Os elos frágeis da corrente do euro

Equilibrar o orçamento da Grécia ou de Portugal pode salvar a moeda - mas não tira a Europa de sua encruzilhada

Carolina Rossetti e Ivan Marsiglia, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2010 | 01h42

Para quem ainda tinha dúvidas, na quinta-feira a chanceler alemã Angela Merkel descreveu à rede de TV WDR o tamanho da encrenca: "A crise do futuro do euro não é só uma crise, é o maior teste que a Europa enfrenta desde 1990, senão nos últimos 35 anos. Se o euro fracassa, a Europa fracassa, e fracassa a ideia de unidade europeia".

Menos, Angela - diria a cientista política Kalypso Nicolaïdis, diretora do Centro de Estudos Europeus da Universidade Oxford. Para a estudiosa nascida em Paris e filha de pai grego, Ph.D. em economia política e governamental pela Universidade Harvard, a crise que começou na Grécia é grave. Mas ela não acredita na hipótese, levantada na última edição da revista The Economist. de que o euro desapareça em dez anos. "Ainda que assim fosse, a União Europeia poderia sobreviver sem ele".

Membro do grupo de reflexão sobre o futuro da Europa coordenado pelo ex-premiê espanhol Felipe González, a professora mantém um otimismo crítico sobre a região. Para ela, os cidadãos europeus ainda não perderam a fé no bloco, mas estão fartos de acordos político-econômicos impostos goela abaixo. Nicolaïdis afirma que a ação conjunta dos governos na liberação de um pacote de 110 bilhões para Atenas evitou "um terremoto monetário" - mas não mitigou as desigualdades crônicas entre países membros. Concorda que os "elos frágeis" da corrente europeia, como Grécia e Portugal, devem abolir o clientelismo e equacionar seus déficits orçamentários, porém falta debater se o benéfico e custoso Estado de bem-estar social europeu deve ser mantido "pela contribuição da classe média ou pelo lucro dos mais ricos".

E defende, para isso, seu conceito de "demoi-cracia": é preciso abandonar o ideal clássico de homem europeu em favor de outro, fundado no pluralismo, na abertura para a imigração e no reconhecimento de identidades políticas, culturais e socioeconômicas de seus diversos povos.

Quanto a crise é grave? A chanceler Angela Merkel exagera quando diz, ao justificar a ajuda da Alemanha a Atenas, que o que está em jogo é "o futuro da Europa"?

Depende. Se você considera que o futuro da união monetária da Europa é o mesmo que o futuro da Europa, sim. Mas acho que a União Europeia poderia sobreviver sem o euro. Para muitas pessoas a imposição de uma moeda única tornou a vida mais difícil. E é inegável que a crise grega mostrou a fragilidade desse sistema em um cenário de países tão desiguais. Há elos frágeis, como Grécia e Portugal, que historicamente mantiveram Estados clientelistas e têm dificuldades em controlar seus orçamentos. Em tempos de crescimento, ok, mas quando há uma desaceleração como a que vimos, os déficits tendem a crescer enormemente. E uma vez que esses países não podem desvalorizar sua moeda, como o Brasil fez em várias ocasiões, o resultado é a bancarrota. A crise é grave? Sim. Há possibilidade de contágio mesmo para economias de grande disciplina fiscal, como a alemã? Também. Se os países europeus não tivessem agido em conjunto para contornar a situação, poderia haver um grande terremoto monetário no continente.

A revista ''The Economist'', lançou a pergunta: será que o euro vai existir em dez anos?

Se você me perguntar se o euro vai sumir, francamente não acredito. Acho que em dez anos a moeda ainda existirá - talvez em uma Europa um pouco mais pobre. Alguns países podem deixar a zona do euro, a própria Grécia. Mas temos um banco central sólido e demanda pelo euro no mundo.

Por que tudo começou na Grécia?

A Grécia é uma economia pequena, representa apenas 2% da Europa, e ninguém imaginava que pudesse ser tão problemática. Várias razões explicam por que o déficit da Grécia era menos controlável que em qualquer outro país. A Grécia gasta mais com defesa do que qualquer outro do bloco. E desde a ditadura grega, que terminou nos anos 70, cada partido que assume o poder monopoliza o Estado e cria centenas de postos de trabalho. Quando um país saí de uma ditadura e o outro lado vence, ele usa o Estado para compensar a exclusão política dos anos anteriores. Foi assim no momento em que os socialistas tomaram o poder nos anos 80 e depois, quando a direita voltou. A situação piorou recentemente, pois o país achou que receberia dinheiro fácil dos europeus. A crise veio, o fluxo de capital foi reduzido e o déficit explodiu.

No relatório do grupo de reflexão sobre a Europa do qual a sra. participa está dito que esta é a primeira vez em que há um temor generalizado de que "nossas crianças terão menos oportunidades do que a geração de seus pais". Os cidadãos estão perdendo a fé na União Europeia?

A avaliação dos cidadãos sobre a UE mantém-se bastante estável. A maioria considera que, se seus países agirem conjuntamente em diversas áreas, será melhor do que fazê-lo isoladamente. Então, eu não diria que estão perdendo a fé no bloco. O que eles não gostam, em geral, é de ratificar tratados ex post facto - que são simplesmente colocados diante deles e com os quais são obrigados a concordar. Esse sentimento de que as crianças hoje estão menos protegidas não é necessariamente atribuído à UE. Nossos cidadãos percebem que isso diz respeito ao fato de que a Europa é um continente cuja população envelheceu, onde os jovens terão que sustentar uma proporção cada vez maior de idosos - um problema presente em quase todas as grandes democracias de hoje.

Na Inglaterra, o vencedor das eleições, David Cameron, manifestou a opinião de que o país não deveria conceder mais poder político à UE. Esse discurso pode se tornar predominante entre os políticos do continente?

Pela primeira vez em muitas décadas, o governo britânico será baseado em uma aliança. E os analistas já dizem que essa opinião negativa em relação à UE será neutralizada no Parlamento. É uma posição ideológica e sem grande fundamento nos fatos. A agenda da cooperação europeia hoje é mais baseada em questões econômicas, em mecanismos financeiros para os países membros do bloco, do que no debate sobre centralização de poder político. A expectativa em relação ao novo governo britânico é de que ele continue a ser pragmático em relação ao bloco, como sempre foi.

Mesmo uma economia considerada sólida, como a espanhola, sofreu um baque, a ponto de o primeiro-ministro José Luis Zapatero anunciar um corte significativo nos gastos públicos. A situação está fora de controle?

Veja, a Espanha tem problemas estruturais enormes também. Entre eles, uma das maiores taxas de desemprego da Europa: metade das famílias lá têm pelo menos um membro desempregado. Um grande desafio para a Europa, como o de quase todos os países, incluindo o Brasil, é o problema da desigualdade. Quem paga a conta? Vivemos em um mundo em que o capital se tornou tão volátil que é cada vez mais difícil para os governos estabelecerem mecanismos que garantam justiça na partilha da riqueza e dos prejuízos. Um ponto central, na minha opinião, é discutir quanto os serviços públicos devem ser sustentados pela contribuição da classe média ou pelo lucro dos mais ricos.

Um artigo do jornal "El País" sugere que o apoio da Alemanha ao fundo de resgate à Grécia parte de seu interesse em liderar o Banco Central Europeu, atualmente presidido pelo francês Jean-Claude Trichet. Como isso pode afetar o equilíbrio de poder na UE?

O balanço de poder na Europa continua a ser definido pelo casal franco-alemão. Os franceses defendem a "solidariedade racional", em que é preciso se preocupar com os países em déficit, pois eles afetam o mercado único europeu como um todo. Já os alemães ressaltam que a UE não deve ser uma união fiscal e argumentam que a única razão para despejar tanto dinheiro no pacote de resgate à Grécia é garantir a estabilidade do euro. Só o futuro dirá se haverá mudanças no equilíbrio de poder do bloco.

O relatório também cita o perigo de desglobalização da Europa, caso os países tentem reafirmar sua autonomia nesse tempo de crise. Como evitar isso?

Defendo a ideia de interdependência responsável entre os países. Todos os Estados devem contribuir com recursos para que um bem-estar global seja implementado. E é preciso amenizar os aspectos mais injustos da globalização, promovendo o desenvolvimento sustentável. Esse será o principal desafio dos próximos dez anos.

Aí entra o seu conceito de "demoi-cracia"?

É a ideia de que não precisamos construir uma Europa nos moldes de um Estado-nação, com um único demos, o povo europeu, mas vários - demoi, no plural grego. No Brasil, por exemplo, por mais diversificado que o país seja em termos de identidades regionais, classes e raças, existe uma lógica da maioria e se aceita que um presidente seja eleito com 51% dos votos. Na Europa não chegamos a esse ponto e acho que nunca chegaremos. A Europa é um animal diferente. O nosso caminho é abandonar o ideal de identidade única defendido pelas gerações passadas em favor de uma verdadeira política transnacional que reconheça as diferentes identidades, sem perda da responsabilidade para com o todo.

Dentro desse processo, a Europa deve repensar sua atitude em relação à imigração?

Essa é uma questão muito difícil. Por um lado, cidadãos europeus, em sua maioria, são contrários ao aumento da imigração. Por outro, na pesquisa que fizemos para o relatório, identificamos que, em 20 anos, a Europa necessitará de mais de 70 milhões de agricultores. Vamos precisar intensificar a imigração. Não podemos nos fechar agora e em 20 anos precisar que milhões de pessoas venham trabalhar na Europa. Será tarde demais para reunir tantos trabalhadores qualificados que se disponham a viver aqui. A solução que encontramos foi o que chamamos de imigração circular. Um sistema global de imigração em que as pessoas não venham para a Europa ou os EUA para se estabelecer permanentemente, mas que tenham incentivos para voltar aos seus países e depois retornar. Para isso, precisamos estabelecer um aparato legal que permita essa livre circulação pelo mundo.

E a sra. é otimista em relação ao futuro da Europa?

Não sei o que otimista significa nestas circunstâncias, mas acredito que sou, pois penso que europeus têm bens enormes, tanto históricos, quanto econômicos. Eles têm também a disposição de criar uma comunidade política para si mesmos. Os europeus estão em um momento decisivo de sua história e percebem que, se quiserem continuar a fazer justiça ao seu passado, terão que encontrar novos caminhos. E eles conseguirão. Acho que existe um sentimento crescente na Europa de que podemos contribuir para o surgimento de um mundo de interdependência responsável. É uma ambição que só pode ser tomada como realista se a Europa não assumir uma atitude paternalista, neocolonial ou arrogante - dizendo que somos o modelo e devemos ensinar ao resto do mundo como fazer colaboração transnacional. Se no lugar disso formos humildes, autocríticos e aceitarmos trabalhar em parceria com outras regiões do mundo, acho que podemos ter uma importância grande na criação desse mundo de interdependência responsável. É o que eu tanto desejo e tenho certeza de que outras pessoas no mundo têm interesse em ver se concretizar.

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