Os Jogos invisíveis: damos pouca atenção à Paralimpíada para não encarar o medo da imperfeição

Ao ignorar a Paralimpíada, perdemos a chance de enfrentar um dos grandes medos da sociedade atual: aquilo que chamamos “imperfeições”

Katia Rubio, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2016 | 16h00

O esporte se apresenta para a sociedade contemporânea como um fenômeno de grande abrangência social tanto do ponto de vista do espetáculo como também da atividade profissional e comercial. Tema polêmico como a pena de morte ou o aborto, o esporte afeta e divide profundamente opiniões por provocar polarização emocional e ideológica a respeito de um objeto investido de libido e afetividade, daí a dificuldade em se observar neutralidade ou indiferença.

Uma das justificativas possíveis para tamanha mobilização afetiva está no fato de que vários dos valores vinculados ao esporte contemporâneo remontam à sua origem, reforçando um imaginário que contempla a areté (virtude), a kalokagathia (beleza), a agonística (a disputa na competição), assim como a perseverança observada na construção e busca da melhor forma atlética.

Minha relação com os Jogos Olímpicos me coloca na posição de fonte para quem procura informações sobre os Jogos Paralímpicos, muito embora eu não seja uma especialista no tema. Essa é a razão desse texto. Tento aqui responder ao porquê de o evento Paralímpico ser tão desprezado, tão invisível, aos meios de comunicação, mesmo depois de todo o “sucesso” que seu primo rico viveu na cidade maravilhosa. Para ele não há os inúmeros canais em TV aberta ou paga, as centenas de narradores e comentaristas que propalaram opiniões mais ou menos abalizadas sobre o que acontece nas competições ou ainda as infindáveis entrevistas e exposições com os medalhistas nos programas esportivos, nos jornais regionais e nacionais. Apenas essa constatação já demonstra que falamos de dois eventos distintos, tratados com distinção indesejada, apesar de estarem sob a tutela do mesmo comitê organizador que tem apenas um presidente.

Busco os argumentos para essa tentativa no campo do imaginário, uma vez que por mais que eu tente usar de dados objetivos eles não respondem a contento à indagação inicial.

O imaginário heroico é aquele que sustenta o campo esportivo. Atletas são seres com um quê de humano e outro tanto de divino porque realizam feitos absolutamente incomuns à média da população. Deles transborda a excelência, conquistada por meio de treinamentos intensivos e exaustivos e da abdicação da convivência social regular que outras pessoas da mesma faixa etária têm. Embora mortais, seus feitos incomuns os imortalizam na memória daqueles que apreciam o esporte ou que assistiram a uma performance onde uma marca foi conquistada ou um recorde foi batido. Ou seja, visto por esse ângulo, mesmo compartilhando das imperfeições não aparentes de todos os humanos, a perfeição do gesto marca a realização do atleta olímpico.

Quase todas essas características estão presentes nos atletas paralímpicos: os treinamentos intensivos, a busca pelos resultados, a abdicação de uma vida social em razão da dedicação aos treinos e competições, com uma dose a mais de superação em função de alguma limitação física. Aí está a marca do paralímpico, a superação. Entretanto, nas entranhas do imaginário que sustenta essa atividade está a superação do imperfeito, imperfeito esse negado, e, portanto, invisível e excluído. A cena protagonizada pelo nadador Clodoaldo Silva na cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos mostrou isso. Naquele momento, como em muitos espaços públicos e privados, se falou da necessidade de ambientes produzidos para facilitar a mobilidade, mas em muitos deles o que se tem para chegar ao topo é apenas uma escada. Não há rampas ou elevadores para o acesso. Aí está a negação do discurso inclusivo. Os Jogos Paralímpicos são a representação maior da superação daquilo que se usou denominar imperfeição. Mas as impressões deixadas pela imperfeição se assemelham a uma espécie de derrota, a sombra maior do esporte e da sociedade contemporânea, daí a tendência a ignorá-la ou ocultá-la para que sua existência não seja percebida.

Se o esporte promove um grande número de ídolos consagrados por suas vitórias, há que se reconhecer que essa mesma atividade produz mais derrotados do que vencedores. Ideal da sociedade atual, o vencedor é lembrado e valorizado por seu resultado, ainda que em algumas ocasiões tenha feito uso de recursos escusos para esse fim. Ao derrotado restam a decepção pelo objetivo perdido, a dúvida sobre a própria capacidade e a falta de reconhecimento pelo esforço realizado.

E é exatamente essa condição experimentada por toda uma sociedade que compartilha o valor da vitória, onde não há espaço para o número dois, para aquele que não é tão vitorioso e perfeito quanto o número um. Esse tipo específico de imaginário heroico que promove um estereótipo de perfeição exclui tudo e todos que não se assemelhem à sua imagem e semelhança. Sendo assim, já não basta apenas superar limites, nem ter realizado proezas incomuns dentro de um grupo específico. A perfeição da forma é o referente maior para a vivência do pertencimento.

A diferença é a desencadeadora da indiferença pela realização prodigiosa. O que ocorre com a divulgação dos Jogos Paralímpicos no Brasil caminha nessa direção. Até alguns dias antes da abertura da competição havia pouco mais de 10% dos ingressos vendidos. Mesmo depois de uma campanha intensa de venda, muitas das arenas permaneceram semilotadas. Das TVs abertas apenas a RBC transmitiu a cerimônia de abertura, que foi interrompida pelo horário eleitoral gratuito, e as competições ao vivo, numa demonstração clara de desinteresse pelo evento e por todo o esforço social que anda par e passo com o esporte paralímpico. Um canal de uma TV paga, que dedicou 16 aos Jogos Olímpicos, transmitiu a abertura.

A cerimônia de abertura e as competições paralímpicas apresentam uma oportunidade rara de conhecimento e apropriação de um conteúdo estético distinto da “perfeição” olímpica, mas em nada inferior à sua “excelência”. Apesar dos esforços dos paratletas, que reconhecem e mostram com orgulho as próprias imperfeições, o descaso com o evento foi mais uma oportunidade perdida de se construir um legado.

KATIA RUBIO É PROFESSORA DA ESCOLA DE EDUCAÇÃO FÍSICA E ESPORTES DA USP E AUTORA DO LIVRO ATLETAS OLÍMPICOS BRASILEIROS (EDITORA SESI-SP)

Mais conteúdo sobre:
Clodoaldo SilvaPequim

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.