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Os que morrem pela boca

É tanto disse que disse que uma palavra torta ou fisgada fora do contexto acaba valendo, perigosamente, mais que mil imagens

Sírio Possenti, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2009 | 00h09

Muitos de nós fomos levados a pensar que são livros, ou pelo menos, textos completos, de argumentação sutil, que influenciam o pensamento e o comportamento das sociedades. Isso até pode acontecer com algumas pessoas, poucas, na verdade. Mas a maioria é conduzida, seja em relação aos fatos, seja em relação aos princípios - morais, políticos, filosóficos - por conjuntos de enunciados relativamente breves. Conhecemos bem os provérbios e seu papel na vida "das nações", e não se pode desprezar a função educativa dos versos lapidares e as conclusões moralizantes dos mitos ou das fábulas. Sem contar os aforismos e os slogans. Muita gente votou levada por um I like Ike ou por um Lula-lá, que, espremidos, resultam em quase nada. Ler Marx e Engels pode ser relevante, mas quanta gente nem sabe quem eles são e acredita piamente (!) que a religião é o ópio do povo?

Cada vez parece mais verdadeiro que os políticos conduzem nações por meio de seus pronunciamentos, proferidos em horários que permitam que sejam notícias nos jornais da noite e manchetes nos outros jornais, no dia seguinte. De fato, são menos esses pronunciamentos que produzem efeitos do que algumas frases estrategicamente distribuídas, em mais de um sentido. Eles sabem que são essas que merecerão destaque e, em decorrência disso ou por artes de outras formas de circulação, serão comentadas nos botecos e nas esquinas. Somente elas serão esquadrinhadas, julgadas verdadeiras ou falsas, dignas ou não de crédito, de chacota ou de elogio.

A mídia colabora com essa estratégia de "leitura". A manchete, a linha fina, o "olho", as frases do dia ou da semana (e até mesmo do ano ou da década), tudo funciona como grandes resumos de épocas, caracterização de personalidades, dicas de comportamento.

Claro, isso não acontece só com a política e suas personagens. O método também divulga o mundo artístico e o esportivo. As revistas ou páginas sobre "people" operam da mesma forma, e assim ficamos sabendo por que se casa ou descasa, por que se bebe ou não, consomem-se ou não se consomem drogas, fazem-se ou não se fazem plásticas, organizam-se assim ou assado os grandes times - comportamentos nos quais as declarações dos astros têm papel mais ou menos relevante. E não escapam a essa maquinaria discursiva os dirigentes esportivos e as torcidas organizadas.

A que se deve tal procedimento? Nossa memória é curta? Gostamos de pronunciamentos agudos, que vão direto ao ponto, sem muita "enrolação"? Grandes temas podem mesmo ser simplificados, postos em fórmulas?

Quaisquer que sejam as razões, é fato que frases funcionam como guias de uma sociedade, resumem ou parecem dizer grandes verdades, nas mais diversas direções. É que as sociedades (as livres) são suficientemente heterogêneas, e também, por consequência, as personalidades, para que as frases que nos falam e das quais falamos possam ser relativas a temas os mais diversos. Acrescente-se a crise da razão, o multiculturalismo, os diversos relativismos, os fatos escandalosos, as reviravoltas da política, da novela ou do campeonato e então podemos compreender por que é que estão na lista de frases do dia "não disputarei mais nenhuma eleição" (governador Arruda), "não posso ser refém de nada. Nem do rap" (Mano Brown) e "a revista não encalhou. Ligaram da Playboy me parabenizando" (Fernanda Young).

Essas frases que poderiam, em tempos menos velozes, fazer o infortúnio de seus autores, sempre circulam destacadas de seus contextos. Um bom exemplo foi a famosa (por dois dias) frase de Lula sobre as imagens do último grande escândalo: "As imagens não falam por si". Cortou-se o complemento, por uma ou por outra razão, ou sem razão aparente alguma: "O que fala por si é todo um processo de investigação, apuração. E quem vai fazer juízo final é a Justiça".

Ora, isso é quase um pronunciamento! Então, ponha-se em circulação a frase curta e penetrante, o que depende em boa medida de a frase se opor a outra, também breve e com ares de verdade, quase uma doutrina: "Uma imagem vale por mil palavras". A frase de Lula expõe sua posição em relação a um fato escandaloso. Seu autor morreria pela boca, se nossa memória não fosse atulhada dia após dia por outras frases de relevo igual ou semelhante. Ou se todos se escandalizassem com aquelas imagens.

Deveríamos esperar efeitos concretos de "estou me lixando para a opinião pública"? Eles deveriam ser nocivos para a carreira do deputado que a proferiu no interior de uma polêmica, confrontando jornais e cidadãos? Mas quem ainda se lembra dela? Voltará na próxima campanha? Será lida como pecha em sua carreira ou como sinal de valentia?

E o que dizer de "vamo matá os bambi"?, repetida como grito de guerra, com o gestual compatível, em aparente contradição com tudo o que se viu e ouviu do até então gentleman Luiz Gonzaga Belluzzo? Mas quem ainda se lembra da imagem, exceto os tarados do YouTube e alguns fanáticos torcedores?

Políticos e outras personalidades expõem sua vida pública falando. De sua fala, recortam-se as frases que podem torná-los gigantes ou pessoas comuns, humanas, demasiadamente humanas. Tirar o povo da merda em que ele se encontra funcionará como estigma de um presidente pouco afeito à liturgia do cargo, como expressão de uma vontade política a ser valorizada (especialmente por quem está nela) ou será mais uma frase esquecida, folclore no futuro, como "prefiro cheiro de cavalo"?

Sírio Possenti, Professor do Departamento de Linguística/Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp

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