Os Reis Magos

Os Reis Magos

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

27 Dezembro 2014 | 16h00

:::MUNDO REAL::: Esta ficção foi baseada nos seguintes fatos de 2014:  Em 21/12, a Coreia do Norte ameaçou atacar os EUA devido à acusação de ter ela bancado um ataque cibernético à Sony por causa do filme ‘A Entrevista’, que traz um complô para matar Kim Jong-un.

No primeiro dia, quando Washington desconectou Pyongyang, ninguém se abalou. A Coreia do Norte é um país atrasado. Somente 1.500 dos 23 milhões de norte-coreanos possuem internet. Esses 1.500 vão se irritar? E daí? Uma pulga pode espirrar quanto quiser que o tigre não dará a mínima.

Os bares de São Francisco caíram na risada. Algumas horas depois, Kim Jong-un replicou e os Estados Unidos pararam de rir. Estado após Estado, os EUA inteiros foram desconectados. E depois a Europa, e depois a Ásia. As Ilhas Futuna e a Mongólia Exterior se calaram. Burkina Fasso também. Por toda parte, a “rede” se apagou como se apagam as lanternas após a festa. O silêncio, as trevas e o terror envolveram o planeta.

Os americanos prontamente reagiram. Do Pentágono ao Capitólio, nas agências tenebrosas da CIA, preparou-se uma resposta à loucura de Pyongyang. O formidável mecanismo americano se pôs em marcha.

Por todos os EUA as reuniões se sucederam, todas sob máximo sigilo: “Mega-hiper-top secret!”. Aqui e ali, por excesso de zelo, perderam-se alguns minutos. Eles foram procurados, mas não foram encontrados.

No Salão Oval da Casa Branca, um conselho de guerra foi presidido por Barack Obama - por prudência, apenas com a presença dele mesmo. O que se decidiu nessa reunião foi protegido por um segredo tão grande, tão denso e tão militar que o próprio Obama não pôde saber o que ele havia decidido. Foi preciso recorrer a procedimentos sutis para Obama conhecer enfim, graças a redes de descontaminação criptografadas, a tática que havia escolhido.

A Coreia do Norte não permaneceu inerte. O presidente Kim Jong-un convocou generais e suas condecorações, pôs um boné achatado na vasta cabeça e reagiu. Colérico, Kim foi atingido por um mal que os serviços da CIA já haviam assinalado em várias ocasiões, em particular depois que ele assassinou, há alguns anos, com o coração apertado, sua amante adorada, Hyon Song-wol, e seu tio querido, o general Chang Song-taek. Quando ocorreu a pane na internet, a doença voltou: o líder norte-coreano começou a mancar das duas pernas ao mesmo tempo. Essa doença é perigosa porque desafia a medicina: como saber qual perna é mais curta que a outra, se as duas mancam?

Obama anunciou suas decisões. Por um instante, pensou em sepultar a Coreia do Norte sob uma bomba atômica. Três objeções o retiveram à beira da desgraça: em primeiro lugar, Kim Jong-un também possui a bomba. Em segundo, Obama temia que seus aliados asiáticos ficassem com medo de desaparecer na explosão. E, por último, o presidente francês, François Hollande não ficaria contente. Assim, Obama escolheu uma resposta convencional.

A Península da Coreia é cortada por uma fronteira ao longo do Paralelo 38, à altura de Kaesong, uma zona de 249 quilômetros de comprimento por 4 de largura. Nessa faixa de terra, desde o tratado de paz que pôs fim à Guerra da Coreia, em julho de 1953, nenhum ser humano, exceto alguns sábios muito delicados, pôs os pés. Só residem ali plantas, insetos, répteis, mamíferos e pássaros.

E eles se aproveitaram disso: em 60 anos, na ausência dos homens, as florestas fizeram a festa no Paralelo 38. Essa terra abandonada tornou-se a mais bela região do mundo. As borboletas, os ventos, o céu perolado, a chuva, os raios do sol nascente e as belas tristezas do sol poente, tudo isso compõe um paraíso terrestre.

O Éden conheceu muitas desventuras desde que Adão e Eva foram expulsos, há 4 bilhões de anos, depois de uma pequena travessura. Depois, ninguém sabia que fim levara aquele paraíso. Pois eis que ele enfim reabriu suas portas em 2014: é a linha do Paralelo 38. Essa foi a curiosa consequência da batalha cibernética entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos.

Na quarta-feira, 24 de dezembro, 1 milhão de soldados norte-coreanos transpuseram a fronteira da ZDC (zona desmilitarizada da Coreia) enquanto cruzavam essa mesma fronteira, vindos do sul, 500 mil soldados sul-coreanos e 50 mil soldados americanos.

Todos ficaram encantados. Em vez de se matarem, eles encheram o ar com milhões de fogos de artifício. O teólogo Yézidi Abarawtha notou que as bolas de fogo iluminavam a escuridão do céu como havia brilhado sobre a manjedoura em Belém no ano zero, no Natal, a estrela dos Reis Magos. Não foi por acaso. Neste 24 de dezembro de 2014, os homens reentravam no paraíso terrestre.

Norte-coreanos, sul-coreanos e soldados americanos ficaram pasmos com a beleza das coisas. Descobriram as flores luxuriantes da ZDC, milhões de pinheiros da Ásia, de ginkgo bilobas, a “árvore dos 40 escudos”. Viram lontras em águas do começo do mundo, linces da Eurásia, grous de cabeça branca e outros de coroas vermelhas, tigres da Mandchúria, gamos mosqueados cuja glândula odorífera é cinco vezes mais valiosa que o ouro.

Alguns soldados viram animais desaparecidos há séculos: unicórnios da Idade Média, dodôs das Ilhas Maurício, amazonas com apenas um seio que não eram vistas no Brasil desde 1650, sereias, criaturas que dormem à noite envolvidas em suas grandes orelhas.

Tanta beleza desconcertou os milhões de soldados inimigos. Eles se amaram em vez de se matar. Os generais fecharam os olhos. Eles se disseram que os paraísos terrestres são ótimos, mas voláteis e fantásticos. Por um nada, escapam por entre os dedos. Então, agora que um deles havia sido encontrado, não era o caso de fazer exigências. Tudo está bem quando acaba bem. Naquela noite brilhou a estrela dos Reis Magos, não os clarões funestos da bomba atômica.

Apesar de tudo, e enquanto se respirava o perfume das flores de ginkgo, os líderes da Coreia do Norte e o dos Estados Unidos decidiram não jogar no lixo seus estoques de bombas nucleares. “Nunca se sabe.”, disseram. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

NASCIDO EM DIGNE-LES-BAINS, NA FRANÇA, É COLUNISTA DO ESTADO E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE LES PIRATES (PHEBUS) E DICIONÁRIO DOS APAIXONADOS PELO BRASIL (MANOLE) 

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