Os olhos de Obama na América Latina Primeira mulher a comandar a diplomacia dos EUA na região, Roberta Jacobson tem um desafio: normalizar relações com Cuba Personagem

PAULO SOTERO

PAULO SOTERO, JORNALISTA, É DIRETOR DO BRAZIL INSTITUTE DO WOODROW WILSON , INTERNATIONAL CENTER FOR SCHOLARS, , EM WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2013 | 02h07

Roberta Steinfeld Jacobson, a diplomata de carreira confirmada essa semana pelo Senado dos Estados Unidos no posto de secretária de Estado adjunta para o Hemisfério Ocidental, despertou a ira da direita no início do ano quando telefonou para Nicolás Maduro, já então designado sucessor pelo moribundo Hugo Chávez, para dizer que o governo Obama estava aberto ao diálogo com Caracas em questões relevantes para os dois países. Roger Noriega, ex-assessor do arquiconservador Jesse Helms e um dos predecessores de Roberta no cargo acusou-a de "legitimar o regime narco-autoritário" da Venezuela. Noriega esbravejou que Washington deveria impor um compromisso dos bolivarianos com a democracia como precondição para conversar com Maduro e também pediu ao Congresso que pusesse um ponto final ao intolerável gesto diplomático.

Primeira mulher a comandar a diplomacia de Washington para a região, Roberta respondeu com clareza: "Sim, estamos sempre interessados em ter uma relação produtiva com a Venezuela, a começar pelo combate aos narcóticos, e para ter uma relação produtiva é preciso conversar com as pessoas".

Algumas semanas mais tarde, em conversa com o subsecretário do Itamaraty para a América do Sul, Antonio Simões, com quem entabulara diálogo sobre a transição em Caracas, a diplomata usou de ironia para comentar declarações públicas do assessor internacional da presidente Dilma Rousseff, Marco Aurélio Garcia, sobre a aplicação das regras constitucionais que regem a sucessão presidencial na Venezuela. "Nós não vamos interpretar a Constituição da Venezuela para os venezuelanos", disse Roberta a Simões. Intuição feminina ou, simplesmente, bom senso? Roberta não sabia, mas, àquela altura, Dilma Rousseff já havia repreendido seu assessor por ingerir-se publicamente nos assuntos internos do país vizinho.

Especialista em México, Roberta serviu como vice-embaixadora no Peru, onde dirigiu a seção de planejamento político e coordenação, e foi a segunda da subsecretaria que agora comanda. No início da década de 80, antes de iniciar a carreira no departamento do Estado, trabalhou no Centro de Desenvolvimento Social e Assuntos Humanitários das Nações Unidas. É autora de artigos sobre os esforços da ONU para eliminar a discriminação contra as mulheres. Formada pela Universidade Brown, com mestrado em Direito e Diplomacia da Escola Flecther , da Universidade Tufts, é autora de um livro sobre "A Teologia da Libertação como uma Ideologia Revolucionária".

Durante o governo de George W. Bush, tempo em que o exercício da política externa americana passou ao largo da diplomacia, Roberta não escondia dos amigos sua angústia ante a crescente militarização da ação externa do país e a perda de espaço do Departamento de Estado para o Pentágono dentro do governo. Confirmada agora no cargo que já ocupava interinamente desde julho de 2011, quando Thomas Shannon foi nomeado embaixador no Brasil, Roberta chefiou a seção de assuntos cubanos, experiência que a biologia poderá tornar utilíssima nos próximos três anos e meio. É uma hipótese que, a confirmar-se, testará o talento e a paciência dessa habilidosa diplomata para lidar com a o lobby anticastrista que bloqueia há décadas a inexorável normalização das relações de Washington com Havana.

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