Shanet T. McCoy/Reuters
Shanet T. McCoy/Reuters

Os fatos e as fotos

Ao vetar imagens de tortura, Obama tenta mudar o futuro sem acertar as contas com o passado

Demétrio Magnoli*, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2009 | 23h16

Barack Obama deixou "bem claro a todos na cadeia de comando das Forças Armadas dos EUA que o abuso de detentos mantidos sob custódia americana é proibido e não será tolerado". É uma declaração de intenções sobre o futuro. Contudo, simultaneamente, o presidente tomava uma decisão prática sobre o passado, bloqueando a divulgação de fotos que mostram militares americanos aplicando "técnicas extremas" de interrogatório de prisioneiros no Iraque e no Afeganistão.

Obama viu as fotos que não pretende abrir às vistas do público. Na sua avaliação, elas são menos dramáticas, "quando comparadas às dolorosas imagens de Abu Ghraib". A União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), autora do processo que pede a liberação do material, concorda com isso, mas atribui ao fato um significado perturbador. As imagens da prisão de Abu Ghraib não representaram o funcionamento normal do sistema de interrogatórios, mas o seu exagero depravado. As imagens que a Casa Branca esconde agora comprovariam a rotinização burocrática de métodos equivalentes à tortura.

Uma foto vale mil palavras. O ditado, batido e caduco, não pode ser evitado. Na era das telecomunicações, a produção e a veiculação de imagens converteu-se em componente da estratégia política e das operações de Estado-Maior. Uma das fotos mais célebres da Segunda Guerra Mundial, aquela dos marines erguendo a bandeira americana em Iwo Jima, foi quase certamente encenada, como parte do esforço de propaganda de guerra. Seis décadas depois, quando as forças americanas tomaram Bagdá, encenou-se a foto da derrubada da estátua de Saddam Hussein. A praça circular na qual se deu o evento encontrava-se totalmente isolada por blindados dos EUA e a suposta multidão que pôs abaixo a estátua do ditador era constituída por poucas dezenas de pessoas. Mas o ângulo de captação da imagem deixava fora do quadro esses elementos reveladores.

Entre Iwo Jima e a estátua de Bagdá interpõe-se uma foto que não foi encenada, mas teve as mais dramáticas repercussões. No dia 8 de maio de 1972, durante as operações aéreas deflagradas por Richard Nixon na fase derradeira da Guerra do Vietnã, pilotos sul-vietnamitas bombardearam por acidente um povoado do Vietnã do Sul. A imagem de uma menina nua, queimada por napalm, fugindo do povoado em chamas, fez seu caminho até a mídia e se tornou um emblema da culpa americana na Indochina. As fotos de Abu Ghraib ocuparam um lugar político similar ao da menina vietnamita na batalha de propaganda perdida pelo governo de George W. Bush.

As imagens das perversões na prisão iraquiana emanaram de câmeras digitais e celulares dos oficiais e soldados envolvidos naqueles eventos macabros. Tudo indica que as fotos vetadas por Obama pertencem a um tipo diferente de produção de imagens. Muitas delas, senão todas, teriam sido captadas oficialmente, como registro operacional e, talvez, modelo para equipes de interrogadores. A censura presidencial, embora procure amparo num argumento de propaganda, tem uma motivação real bem distinta.

No seu pronunciamento, Obama disse que a divulgação das fotos poderia prejudicar soldados americanos nos campos de batalha, além de contribuir para o recrutamento das redes do terror global. A alegação não faz sentido. Depois de Abu Ghraib e Guantánamo, pouco pode ser feito para proteger americanos capturados nos teatros de guerra e os chefes terroristas dispõem de material inigualável de recrutamento. A decisão de censurar as imagens representa uma tentativa presidencial de mudar o futuro sem acertar as contas com o passado.

As "técnicas extremas" de interrogatório proibidas por Obama são tortura. A sua aplicação rotineira, em violação direta da Convenção de Genebra para tratamento de prisioneiros de guerra e da Convenção Contra a Tortura da ONU, foi oficialmente amparada por um memorando elaborado pelo então ministro da Justiça Alberto González e adotado pelo presidente Bush. Entidades de direitos humanos pretendem mover processos contra todos os integrantes da cadeia de comando que ligava a Casa Branca aos interrogadores. As fotos censuradas são provas potenciais nesses processos e, igualmente, elementos poderosos na luta pelo apoio da opinião pública à abertura de ações contra a cúpula da antiga administração. O que Obama tenta evitar é a dolorosa divisão política que seria suscitada por um eventual indiciamento do antecessor ou de seus auxiliares próximos.

O ex-vice-presidente Dick Cheney sabe de tudo isso e acredita que a melhor defesa é o ataque. Ele lidera uma ofensiva na qual acusa Obama de aumentar a vulnerabilidade dos EUA a atentados terroristas, em virtude da proibição das ''técnicas extremas'' de interrogatório. Cheney utiliza a mais antiga das justificativas para a tortura: a fábula cinematográfica da bomba relógio oculta, que poderia ser descoberta a tempo por uma providencial informação obtida de um terrorista capturado. O cenário da bomba que faz tiquetaque já foi desmoralizado incontáveis vezes - e por interrogadores profissionais da CIA, do MI5 britânico e do Mossad israelense. Contudo, frequenta o imaginário do grande público e representa uma ferramenta persuasiva num debate que parece jamais se encerrar.

As fotos proibidas são as palavras faltantes numa narrativa trágica. Todo o edifício de proteção internacional dos direitos humanos começou a ser erguido a partir de iniciativas dos EUA. Os maus-tratos infligidos por interrogadores americanos a seus prisioneiros na "guerra ao terror" são eventos muito menos numerosos que as práticas de tortura disseminadas em prisões do Egito, da Arábia Saudita, da China, da Rússia e de tantos outros países. Mas são mais graves, porque basearam-se em memorandos da Casa Branca. Enquanto ditaduras torturavam às escondidas, sem dizer o nome do que faziam, a nação que levantou a bandeira dos direitos humanos decidia torturar oficialmente. A marca ficará pregada ao governo Bush para sempre, mas ainda pode ser extirpada da nação americana.

Os críticos da decisão de Obama o acusam de trair compromissos de campanha. É mais que isso. O terror não irá embora e novos suspeitos continuarão a ser capturados e interrogados. Se os torturadores de ontem e seus mandantes escaparem ilesos dos crimes abomináveis que cometeram, esses crimes serão reproduzidos no futuro. Obama não quer dividir a nação autorizando a divulgação de um punhado de fotos explosivas. Isso não é um gesto de sábia prudência, mas um ato de covarde irresponsabilidade.

*Demétrio Magnoli, sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP, é colunista do Estado

QUARTA, 13 DE MAIO

Estratégia de risco

Dizendo querer evitar inflamações antiamericanas, Obama ordena que seu governo não divulgue fotos de suspeitos de terrorismo sendo torturados por americanos no Iraque e no Afeganistão durante o governo Bush. A opção irritou inclusive vários democratas.

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