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Os perigos de tocar em uma orquestra para a audição dos músicos

Ex-violista da Royal Opera House entrou na justiça após sofrer perda de audição

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21 Abril 2018 | 16h00

Tocar música é uma atividade arriscada. Pergunte a qualquer violista. Os quartetos são próximos de uma sessão de sopros em máxima potência que pode aumentar muitos decibéis com uma parede de amplificadores Marshall. Não é surpresa, portanto, que um em cada quatro intérpretes de música clássica sofre de perda de audição permanente.

O problema do ruído não é novo. Muitos dos instrumentos de orquestra atuais foram projetados para serem ouvidos ao ar livre, sejam trompetes (militares) trompas (de caça) ou oboés (pastores barulhentos). Foram várias décadas de aperfeiçoamento até serem considerados polidos o bastante para se juntarem à orquestra em ambientes fechados, o que ocorreu no século 18. No final do século 19, o calibre dos tubos e as campanas eram maiores, os músicos eram melhores e com as válvulas os sopros alcançavam todo um arco-íris de tonalidades e cores. 

O que difere no século 21 é o que tem sido feito com isso. As grandes orquestras fornecem a todos os músicos tampões de orelha sob medida, criam vários tipos de proteção acústica para os executantes sentados na frente de instrumentos particularmente agudos, organizam testes de audição anuais e usam decibelímetros para checar se os níveis de ruído estão de acordo com as leis trabalhistas.

Mas os músicos regularmente removem os tampões de ouvido para ouvir melhor seus colegas. Alguns relutam em fazer testes de audição por temor de perder o emprego, e muitos rejeitam as proteções porque elas mudam o som ou prejudicam o campo de visão. Até o mês passado, as orquestras não eram responsáveis por problemas de saúde dos músicos quando eles rejeitam usar equipamento de proteção. Mas isto está mudando.

Em 2017, Chris Goldscheider, antigo violista da Royal Opera House ROH), em Londres, impetrou uma ação contra seu empregador alegando que os danos permanentes à sua audição foram causados diretamente por dois ensaios da ópera de Wagner, Cavalgada das Valquírias, em 2012. Não havia nenhuma razão para duvidar da alegação do músico de que o ruído à sua volta atingira 137 decibéis. Pesquisa feita pela Sound Advice, grupo de trabalho britânico que assessora o setor de entretenimento, chegou à conclusão de que um solo de trompete alcança em média 98 decibéis e chega a 113, a três metros de distância. Como referência, o limiar da dor é 125 decibéis. No fosso de uma ópera o espaço é exíguo, o teto é baixo e quando uma ópera de Wagner atinge momentos agitados, a rua inteira sabe.

A juíza Nicola Davies, respondendo às alegações do músico, afirmou que a lei “não faz nenhuma distinção entre uma fábrica e uma casa de ópera”. No geral, a comparação é certa. Muitos músicos diriam que trabalham numa linha de produção de grandes sucessos. Mas no que diz respeito ao ruído, é diferente. Como argumentou A Royal Opera House, em sua defesa, “o ruído não é um subproduto das nossas atividades, é o próprio produto”.

Talvez achando que venceria facilmente a ação, a ROH baseou sua defesa no seu dever de manter os padrões de uma casa de espetáculos de classe mundial. Os músicos usam a mesma justificativa para não usar a proteção de ouvido. A juíza rejeitou o argumento como também escreveu que “o desejo de manter padrões artísticos os mais elevados e manter sua reputação, embora louvável, não pode comprometer os critérios de assistência que a casa de ópera, como empregador, tem de atender para proteger a saúde e a segurança dos seus funcionários, quando estiverem trabalhando”. E afirmou que a ROH deveria ter obrigado os músicos a usarem os tampões de ouvido e marcado a área em torno do ruído como Zona de Proteção Auditiva.

É difícil saber que outras medidas devem ser adotadas. Nas fábricas modernas os trabalhadores recebem uma reprimenda dos supervisores e colegas quando pegos sem o equipamento de proteção exigido. Se existia uma proteção de ouvido adequada, a administração da orquestra deveria agir da mesma maneira. Mas a proteção auditiva para orquestras ainda é uma tecnologia em desenvolvimento.

Tampões que bloqueiam o ruído somente quando está alto demais existem e são ótimos para os praticantes de tiro. A juíza Davies opinou que a ROH deveria fornecer monitores que se encaixam dentro do ouvido como os usados pelos cantores pop. (Uma solução confusa uma vez que exigiria equipamentos de gravação num espaço já apertado e o som ao vivo teria de ser mixado especialmente para cada estante. Mariah Carey, Adele e inúmeros outros artistas conhecem muito bem os perigos de uma falha inoportuna do sistema).

Tudo isso à parte, os músicos que tocam instrumentos de sopro e de metal com frequência têm uma oclusão auditiva quando usam os tampões porque seus instrumentos produzem vibrações no seu crânio.

E quanto ao público? Nas primeiras filas a imersão sônica total é o objetivo. A combinação das sensações físicas e emoções, que uma grande orquestra produz, é algo quase inigualável. As orquestras poderiam tocar mais baixo e em muitos casos deveriam, mas a perda de audição é um risco previsível e inevitável da vida de um músico.

O ROH pode ainda recorrer da decisão e os pagamentos de indenização ainda não foram determinado. Nesse ínterim, agora poderia ser uma boa ocasião para investir em ações de tecnologia auditiva. / Tradução de Terezinha Martino

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