Os mortos do dia

São Paulo vem acordando com o balanço macabro de policiais e civis executados na noite anterior. Nessa guerra de sombras, a única certeza é uma periferia apavorada

NANCY CARDIA É PSICÓLOGA SOCIAL E COORDENADORA ADJUNTA DO NEV-USP, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2012 | 02h07

Há alguns meses os moradores de São Paulo recebem toda manhã um relato macabro: o balanço de mortos e feridos, policiais e civis, da noite anterior e da madrugada. Essas notícias são em geral bastante sintéticas. Além de informados os números, se houve socorro, o bairro, se houve testemunha, o sexo dos que morreram (homens), pouco sabemos sobre as vítimas, o contexto e seus agressores. Nome, idade, ocupação, se casados ou solteiros, se deixam filhos, netos, pais ou avós. Quais sonhos foram destruídos. Sobre um se informa que estava estudando administração, de outro que acabara de voltar do Japão, outro ainda que o irmão era ex-policial, porém a grande maioria se resume a um ou mais corpos. Quem são esses agressores que atiram em várias pessoas que conversam na porta de um estabelecimento ou na porta de uma casa? Quem mata uma mulher com tiros nas costas na frente de sua filha de 11 anos? Quem mata um bombeiro aposentado com 80 anos de idade? Quem são esses encapuzados que chegam em uma moto, não só com revólver, mas até com metralhadora, e atiram a esmo contra uma ou várias pessoas? Menos ainda se sabe sobre as fontes das informações.

Essas notícias, tão densas de conteúdo, são, porém, tão sucintas e descontínuas que pouca informação se pode esperar delas para o esclarecimento dos casos. Elas podem encorajar diferentes reações nas pessoas. Para alguns, a falta de informações permite um distanciamento e uma defesa contra o medo: se pouco sei, e se esse pouco sugere que as mortes resultam de uma disputa entre dois grupos com os quais não tenho nada a ver, não tenho com que me preocupar. O mais importante ainda é que não tenho que me preocupar com a segurança de meus familiares.

Para outros, a falta de informações, ao contrário, pode estimular um medo profundo: se a violência pode ser tão arbitrária e imponderável, como se proteger, e aos seus? A falta de informações pode ainda permitir responsabilizar as vítimas pelo ocorrido: se em um mundo justo as pessoas recebem o que merecem, algo errado elas devem ter feito. Culpando as vítimas, me diferencio delas, me protejo da sensação de vulnerabilidade que a incerteza provoca e do medo do imponderável. O que há em comum é que no substrato de qualquer dessas reações está sempre o medo.

Esse medo é maior pela incerteza que se tem sobre a capacidade de nossas polícias em garantir nossa segurança. Em algumas áreas, mães já tiram filhos da escola do turno noturno, em pleno final do ano letivo, por medo. Melhor perder o ano que a vida. As notícias, apesar de sucintas, trazem desassossego: por que as cenas dos crimes não estão sendo rigorosamente preservadas (Estado de 8/11/12)? Porque parentes de vítimas a caminho de velório são intimidados por policiais (Estado de 7/11/12)?

Ao longo da última década, segundo pesquisas do NEV-USP, a imagem das duas polícias (Militar e Civil) vinha melhorando em vários aspectos; melhoravam também avaliações sobre rapidez de atendimento, qualidade e quantidade de policiamento e capacidade de manter as ruas do bairro tranquilas. Ao mesmo tempo, caíam as avaliações de comportamentos negativos: proteger ou temer traficantes, receber suborno. As piores avaliações, ou aquelas que menos apresentaram melhoria nos últimos dez anos, se referem ao tratamento que os policiais dão à população, em abordagens ou respondendo a chamadas, e às agressões por policiais, em especial nas regiões mais periféricas, onde o dobro de moradores faz esse relato em comparação a outros moradores da cidade. Para que a população confie na polícia é essencial que ela seja tratada com respeito, e sem violência. Sem confiança na polícia não há colaboração da população, o que em muito reduz a já baixa probabilidade de esclarecer os casos, resultando em impunidade e mais medo.

Os policiais, por sua vez temerosos com o que vem ocorrendo, podem estar se sentindo sem apoio da população. Isso acaba virando uma daquelas profecias que se autorrealizam: uma polícia que não sente a confiança da população, sentindo-se ameaçada e não conseguindo identificar claramente quem são seus oponentes, pode passar a ver todos os outros como potenciais inimigos. E ao fazê-lo, gera mais descrença da população.

Alguns relatos de pessoas que passaram por abordagens policiais e a leitura mais sistemática das reportagens sugerem exatamente isto: alguns policiais estão usando de violência verbal e física no contato com os cidadãos que devem proteger. Pior ainda são as suspeitas levantadas de que policiais possam estar fazendo justiça com as próprias mãos, na tentativa de vingar a morte de colegas. Em uma democracia, a justiça se faz seguindo a lei. O principal papel da polícia é aplicar a lei. Nesse processo, todos nós perdemos. A população precisa de uma polícia que a sirva e a proteja, e a polícia, por sua vez, precisa fazer jus à confiança da população. Cabe aos nossos governantes garantir que seja essa a polícia que temos.

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