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'Os Miseráveis', de Victor Hugo, ganha nova edição na 'Plêiade'

Coleção mais prestigiosa do mundo volta as atenções do século 21 para o romance social de Victor Hugo

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

17 Março 2018 | 16h00

Para um escritor um pouco mais sério, existe algo mais gratificante que o Prêmio Nobel de Literatura: é ser publicado na coleção A Plêiade, da Gallimard. Não há autor, do Alasca à Nova Caledônia, que não sonhe em estar nas famosas encadernações em papel-bíblia e capa de couro dourada. Quem consegue entrar na Plêiade, pode ter certeza de que seus poemas e contos ainda serão lidos em 4026 ou 6785. Na Plêiade, o autor vai conviver pela eternidade com o melhor do espírito humano – de Aristóteles a Edgar Allan Poe, de William Faulkner a Platão. Não surpreende que haja uma longa fila de espera. Na busca do prêmio vale tudo: escrever um bom livro é essencial, mas também contam intriga, bajulação, rasteira. Recentemente, alguns maldosos rosnaram contra a entrada de Jean d’Ormesson na ilustre confraria, atribuindo-a a sua origem aristocrática. Nada mais injusto.

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Há escritores que ninguém nem imaginaria ver fora, como Goethe, Tolstoi, Rimbaud. E há também alguns bem-aventurados que, já publicados no século passado, voltam uma segunda vez à Plêiade porque o gênio misterioso da Gallimard acha que ainda podem ser melhorados os prefácios, as apresentações e as notas da primeira edição. Já aconteceu com o querido Arthur Rimbaud e agora acontece com Victor Hugo (1802-1885), cujo extenso romance Os Miseráveis, já publicado pela Plêiade em 1951, volta enriquecido com um novo leque de notas. Victor Hugo, que nunca se deixou atrapalhar pela modéstia enquanto vivo, fala novamente ao mundo depois de morto.

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Os Miseráveis está habituado a honrarias. O musical baseado no texto foi encenado 7 mil vezes em Paris, Londres e Broadway e tem ainda belas apresentações em Londres. Entre as centenas de adaptações, há pelos menos duas brasileiras: um filme de 1958 dirigido por Dionísio Azevedo, e uma série de TV de Walter Negrão.

Resumir Os Miseráveis? O livro é tão vasto e entremeado de aventuras que é melhor ficarmos no esqueleto. Um homem, Jean Valjean, está saindo de 20 anos de trabalhos forçados que cumpriu por roubar pão. Miserável e amargurado, chega ao vilarejo de Digne, onde o caridoso bispo Myriel lhe dá abrigo para passar a noite. Valjean foge com seis colheres de prata do bispo. Preso, ele é levado perante o religioso, que diz: “Não houve roubo. Eu dei as colheres a ele”. Fulminado por essa atitude, o ex-galé decide passar para o lado do bem e se torna um rico empresário em outra cidadezinha.

Esse é o ponto de partida. A partir daí, as aventuras se sobrepõem. Valjean, já um notável, dedica-se à caridade e acolhe uma jovem, Fanny, e sua filhinha, a deliciosa Cosette. Ele mudou de nome e agora se chama Madeleine. Ajuda todos que trilharam o mau caminho e caíram na miséria. Um policial reconhece o antigo convicto. Fanny se torna criada na estalagem de um casal assustador, os Thénardiers etc. etc... 

Infelizmente, como o livro de Hugo tem mais de mil páginas e eu só disponho de poucas linhas, preciso encurtar a história. A leitura é apaixonante. É um dos mais belos romances de todos os tempos? Não. Obras de Stendhal, Faulkner, Balzac, Machado de Assis e outros o superam (aliás, por que Machado não figura na Plêiade? Estranho).

Não que Os Miseráveis seja menos belo que os grandes romances de Tolstoi, Balzac ou Kafka. Apenas não dá para comparar. Não é uma trama única. São histórias que se entrelaçam com avanços e recuos, inícios e reinícios, lances teatrais. Hugo, que sempre teve algo de pregador, fala ao povo com um folhetim que atinge corações e mentes. Os Miseráveis tem ramificações, digressões, subterrâneos, apoteoses. Hugo quis fazer uma obra social, mostrar aos homens que é melhor ser bom que mau. O livro é tão belo e generoso que lemos cativados, frequentemente ofuscados, pelas aventuras rocambolescas de Jean Valjean.

Hugo é poeta e visionário. Desdenha de uma regra fundamental do romance: o autor, o romancista, tem de guardar um certo distanciamento. Deve narrar os acontecimentos sem interferir na história, comentá-la ou procurar extrair dela uma conclusão moral ou uma filosofia. Esse é o ascetismo imposto pelos romancistas puros – Tolstoi, Balzac, Flaubert, Chekhov – em suas obras.

Um dos aspectos que as notas, comentários e análises da edição de retorno de Hugo à Plêiade nos mostram é a importância da componente religiosa. “É um livro religioso”, anuncia-se logo de início. A prova: o personagem dominante é um sacerdote, o bispo Myriel, que em seus encontros com Valjean, depois com Fanny, Cosette etc., é o motor do grande livro. Somos lembrados disso desde o início. O bispo diz ao antigo forçado: “Jean, meu amigo, você não pertence ao mal, você é o messias de uma nova fraternidade”. Se o livro ensina alguma religião, é aquela, admirável, de Cristo, não a caricatura debochada da mensagem do Criador deturpada pelos padres ligados aos burgueses cruéis do século 19. Myriel é o amigo das prostitutas, dos pobres, dos revoltados, dos ingênuos, dos puros. Se vivesse no século 20, seria adepto da Teologia da Libertação. Nesse sentido, Hugo acompanha os maiores autores: seus personagens, como os de Dostoievski (principalmente), Bernanos, Pasolini ou Georges Bataille, se deparam incessantemente com a vertiginosa questão do mal. 

Para ficar no plano literário, a releitura da obra-prima barroca de Hugo permitiu-me voltar a passagens como a fuga alucinante através dos esgotos de Paris, ou rever a força de retratos como os de Jean Valjean (Madeleine) e dos terríveis estalajadeiros Thenadiers, que torturaram Fanny e a pequena Cosette. Alguns personagens, mesmo secundários, alcançaram tal destaque que ficaram conhecidos de todos. É o caso de um garoto traquinas e generoso, ardiloso e valente, sempre pronto a roubar e a amar. Esse pivete, deixado sozinho no mundo infernal da Paris daquela época, chama-se Gavroche. Lembra um pouco o Pixote brasileiro. 

Quando explodem as rebeliões de rua de 1832 contra o feroz poder do rei e os pobres levantam barricadas, Gavroche circula entre elas. É incansável. Encoraja os insurgentes, leva-lhes água, diverte-os, recruta companheiros. Os soldados atiram nele. Gavroche sangra, mas ainda canta. Canta uma canção muito conhecida no tempo de Victor Hugo: “Je suis tombé par terre, / C’est la faute à Voltaire; / Le nez dans le ruisseau; / C’est la faute à Rousseau.” (Caí por terra / culpa de Voltaire / com o nariz no riacho / culpa de Rousseau.) 

Não chega a dizer a palavra final. No segundo “culpa de...”, uma bala o derruba. Jamais saberemos por que nem por quem a inocência foi punida. / Tradução de Roberto Muniz 

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