The New York Times
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'Os Rapazes da Banda' na Broadway meio século depois

Peça, que estreou na off-Broadway e foi filmada por William Friedkin, mostra como era a vida gay em 1968

Stuart Emmrich/The New York Times, O Estado de S. Paulo

11 Agosto 2018 | 16h00

A antológica peça de Mart Crowley, Os Rapazes da Banda, estreou em 1968, numa produção off-Brodway que teve 1.001 apresentações. Em 1970 virou filme, dirigido por William Friedkin. Mas só 50 anos depois chega à Broadway – numa produção estelar dirigida por Joe Mantello que tem no elenco, entre outros, Jim Parsons, Matt Bomer, Zachary Quinto e Andrew Rannells.

Com base numa amostragem aleatória de público, pode-se dizer que a reedição parece atrair uma plateia predominantemente masculina, parte da qual se lembra bem da produção original ou do filme que se seguiu a ela. Mas há também um público mais jovem, nascido décadas após a era de repressão e perseguição mostrada por Mart Crowley no palco. 

Nesse último grupo estão Zachary Woolfe, de 33 anos, editor de música clássica do New York Times, e Matthew Scheiner, de 34, repórter e crítico da seção Estilo do NYT. Ambos viram pela primeira vez a peça em julho.

Como gays frequentadores de teatro, que já viram produções que vão de Hedwig and the Angry Inch e Fun Home à recente vencedora do Tony, Angels in America, qual foi a reação deles à primeira grande produção em que um elenco totalmente gay faz os personagens de Crowley que participam da famosa festa de aniversário na peça, cheia de confissões e não exatamente alegre?

Além de Schneier e Woolfe, participou da discussão sobre a peça Wesley Morris, de 42 anos, crítico de assuntos gerais do New York Times. Morris viu o filme nascido da peça quando ainda era adolescente e trabalhava num cinema de arte de Filadélfia, numa época de boom de filmes gays independentes. “Definitivamente, me pareceu mais triste que gay”, disse ele. 

O debate foi moderado por Stuart Emmrich, de 63 anos, que conhece o filme e viu uma remontagem anterior da peça. Segue-se uma versão editada da conversa.

Stuart Emmrich: Então, Matthew e Zack, esta é a primeira vez que vocês veem Os Rapazes da Banda em qualquer de suas versões – Broadway, off-Broadway, teatro regional ou filme. Em todos esses anos, nunca ficaram curiosos e pensaram “poxa, tenho de ver isso”?

Matthew Schneier: Vi muito teatro e filmes gays, mas, por alguma razão, Os Rapazes para mim era só uma referência histórica. Recentemente, mandei mensagem a um grupo de amigos gays para saber se eu estava sozinho em minha ignorância. Nenhum deles havia visto o filme ou a peça.

Zachary Woolfe: Estava dizendo a Matthew que sempre confundi Os Rapazes da Banda com Os Meninos do Brasil... Assim, ver a peça, ler o roteiro e assistir recentemente ao filme foi uma imersão atrasada e intrigante. Sabia vagamente que era sobre gays. No entanto, embora nunca tenha me afastado muito da cultura gay – sou crítico de ópera e, quando pré-adolescente, gostava de fazer para meus pais os monólogos de Norma Desmond em Crepúsculo dos DeusesOs Rapazes para mim era um ponto cego. E, já que estamos desnudando nossas almas ignorantes, também nunca vi Amigas para Sempre. Ao me preparar para esta conversa, percebi que eu nunca havia realmente procurado produções de temática gay em teatro, cinema ou TV, talvez por meus próprios problemas ou por vergonha. Buscava mais distanciamento que identificação, e, certamente, celebração. Pode ser porque, quando eu estava crescendo, o universo gay, pelo menos para mim, estava fundamentalmente relacionado à aids. Em minha adolescência, eu não conseguia desvincular meu senso de homossexualidade do espectro da epidemia. Isso voltou quando eu estava assistindo a Os Rapazes, escrita mais de uma década antes dos primeiros diagnósticos de aids. Logo no começo da peça, quando alguém diz que fulano havia cancelado um compromisso por causa “de um vírus ou algo assim”, senti uma ponta de medo. 

Schneier: Foi quase um choque ver uma peça anterior à epidemia de aids, lançada em uma época que não teve de lidar com a doença. Quando os personagens ficam tirando sarro sobre frequentar demais saunas gays, pensei comigo: “Epa! Sei onde isso vai dar”. Fico imaginando se a necessidade de se enfrentar a epidemia de aids não tenha ajudado de algum modo a mobilizar e transformar parte do ódio implícito em Os Rapazes em algo mais positivo.

Wesley Morris: Estava curioso para ver Os Rapazes das Banda no contexto de seus derivados na cultura gay. Estamos hoje mergulhados no retorno do retorno do passado gay: esta peça; a eletrizante minissérie Angels in America; o revival do ano passado do musical Falsettos; a série Pose, do canal FX, ambientada na ball scene do fim dos anos 1980; Torch Song Trilogy; o retorno de Buddies, de Arthur J. Bressan Jr., de 1985, primeiro filme a lidar com a epidemia de aids; e a série Will & Grace, seja ela o que for. Há também a nostálgica Love, Simon, uma desastrada comédia romântica apenas nominalmente ambientada no século 21. São trabalhos muito diferentes, mas, olhando-os em conjunto, fico imaginando se estamos procurando respostas no passado ou nos maravilhando com ele, se estamos nos escondendo do presente ou repaginando-o. 

Woolfe: Acho que Mattew tem razão ao dizer que a peça exalta a autoaversão. A extravagância e explicitude do auto-ódio exibido aproxima esse sentimento do autoamor. De certo modo, a peça é uma fantasia utópica de um mundinho totalmente gay (a inserção de um aterrorizado não gay, mas provavelmente enrustido, é a exceção que comprova a regra) no momento em que ele se funde violentamente à corrente dominante. Não achei a peça assim tão amarga – e, considerando-se que se passa na era pré-aids, ela até me pareceu ter uma mensagem algo positiva, mas também algo dolorosa: não há como não lembrar que todos esses personagens estarão mortos em 20 anos. 

Schneier: Aqui eu discordo. Acho que os personagens amam a própria eloquência – eles dialogam como se travassem uma batalha de egos –, mas a toxicidade em torno é muito real. E senti que estavam ansiosos para sair o mais depressa possível daquele apartamento-purgatório . A peça traz o consolo de que aquelas almas feridas têm umas às outras e se relacionam de tal modo romântico e platônico que nos vemos compelidos a compreendê-las e nos solidarizar com elas. Mesmo os viperinos melhores amigos Michael e Harold se entendem: “Te ligo amanhã”, diz Harold ao sair, e você sabe que ele vai ligar. Fica, porém, no ar um misto de amor e punição. Com amigos assim... 

Emmerich: Não me parece que as pessoas no palco sejam realmente amigas umas das outras. Certamente não me lembram das amizades que fiz quando cheguei a Nova York, aquele relacionamento quase familiar que os gays criam quando se mudam para uma cidade nova e deixam as verdadeiras famílias para trás.

Woolfe: Continuo achando que toda essa suposta toxicidade da peça é apenas som e fúria sem nenhum significado e acaba soando... como amor. Não são as provocações e intrigas que afastam os personagens uns dos outros: na verdade, elas os unem! Aquele “te ligo amanhã” de Harold é minha parte favorita. Família é assim. 

Emmerich: Incomoda vocês que todo o elenco da peça seja de atores “fora do armário”? Os produtores Ryan Murphy e David Stone consideraram isso imperativo, mas certamente não era uma opção em 1968. 

Woolfe: Não ligo. Sou totalmente contra a obrigatoriedade de somente gays fazerem papéis de gays. 

Schneier: Sou a favor de se escalar atores gays para papéis de gays, mas acho que tornar isso obrigatório é um caminho extremamente perigoso. Tenho medo de que exclua esses atores da disputa por papéis não gays, que são 95% dos papéis.

Emmrich: Uma das pessoas com as quais assisti à peça está na faixa dos 60 anos e nos disse, no jantar que se seguiu, que havia visto o filme quando tinha 16, 17 anos – com a mãe! – e saiu assustado. Ele contou que, embora na época já soubesse que era gay, ainda não havia contado a ninguém (com certeza, não à mãe. “Eu tinha então medo de sair do armário e o filme não ajudou em nada” disse ele. Estou curioso em saber se alguém, tendo visto a peça muito jovem, imaginou o que estava por vir. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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