Os elos e os grilhões da fé

"Respostas a questões relativas a alguns aspectos da doutrina sobre a Igreja" é o nome longo, e um tanto burocrático, do documento apresentado pelo Vaticano esta semana, causando alvoroço no mundo das inúmeras confissões cristãs. Publicado pela Congregação para a Doutrina da Fé, o texto afirma que a Igreja Ortodoxa é falha por não reconhecer a liderança de Roma e que as protestantes sequer podem ser chamadas de igrejas. A verdadeira e única Igreja de Jesus Cristo, para Roma, é a Católica.O documento, no formato de cinco perguntas acompanhadas de respostas, incomodou. "O Vaticano quer jogar as igrejas cristãs umas contra as outras", acusou o patriarca Teoctista I, da Igreja Ortodoxa Romena. O presidente da Federação Protestante Suíça, Thomas Wipf, reclamou que Roma quer "definir os termos do diálogo ecumênico, antes de sentar-se à mesa". "Todos nós já conhecíamos a posição da Igreja Católica", explica o pastor luterano Walter Altmann. "O que causa desalento é o Vaticano preferir ressaltar nossas diferenças ao invés de tudo aquilo que temos em comum." O pastor, gaúcho de Porto Alegre, 59 anos, pertence ao comitê executivo do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Trata-se de uma organização religiosa fundada em 1948, reunindo hoje 350 confissões cristãs, num total de meio bilhão de fiéis em todo o mundo. O CMI admite a existência de uma única família humana, justiça e paz fazem seu lema e estabelece a igualdade entre seus membros. Dentre os mais destacados no Brasil, esteve o pastor presbiteriano Jaime Wright (1927-1999) que, ao lado de dom Paulo Evaristo Arns, enfrentou governos e a tortura na época da ditadura militar. Portanto, o desalento de Altman é o desalento de uma grande teia cristã que, acima de tudo, vive do ecumenismo. Por que então Bento XVI quer marcar a diferença dos católicos no mundo cristão?Conflitos doutrinários já causaram muitas mortes. Em 1572, dias após o casamento do príncipe calvinista Henrique de Navarra com a herdeira católica do trono francês, Marguerite de Valois, católicos saíram às ruas de Paris atrás de protestantes, naquele que ficou conhecido como o "Massacre do Dia de São Bartolomeu". A brutal guerra entre católicos e protestantes na Irlanda, em 1641, continuou reverberando até há pouco tempo, em ataques do grupo terrorista IRA. Apesar de complexo, o diálogo ecumênico entre igrejas cristãs avançou no século 20. Em 1999, católicos e luteranos chegaram a um acordo sobre a salvação da alma. Pode parecer discussão sobre o sexo dos anjos, mas, quando Martinho Lutero disparou a Reforma protestante, este era um dos pontos que distanciava um grupo do outro. O documento do Vaticano poderá representar um obstáculo no caminho das aproximações? "Não", afirma Altmann. "Agora é que o diálogo vai se intensificar. Se temos diferenças, vamos encará-las." Leia a seguir os principais trechos da entrevista do pastor, concedida esta semana ao Aliás.O ASSUNTO É INTERNO"Houve uma repercussão mundial com a manifestação do Vaticano, mas o diálogo ecumênico não será interrompido. Pelo contrário, é possível que até se intensifique pois Bento XVI tem dito que deseja continuar à mesa com todos. O documento não nos surpreende. A posição católica de que ela é a única igreja de Jesus Cristo é conhecida. O que surpreende é que o papa não realce os avanços das últimas décadas. As igrejas protestantes gostariam de ter ouvido sinais públicos reconhecendo que caminhamos à frente. Este documento, vale ressaltar, é uma comunicação interna da Igreja Católica. Nós, das outras igrejas, nem devemos opinar sobre ele.DUAS SUCESSÕES "O Vaticano mostra que há diferenças em como as igrejas se auto-definem. Isso é uma área teológica chamada Eclesiologia e nela temos, de fato, pontos divergentes. Pela ótica de Roma, a plenitude dos elementos que constituem a Igreja de Jesus Cristo se encontra apenas na Igreja Católica. Às igrejas ortodoxas faltaria reconhecer o papado em Roma. Quanto às igrejas da Reforma, o Vaticano percebe elementos comuns, mas acredita que faltam aos ministros protestantes serem nomeados por sucessão apostólica: para Roma, os pastores devem ser ordenados por bispos que, por sua vez, foram ordenados por bispos da geração anterior e daí para trás, continuamente, até chegar aos apóstolos ordenados por Jesus. Esta linha histórica existe na Igreja Luterana sueca, porque quando houve a Reforma os bispos católicos de lá se converteram e ordenaram sucessores desde então. Mas, na maioria das igrejas protestantes, pastores não foram ordenados inicialmente por bispos católicos. Já a compreensão das igrejas protestantes é a de que a sucessão é evangélica, o que tem a ver com as origens do cristianismo. Nenhuma das igrejas protestantes se considera uma nova igreja. Consideram-se renovadas de acordo com o princípio cristão.QUESTÃO DE LINGUAGEM"No texto preliminar do Concílio do Vaticano II (1962-65), estava escrito que ?a Igreja de Cristo é a Igreja Católica?. No texto final, substituíram o verbo ser e ficou ?a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica?. Uma interpretação mais ampla, que permite ver de outro jeito a relação entre as igrejas. Mas, veja bem, esta é uma discussão que tem acontecido no interior da Igreja Católica, assunto que compete exclusivamente a ela. E muitos têm a impressão de que houve um recuo em relação ao Concílio. Para o CMI, trata-se de um debate de difícil resolução no diálogo ecumênico. O que devemos fazer é perseverar na conversa.DEUS DECIDE"Temos um exemplo muito bonito de avanço nas discórdias antigas entre luteranos e católicos. Roma entendia que a salvação da alma se dá pelas boas obras. Lutero enfatizava que a salvação se dá pela fé. Esta foi uma das questões que motivou a Reforma. Por décadas, um lado se dedicou exaustivamente a compreender o ponto de vista do outro, à luz do momento histórico em que o debate surgiu. Por fim, em 1999, assinou-se uma declaração conjunta na qual ambas as confissões chegaram à mesma compreensão. A salvação se dá pela graça de Deus. Nisto, concordamos.BATISMO E CASAMENTO"A Igreja Católica reconhece a validade do batismo das igrejas da Reforma. Com o casamento é diferente. Protestantes não classificam o matrimônio como sacramento. Ele é visto como uma relação civil que Deus deseja e abençoa. Assim, reconhecemos que ele pode fracassar. Por isso que, nas igrejas protestantes, não se nega a bênção a um segundo matrimônio. Quanto à eucaristia, distribuição do pão e do vinho, o Vaticano não reconhece aquela celebrada pelos protestantes, porque, como não foram ordenados por sucessão apostólica, os pastores não podem dar comunhão. O batismo não precisa ser feito por um ministro, a eucaristia, sim. Isso é um obstáculo para que possamos celebrar a comunhão conjuntamente. De nossa parte, não haveria objeção, pois reconhecemos a comunhão católica.NEOPENTECOSTAIS CRESCEM"Precisamos reconhecer que a cristandade, hoje, está mais diversificada do que no tempo do Concílio do Vaticano II. As igrejas neopentecostais, por exemplo, não existiam. Então é natural que a Igreja Católica, num momento como o atual, tente reafirmar sua identidade. A tendência à fragmentação não preocupa apenas ao Vaticano. Todos estamos atentos. O propósito de Deus e de Cristo é a unidade.SEM ANTAGONISMOS"O debate interno sobre doutrinas tem a idade do cristianismo. No passado, prevalecia a animosidade. Hoje há o reconhecimento mútuo de que somos todos cristãos. O propósito do debate ecumênico é unir a humanidade. É o que se espera das igrejas que testemunham o mesmo Jesus Cristo. Até certo ponto, divisões são legítimas manifestações da fé. Mas, na media em que se transformam em posturas antagônicas, uma contra a outra, passam a ser uma negação dos fundamentos cristãos. Não vejo mais a possibilidade de que ocorra uma ?Noite de São Bartolomeu? a partir de um conflito entre igrejas cristãs. Mas continuamos a ver a violência no mundo com patrocínio religioso."CINCO PONTOS DA DOUTRINA DA FÉ, NA ERA BENTO XVI O Concílio do Vaticano II não modificou a doutrina católica. Jesus Cristo constituiu sobre a Terra uma única igreja que "subsiste na Igreja Católica", governada pelos sucessores de São Pedro. As outras comunidades cristãs têm peso. Mas elas todas têm faltas que as impedem de ser reconhecidas como a verdadeira Igreja. As ortodoxas são reconhecidas como "igrejas" por adotarem a sucessão apostólica, um rito do catolicismo. Ainda assim, não são igrejas plenas. As comunidades cristãs nascidas com a Reforma não são chamadas "Igrejas" por não compartilharem da sucessão apostólica, elemento essencial para a celebração da eucaristia.TERÇA, 10 DE JULHOVaticano: Igreja é única Publicado em Roma pela Congregação da Doutrina da Fé, novo documento afirma que a Igreja Católica é a única que de fato representa a Igreja de Jesus Cristo. Todas as outrasdenominações cristãs seriam falhas, orienta a congregação.

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