Os números e o que eles não dizem

Pesquisa de opinião é cheia de armadilhas: por exemplo, entre gente simples, ser de direita pode ser entendido como 'ser direito'

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2010 | 01h21

A concepção de que se deve ao carisma de Lula o crescimento das opções em favor da candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, no confronto com José Serra, do PSDB, é explicação pobre e insuficiente. Lula tem popularidade e não carisma. Carisma não se transfere, pondera Max Weber, em sua análise dos tipos de dominação. É um atributo pessoal e histórico de que pouquíssimos são dotados. Na história política do Brasil, apenas dois governantes foram dotados de carisma: o imperador dom Pedro II e o presidente Getúlio Vargas. Ambos assumiram impessoalidade do poder e governaram conscientes do mandato da história, personificando acima dos interesses pessoais e partidários o destino do País.

Carisma, portanto, é dom que se afirma até mesmo acima da impopularidade. Popularidade nem sempre é indício de carisma, do mesmo modo que a capacidade de induzir aplausos nem sempre é indício de competência. É nessa perspectiva que se impõe a compreensão do que representam 70% de apreciação positiva de um presidente que não foi eleito com essa proporção de votos nem os teria hoje. Lula é admirado muito mais pelo que não fez e todos temiam que fizesse do que por aquilo que tem feito em seu governo. É aplaudido mais pelo fato de legar ao seu sucessor o mesmo Brasil do antecessor do que por legar a quem vier depois dele um Brasil diferente.

Pesquisa de opinião pública tem armadilhas de linguagem, que não raro geram respostas diferentes das perguntas feitas. Em pesquisa recente, mais da metade dos que optam por Serra se disse de direita. Para pessoas simples, como tenho verificado, é de direita quem é direito, sem conteúdos ideológicos. Essa afirmação deveria ser interpretada à luz de que, desde muito antes de Lula chegar à Presidência, o PT trabalhou e difundiu intensamente a concepção, infundada aliás, de que o PT e Lula eram de esquerda e o PSDB e seus aliados eram de direita. Na armadilha do conceito, muita gente se entende como de direita porque discorda do PT e está descontente com seu governo. Do mesmo modo que Lula, temendo a identificação de seu governo com o radicalismo de esquerda, tem afirmado que não é de esquerda, é apenas um sindicalista. Durante anos os constituintes do PT, apesar de sua origem em grupos conservadores, como os religiosos, e de direita, como o sindicalismo corporativo, esforçaram-se para fazê-lo aceito como partido de esquerda, que só o era em face do regime militar, claramente a sua direita.

A popularidade eleitoral de Dilma, portanto, tem outra explicação. Originária dos bastidores do governo Lula, completamente desconhecida, não tinha como ascender eleitoralmente em tão curto prazo se uma poderosa força externa a sua biografia não viesse em seu socorro. Foi esse o meio de "fabricá-la" como candidata e dar-lhe a visibilidade que tem como sombra de Lula. Dilma foi recurso para preencher o vazio em que o mensalão lançara o PT, estigmatizando seus nomes mais prováveis à sucessão presidencial. Muito antes da eleição de Lula, o PT já havia criado uma poderosa máquina de poder, baseada na lealdade religiosa dos grupos de base que o esvaziaram como partido para transformá-lo em seita. No poder, esse exército de adeptos recrutados nas igrejas, nos sindicatos e nas universidades tratou de montar a máquina da permanência e do continuísmo, a estratégia da estagnação política, econômica e social. É o retrocesso desse autoritarismo e não o carisma de Lula que move para cima a candidata do lulismo.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS É PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DA USP E AUTOR DE A APARIÇÃO DO DEMÔNIO NA FÁBRICA (EDITORA 34)

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