo a Moscou, para acrescentar novos armamentos russos aos 100 mil fuzis Kalashnikov que comprou no ano passado. Falando como se já tivesse assegurada a compra de cinco submarinos russos e liderasse o torneio armamentista na América Latina, Chávez provocou Lula: "Venceremos o Brasil", hipótese improvável mas possível, já que as duas seleções podem se defrontar nas semifinais da Copa. Embora pudesse ter agradecido aos argentinos a goleada imposta ao escrete dos EUA, preferiu dar um descanso a Bush e não encher a bola do presidente Néstor Kirchner, que bem merecia um afago de Chávez depois da derrota sofrida com a eleição de Mauricio Macri à prefeitura de Buenos Aires. A eleição do presidente do Boca Juniors foi uma vitória folgada do populismo de centro-direita sobre o populismo de centro-esquerda de Kirchner. Se dúvidas ainda havia sobre o populismo de Kirchner, dissiparam-se todas quando, durante a campanha eleitoral do candidato governista, Daniel Filmus, à prefeitura portenha, o presidente argentino fez questão de ser fotografado ao lado de Ramón Díaz, técnico do San Lorenzo, atual campeão do país e rival do Boca.Franklin Foer tem razão: o futebol explica o mundo. Ainda que sem a presença dos EUA, daria um livraço a história do século 20 contada pela perspectiva do futebol. Pelo viés de qualquer outro esporte, nada feito. Beisebol, então, nem pensar. Ao descrever os jogadores de futebol como "guerreiros que exorcizam os demônios da multidão", reciclando em combate velhos ódios e amores passados de pai para filho, Eduardo Galeano resumiu à perfeição o que o futebol metaforiza. Fenomenal código de integração social e fermento patriótico, o futebol é, de fato, o bairro, a cidade, o Estado e a pátria de chuteiras. Defini-lo como "a religião leiga da classe operária", como fez Eric Hobsbawm, é limitar sua abrangência. O futebol tornou-se a religião leiga de todas as classes sociais. Daí seu poder, incomensurável e indestrutível, que os políticos sempre exploraram, com boas e más intenções.Mussolini só faltou entrar em campo para assegurar o triunfo da seleção italiana, na Copa do Mundo de 1934. A conquista da taça Jules Rimet significava, aos olhos do Duce, a consagração mundial do fascismo, no poder desde 1922, o que explica o "XII" (12 anos de Mussolini) acoplado ao "MCMXXXIV" (1934) no cartaz da Copa da Itália. No Mundial seguinte, realizado na França, Mussolini ordenou, por telegrama, aos guerreiros da Azurra que vencessem ou morressem. Nenhum deles precisou se matar para bisar o título, mas todos tiveram de comparecer à festa de comemoração em trajes militares.Aos jogadores do Dínamo de Kiev os ocupantes nazistas pediram o oposto: "Percam ou morrem". Briosos e destemidos, os ucranianos desconsideraram a ameaça e derrotaram uma seleção alemã, em 1942. Foram todos executados depois do jogo. Um monumento em Kiev os celebra como "mártires do futebol ucraniano".Mártires do fanatismo ideológico, da prepotência política e da demagogia populista existem em inúmeras praças esportivas. O Barcelona foi perseguido pelo franquismo de maneira implacável e cruel. Orgulho catalão e desde sempre um modelo de gestão democrática, foi a quarta organização expurgada pelo fascismo espanhol, depois dos comunistas, anarquistas e separatistas. Seu presidente, Josep Sunyol, morreu nas mãos de milicianos franquistas, durante a Guerra Civil, e as instalações do clube foram demolidas pelos monarquistas, quase todos torcedores do Real Madrid. Políticos aproveitadores contribuíram para a derrocada do Brasil na Copa de 1950, perturbando a paz e até o sono de nossos jogadores na véspera da decisão contra o Uruguai. Perto do que aconteceu no Mundial do Maracanã, o uso oportunista da seleção de 1938, amadrinhada pela filha do ditador, Alzira Vargas, e doutrinada para promover, na Europa, o Estado Novo, foi apenas, digamos, um lateral. Em 1954, a barra pesou: fomos à Suíça cultuando, fanaticamente, o lábaro estrelado, entoando o Hino Nacional e tendo como parâmetros os pracinhas enterrados em Pistóia. Como das outras vezes, perdemos. Um dos encantos do futebol é driblar a lógica da causa e efeito. Fomos campeões mundiais com presidentes democraticamente eleitos no poder e também com um ditador (Médici) no Planalto. Os argentinos, no entanto, só ganharam o Mundial de 1978 na roubalheira - uma das muitas provas de que a ditadura militar deles foi pior do que a nossa.O futebol não só explica o mundo, como possui a sua própria teodicéia.

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