Os olhos da nova onda: Raoul Coutard, o diretor de fotografia da nouvelle vague

Foi tão crucial na nouvelle vague francesa que, mais do que diretor de fotografia, era tido como coautor dos filmes de que participou

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2016 | 17h00

Às vezes apenas a morte torna possível o reconhecimento público. Tal se viu há duas semanas com o falecimento de Dib Lutfi, o notável “câmera-olho” do Cinema Novo. Acontece de novo, por cruel coincidência temporal, com o desaparecimento de Raoul Coutard, o maior câmera e diretor de fotografia da nouvelle vague francesa.

Não que Dib ou Coutard fossem desconhecidos. Pelo contrário. Todo mundo que é o do métier os conhecia e lhes admirava o imenso talento. Mas, para o público em geral, e mesmo para a crítica mais popular, o cinema se resume a atores, atrizes e, às vezes, diretores. Os chamados “técnicos” vêm depois. Ou permanecem no anonimato. Mesmo quando se trata dos fotógrafos que, afinal, criam ou viabilizam a forma cinematográfica imaginada pelos cineastas. São coautores dos filmes; pelo menos os grandes, como Dib Lutfi e Raoul Coutard. O Cinema Novo não teria sido o mesmo sem o primeiro, nem a nouvelle vague francesa sem o segundo.

Raoul Coutard se foi, esta semana, aos 92 anos. Coutard assina alguns dos principais filmes do novo cinema francês, que, na passagem dos anos 1950 para os 1960, revolucionou a maneira de fazer filmes não apenas em seu país, mas em todo o mundo, Brasil incluído.

Seu nome é mais ligado ao de Jean-Luc Godard, o genial cineasta franco-suíço, último remanescente do grupo inicial da nouvelle vague. Com Godard, Coutard fez nada menos que 16 filmes entre eles Acossado, Band à Part, Pierrot le Fou, Alphaville, Week End à Francesa, Duas ou Três Coisas que Eu Sei Dela, Passion, Prenome: Carmem. E também O Desprezo, talvez o mais belo dos filmes de Godard.

Vale a pena nos debruçarmos um pouco mais sobre este trabalho de reinvenção (mais que de adaptação) do romance do italiano Alberto Moravia. Em O Desprezo, temos a história de um casal (Brigitte Bardot e Michel Piccoli). Paul Javal (Piccoli) é um escritor contratado para escrever o roteiro de uma filmagem da Odisseia, a ser dirigida por Fritz Lang (que interpreta a si mesmo). O produtor é o grosseirão Jeremy Prokosch (Jack Palance). Camille Javal (Brigitte), antes apaixonada pelo marido, passa a desprezá-lo quando supõe que este a “ofereceu” ao produtor em troca de melhor pagamento pelo roteiro. A história termina de forma trágica.

Ora, por que destacar esse filme, para além das notáveis qualidades visuais que se devem a Coutard? De fato, poucas vezes se viu no cinema trabalho de tanta beleza, tanta intensidade e originalidade como este, com suas filmagens na ilha mediterrânea de Capri.

No entanto, há um detalhe a mais e que vem exposto numa sequência de abertura deste longa-metragem de 1963. Bem à sua maneira provocativa e brechtiana, Godard expõe os materiais de construção do filme. Vemos uma mulher caminhando, acompanhada da equipe técnica que a filma. Alguém segura o microfone, enquanto a câmera desliza sobre um trilho, realizando um travelling lateral. A voz do diretor vai enunciando o que virá: uma história de Moravia, interpretada por Brigitte Bardot e Michel Piccoli, fotografada por Raoul Coutard, com música de Georges Delerue, montada por Agnès Guillemot..., etc. No final do plano, as imagens mostram Coutard e sua câmera se voltando para a tela, isto é, para o olhar do espectador, quebrando a quarta parede e lembrando-o que todas as imagens a seguir se deverão ao operador de câmera e fotógrafo que ele acabou de ver em seu trabalho. É o reconhecimento de Godard da coautoria de Coutard na realização de O Desprezo.

Enfim, Coutard foi homem de importância ímpar para ao cinema mundial. Em Acossado, em especial, definiu uma técnica de câmera na mão que aproximava o filme de ficção da reportagem policial. Dizem que teria filmado desse jeito por instrução do próprio Godard, que queria dar tom “jornalístico” à sua ficção. Pode ser. Mas a verdade é que Coutard foi imposto a Godard pelo produtor de Acossado, George Beauregard, que entendia, com razão, precisar de alguém experiente na equipe do longa-metragem de estreia de um crítico talentoso dos Cahiers du Cinéma, porém com pouca experiência na “cozinha” do cinema. Coutard era esse homem e seu retrospecto já contava. Em Acossado, filmou a história de amor bandido entre Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg com a câmera na mão, nervosa e instável, como numa reportagem. Que, no entanto, contemplava inesperados momentos de lirismo.

Parisiense, nascido em 1924, Coutard estudou Química e se empregou num laboratório de revelação fotográfica. Alistado no exército, serve na Indochina, onde se exercita na fotografia das operações militares. Percorre o Camboja, o Laos e o Vietnã por conta própria. Num bar em Hanói, conhece o cineasta Pierre Schoendoerffer e, com ele, realiza o documentário La Passe du Diable em 1958. Na conta “solo”, como realizador, Coutard terá duas obras de guerra Hoa-Bihn – Um Hino de Amor à Paz (1969) e Operação Leopardo (1979), além de S.O.S. a San Salvador, de 1982.

Coutard trabalhou também com Truffaut, assumindo a direção de fotografia de filmes importantes como Jules e Jim, A Noiva Estava de Preto e Atire no Pianista, um diálogo com o cinema noir. Dirigiu a fotografia de Z, um dos mais famosos filmes do franco-grego Costa-Gavras. Contam-se mais 70 longas-metragens em seu currículo como câmera e diretor de fotografia. O último foi Inocência Selvagem, de Philippe Garrel, em 2001, suntuoso ensaio em preto e branco. Não por acaso, Garrel é considerado o maior herdeiro da nouvelle vague. Raoul Coutard surfou essa onda até o fim.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.