Os piores pesadelos

McCain promete ser o sonho mau do Hamas e de Cuba. Por que não faria a insensatez de atacar o Irã?

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2008 | 22h48

Amanhã os americanos festejam o Memorial Day. Instituído há 140 anos, em honra aos soldados mortos na Guerra Civil (1861-1865), acabou virando uma solenidade patrioteira a serviço de todas as guerras em que os EUA se meteram nas últimas 11 décadas. Seguindo a tradição, o presidente Bush irá ao cemitério nacional de Arlington depositar flores no túmulo do Soldado Desconhecido e louvar "os homens que deram suas vidas pelo país e pela democracia". Respeitando o momento, ninguém ousará perguntar quantas daquelas vidas foram realmente dadas ou compulsoriamente sacrificadas, de maneira estúpida e descuidada, na guerra do Iraque. O Memorial Day já se chamou Decoration Day. Pelo andar dos tanques, ainda será rebatizado de Depression Day. Em cinco anos, uma invasão arquitetada a partir de uma mentira e com duração prevista de algumas semanas já causou a morte de milhares de soldados americanos, ferimentos em outros 30 mil combatentes, e uma média de 65 óbitos diários entre os civis iraquianos. Sem fim à vista, conseguiu transformar Bagdá num inferno pior que o mantido a ferro e fogo pelo finado Saddam Hussein. Nenhum dos três postulantes à sucessão de Bush sabe exatamente quando e como sair de lá. Só porque já visitou o Iraque oito vezes, John McCain pensa que sabe. Por ele, as tropas americanas se retiram do Iraque em 2013. Detalhe: vitoriosas. Seus assessores ainda não divulgaram se o veterano da guerra do Vietnã pretende comemorar o triunfo no Iraque caminhando sobre as águas do Tigre ou do Eufrates ou se deixará para fazê-lo no Golfo Pérsico, depois de arrancar Osama bin Laden pela barba de uma caverna afegã.A guerra sempre foi e continua sendo um malogro de proporções épicas. Com brutais repercussões na terra de quem a provocou. Ou melhor, provocou-as; porque, na realidade, são duas guerras: a do Iraque e a do Afeganistão. Juntas, já produziram 655 mil mortos e feridos; mais 620 mil com problemas psicológicos e sérias avarias no cérebro. Os dados são de um estudo de 500 páginas, divulgado em abril pela (no caso, insuspeita) Rand Corporation. Segundo a pesquisa, 18,5% dos que estiveram nos dois conflitos, como soldados ou intendentes, sofrem de depressão e stress pós-traumático, e 19% padecem de algum tipo de lesão cerebral. Levam uma vida desgraçada e sem perspectiva, atormentados por dores físicas e mazelas psicológicas, insônias, pesadelos, surtos de apatia, irritação e fúria. Efeito colateral: cerca de mil tentativas de suicídio por mês. Terapia infalível não há. Na revista The New Yorker desta semana, Sue Halpern dá detalhes de uma opção psicoterápica, aparentemente promissora, que atualiza as experiências cognitivo-behavioristas de Pavlov com os avanços da simulação computadorizada (leia-se realidade virtual). Imerso numa versão modificada do videogame Full Spectrum Warrior, que simula a guerra no Iraque, o paciente trabalha aos poucos os traumas que os combates reais lhe deixaram. E ainda pensam numa guerra contra o Irã. Tamanha insensatez não passa pelas cabeças de Barack Obama e Billary (perdão, Hillary) Clinton, mas pela de Bush III (ou melhor, John McCain), passa. Como também faz parte dos devaneios das corporações (Blackwater, Halliburton, etc.) que grandes bocas arrumaram graças às duas guerras, impondo um rombo de bilhões de dólares aos contribuintes americanos, conforme apurou uma auditoria do Pentágono nas despesas do Exército americano, divulgada na quinta-feira. Isso só fará aumentar o interesse em torno do filme de John Cusack War, Inc., que no dia seguinte estreou em Nova York e Los Angeles. Cusack, obsessivo monitor da dominação corporativa da máquina de guerra americana, retrata a loucura da invasão do Iraque por meio da ação das 630 empresas que faturam 40% dos mais de US$ 2 bilhões que Washington gasta por semana com a ocupação. Se for, como dizem, uma mistura de Dr. Fantástico com Laranja Mecânica e O Mágico de Oz, para alguma boa causa, além de acelerar o desprestígio de Bush, a guerra terá servido. Incorrigível, Bush passou três dias no Oriente Médio, na semana passada, tentando remediar às pressas os erros que cometeu ao longo de sete anos, quando só teve olhos para os monarcas da Arábia Saudita, aos quais voltou a pedir que aumentassem a produção de petróleo. Um editorial do New York Times qualificou a viagem de inútil. Totalmente inútil, não foi. Ao repelir, mais uma vez, qualquer diálogo com os países que apóiam os militantes do Hamas e o Hezbollah, Bush desqualificou aqueles que propõem uma conversa com o Irã e a Síria, velada pichação em Obama, supostamente útil à campanha de McCain, que aproveita qualquer circunstância e qualquer microfone para caracterizar Obama como um político não só inexperiente em política externa como ingênuo no trato com países indignos da confiança dos americanos. Nessas horas, a palavra-chave é appeasement, que significa conciliação, apaziguamento. Se proposta por um democrata, é sinal de fraqueza diante do inimigo; se proposta por um republicano, é um ato de coragem, um gesto de estadista. Na falta de melhor picuinha, McCain e os que o apóiam encanaram na predisposição de Obama de procurar alguma forma de entendimento com Irã, Síria, Coréia do Norte e Cuba. No dia 9, McCain voltou a afirmar que seu presuntivo adversário democrata era o candidato favorito dos palestinos do Hamas. Ora, entre Obama e um esquentado veterano de guerra que já ameaçou expulsar a Rússia do Grupo dos Oito e prometeu ser "o pior pesadelo" do Hamas, o conselheiro político da organização, Ahmed Yousef, tinha mais era que torcer pelo democrata.Implícita na aleivosia de McCain a suposição de que o senador por Illinois, se eleito presidente, trataria o Irã com chá e simpatia. Inúmeras vezes Obama reconheceu o Hamas como uma organização terrorista, e nunca defendeu negociações imediatas, diretas e incondicionais com Mahmud Ahmadinejad, o balandrão presidente iraniano - até porque sabe, ao contrário de McCain e alguns analistas conservadores, que quem discute assuntos militares, diplomáticos e nucleares no Irã é o aiatolá Ali Khamenei. E se fosse Ahmadinejad, qual o problema? Quantos países estrangeiros ele já bombardeou e quantos civis matou? Se minimamente coerente, McCain nem sequer cumprimentaria Bush, nem pediria conselhos a Henry Kissinger, notório criminoso de guerra, como fez em dezembro de 2007. Esquecido de que na campanha de 2000 defendera a suspensão do embargo a Cuba, mesmo com Fidel no poder, McCain aproveitou os festejos da independência cubana, terça-feira passada, para se retratar. Agora que as coisas parecem estar mudando em Cuba, a tal ponto que o próprio Bush prometeu liberar o envio de celulares americanos para Havana, McCain mudou de posição. É contra qualquer appeasement com Raúl Castro. Também quer ser o pior pesadelo de Cuba. Só para se distinguir ainda mais de Obama. Como se isso fosse necessário. SEXTA, 23 DE MAIOEmbargo fica, diz ObamaO senador Barack Obama prometeu a anticastristas da Flórida que, se for eleito presidente, liberará viagens de cubanos para visitar parentes em Cuba. Manterá, no entanto, o embargo econômico que os EUA impõem à ilha há quatro décadas.{TEXT}

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