Os sans-culottes de uma Paris imaginária

Jovens sem perspectiva são os novos descamisados

José de Souza Martins*, Versão Impressa

17 de julho de 2007 | 17h01

Na recente ocupação da reitoria da USP, numa pichação há esta proclamação inaugural: "Ocupe a reitoria que há dentro de você". Um convite à insurgência contra a força de ocupação que, em nome do poder das instituições, se apossa da vontade de todos e de cada um. Um convite a mandar em vez de ser mandado, no lugar do convite a superar os que nos subjugam. Ocupar a reitoria que cada um tem dentro de si anunciava o ímpeto de derrubar a autoridade internalizada, em nome de um novo e vago poder. A autoridade foi simbolizada no governador e mais ainda na reitora, personificação inevitável do poder da instituição que é a reitoria. Mas não no pai, referência primeira e fundamental dessas revoltas voltadas para o interior de cada um, na sofrida passagem da condição de adolescente para a de adulto. Ao contrário, os ocupantes se duplicaram entre a reitoria da desordem insurgente e a residência paterna da ordem prevalecente, entre o onírico e o real, entre a transgressão e a obediência. Ocupação em tempo parcial, revezavam-se entre a reitoria e o lar. Mundos compartimentados da cultura pós-moderna da internet e da sociedade virtual, que se manipula com um clique no mouse. Uma coisa nada tem a ver com a outra. Muda-se de link e de mundo. Na disciplina interna de aparente ordem e de limpeza domésticas, houve até mesmo certificação materna para que dúvida não houvesse sobre o que os movia. São os filhos da geração derrotada pela ditadura na insurgência estudantil de 1968, particularmente na USP e na Faculdade de Filosofia, sobre-representada na ocupação de agora. Vieram para cobrar, em nome do pai, o débito da revolução inconclusa da geração paterna. O parêntese universitário canalizou para a reitoria ocupada os débitos históricos e políticos na palavra dos que se sonham revolucionários de outrora, ansiosos por encontrarem no movimento estudantil minoritário os pedaços de si mesmos e da sociedade inteira, que foram ficando para trás nos caminhos da história. A reitoria ocupada se transformou num mosaico ideológico. Desde o petismo, derrotado pelo lulismo que o marginaliza a cada dia, até representantes de universidades particulares, signatários de manifestos de apoio aos acampados, que não se conformam com a enorme diferença representada pela USP no panorama das universidades brasileiras.Com diferentes motivos, professores saíram em busca dos nexos históricos que pudessem dar sentido e legitimidade à rebeldia mais do que compreensível, carente do apoio da imensa maioria dos estudantes e professores da USP. Uns os encontraram nos indícios que religavam os acontecimentos da reitoria à Paris de 1968, o Butantã das cobras imaginado como uma Paris tropical. Ou, na Faculdade de Filosofia, houve quem fizesse emocionada defesa das barricadas da Reitoria, verdadeira Comuna de uma Paris imaginária das margens do rio Pinheiros, o Sena da periferia. Ou quem elevasse os jovens insurgentes à condição de sans-culottes dos trópicos, a Revolução Francesa, finalmente, chegando até nós. Houve, ainda, entre os acampados, a ressurreição de Luther Blisset, figura imaginária da chamada guerrilha psíquica, que na Europa rica dos anos 90 reunia sob esse pseudônimo os transgressores e os socialmente inconformados, dando força aparente a solitários inconformismos. Muito do que temos aqui nos chega um pouco tarde. E muito do que somos é ficção. É essa a nossa pós-modernidade, a de uma sociedade em que a originalidade e a criação se perdem nas armadilhas da cópia e da colagem, da história como farsa.O sociólogo e filósofo Henri Lefebvre, que foi um dos ideólogos da revolta estudantil de 1968, em Paris, e um de seus mais lúcidos teóricos, distingue a imaginação do imaginário. Os movimentos sociais reiterativos e repetitivos, os da cópia e da colagem, são aqueles informados pelo imaginário, manipulável e reprodutível. Os verdadeiros movimentos, socialmente transformadores, são aqueles conduzidos pela imaginação e pela inventividade histórica e social, prenhes de originalidade, coisa de gente que conhece a sociedade em que vive. Talvez tenha razão quem disse que os ocupantes da reitoria são os novos sans-culottes. Não porque sejam revolucionários, mas porque os jovens são os novos pobres da sociedade. Pobres de esperança e de imaginação, cerceados pela condição que lhes abriu o privilegiado caminho da universidade e lhes fechou o da experiência social desafiadora, da práxis social que interroga e transforma. Na reitoria deram uma eloqüente demonstração da passiva domesticidade que cerca os heróis da sociedade de consumo. Mandaram buscar na cozinha do Crusp uma cozinheira para que lhes preparasse as refeições, a empregada sem a qual não podiam sobreviver. Reproduziram a vida doméstica repetitiva dos que nasceram e vivem para ser servidos. Um dos recados enviados aos professores, pela internet, nos endereços capturados na reitoria, foi o de que o piquete na porta de cada sala de aula seria retirado se o respectivo professor aceitasse dar cursos sobre os temas da cultura da greve, o professor convertido em serviçal da minoria de alunos.Os estudantes sabem que o que a sociedade brasileira tem a oferecer-lhes é, no geral, menos do que o que foi oferecido a seus pais. Isso se estende a um grande número de jovens, sobretudo fora da universidade. Expressam-se na revolta sem causa e até na violência destrutiva, como vimos nesses dias na gratuita violência de bem-nascidos estudantes universitários contra uma trabalhadora, uma indefesa empregada doméstica no Rio de Janeiro. Ou no assassinato violento e cruel do índio pataxó Galdino, em Brasília, queimado vivo por jovens da mesma estirpe. Numa sociedade em que já não há perspectiva de conquistar facilmente posições sociais, procuram reafirmar as diferenças sociais, e não anulá-las e superá-las. Nesses vários casos, a mensagem é clara: a sociedade tem que saber quem manda e quem obedece.

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