Arianna Dominguez
Arianna Dominguez

Os truques que intérpretes usam para gravar música clássica hoje

Buscar um apelo comercial, um recorte regional ou um detalhe curioso é necessário para conseguir se destacar entre tantas versões dos compositores clássicos

João Marcos Coelho*, Colaboração para o Estado

05 Agosto 2017 | 16h00

Ninguém duvida que a qualidade da audição musical sofreu um rebaixamento expressivo na última década. As novíssimas gerações – a meninada que está hoje com seus 14, 15 anos – só ouvem música no smartphone. É tão pronunciada a diminuição do espectro sonoro disponível nestes aparelhinhos que nos acompanham 24 horas por dia que não seria amalucado supor que regredimos até quase os primórdios da invenção da reprodução fonográfica, pouco mais de um século atrás.

Quanto menor o espectro sonoro, mais o som distorce e a escuta se concentra no ritmo. Perde-se 99% da cor do som, ou seja, o que cada instrumento tem de melhor, seu timbre, sua voz específica e única. Nem Theodor Adorno imaginaria tamanha regressão do ouvido.

Isso, no entanto, não é o pior. Com esta degradação auditiva veio também a tão decantada universalização do acesso às músicas de todos os gêneros, de todos os tempos. Temos a história da música na palma da mão, orgulhamo-nos. Mal e porcamente, esquecemos de acrescentar.

Mas, além da degradação, os adolescentes de 14, 15 anos acima citados também ficam como cegos em tiroteios, sem a menor condição de navegarem com um mínimo de segurança por repertórios infinitos. Quando acertam na música, erram no intérprete (quando não erram nos dois). E com isso “aprimoram” uma incapacidade crítica que os mecanismos de busca e seus famosos algoritmos impõem. Você topa por acaso com um Mozart? O seu aplicativo imediatamente lhe despeja diante dos olhos centenas de outras músicas afins. Só que em execuções medíocres. 

Resumindo, ouvimos cada vez mais, e cada vez pior. E, do outro lado, o dos músicos: que meios têm eles para se diferenciar neste caos? O disco, que nasceu bolachão de vinil, transformou-se no LP, depois no CD, e agora tem sua morte decretada em mil e um versos. Hoje, ouve-se faixas isoladas. Não existem as outrora bem-vindas conexões de repertório que despertavam no ouvinte a curiosidade pela busca de outros universos de som, fazendo renascer seu espírito musical aventureiro. Cá entre nós, há coisa mais deliciosa do que garimpar nas galáxias sonoras?

Em geral, os músicos continuam fazendo seu trabalho, concebendo e gravando discos e os distribuindo em formato físico – sim, o CD resiste – e nas plataformas digitais. Para ouvintes que não se preocupam mais em refazer o itinerário que os levou a conceber com tanto carinho uma determinada ordem na sequências das músicas. Pérolas aos porcos?

Talvez não. É uma ação em tudo parecida com a do Sísifo grego, eternamente condenado a levar uma pedra gigantesca do sopé ao cimo de uma montanha... que tão logo o alcança rola de novo, obrigando-o a recomeçar o duro percurso.

Ao contrário do coitado do Sísifo, o músico atual – seja de que gênero for – tem uma saída: a apresentação ao vivo, o show, o concerto. De tão condenadas que estão a uma escuta individualizada, as atuais gerações são obcecadas em assistir eventos musicais ao vivo, participar, ainda que por algumas poucas horas, de uma comunidade unida em torno do que vai rolar no palco – seja o pianista clássico, o grupo de rock ou os breganejos. 

Uma estrela do tamanho de Gilberto Gil traduziu poucos dias atrás, no Estado, o modo como encara um novo disco: “Hoje em dia, para mim, o conceito de disco mudou muito. Não domino mais o conceito do que seja um disco propriamente. Então, compus canções, as gravei, e quem vai reunir tudo isso num disco são eles”. A preocupação é outra: Gil, Nando Reis e Gal Costa ocuparão este segundo semestre em shows pelo país afora – e assim vão subsistindo...

Nomes como Gil ou Gal não vivem este drama, mas 99% dos músicos continuam às voltas com uma questão tão antiga quanto a indústria fonográfica: como se diferenciar, como atrair o maior número de “likes”, como se diz hoje em dia? 

Vamos por partes. Primeiro, o desafio mais duro, dos músicos clássicos. Hoje em dia, os intérpretes se veem cada vez mais empurrados para mostrar diferenciais em suas gravações. É uma espécie de vale-tudo, onde não adianta mais gravar com altíssima qualidade obras de compositores como Haydn, Mozart ou Beethoven. É necessário aparecer diferente para o grande público e também para a mídia especializada. De que maneira? 

Um truque eficaz é o da pianista norte-americana Simone Dinnerstein, 44 anos. Uma década atrás ela era ilustre desconhecida. Queria gravar as Variações Goldberg de Bach, mas sabia que gravadora alguma se interessaria (todas elas, aliás, já estavam em plena UTI). Bancou custos de estúdio e produção. O CD foi lançado em 2007, pela Telarc, que nada pagou por ele. A história era muito boa e a interpretação idem. Rendeu muita mídia, lançou de fato a pianista.

Simone não dá ponto sem nó. Em 2013, já contratada da Sony, gravou Bach Re-invented com o grupo Absolut Ensemble, dirigido por Krystjan Järvi, misturando peças estritamente interpretadas com reinvenções espelhadas em Bach feitas pelo ótimo saxofonista de jazz Daniel Schnyder. Bem, depois desta aventura “fora da caixinha”, retornou ao leito clássico principal agora em 2017 gravando os dois mais famosos concertos para piano de Mozart (no. 21, célebre por seu Andante ter sido usado na trilha do filme Elvira Madigan, de 1967; e o último, no. 27). Até aí, uma gravação entre centenas de outras com o mesmo repertório. Só que Simone gravou em Havana com uma orquestra cubana, regida por José Antonio Méndez Padrón. Orquestra jovem do Liceo de Havana, em que os músicos nada ganham e o maestro recebe míseros US$ 55 por mês. Até a precariedade dos instrumentos – a afinação é baixa, no Lá336 contra o normal Lá440, para aumentar a longevidade das cordas – é exaltada nas várias histórias na mídia internacional. 

Sinceridade? A interpretação é apenas correta. Normalmente se perderia no mar de lançamentos mensais de concertos de Mozart. Mas a história é boa demais. Tem até o ingrediente de Simone ter estudado, desde os 9 anos, com o professor cubano Solomon Mikowski. Hoje com 81 anos, ele era da Manhattan School of Music, em Nova York. Ok, ok, maldade minha. Afinal, o cubano aceitava telas que a menina pintava quando ela não tinha como pagar pelas aulas particulares.

Egberto Gismonti, que não tem nenhum episódio biográfico que o ligue à ilha de Fidel, também foi a Havana em 2009 para gravar sua maravilhosa suíte villalobiana Brasil: Sertões Veredas com a Orquestra Romeu, composta só por mulheres, liderada por Zenaida Romeu (álbum duplo ECM). 

Um dos truques mais comuns é oferecer transcrições ousadas de obras conhecidas. Neste departamento, a acordeonista suíça Viviane Chassot acerta em cheio. Ao contrário de Simone, não atira em várias direções. Persegue modos de reproduzir em seu instrumento característico peças clássicas do século 18. Em 2009, começou tocando sonatas para teclado de Joseph Haydn (1732-1809); dois anos depois, aventurou-se pelas célebres Pieces de Clavecin de Jean-Philippe Rameau (1683-1764), em CD do selo alemão Genuin. A boa repercussão a levou a assinar com a Sony ano passado. E agora ela fecha um ciclo virtuoso registrando com a Orquestra de Câmara de sua cidade, Basel, quatro concertos para teclado de Joseph Haydn. Dispa seus ouvidos de qualquer tipo de preconceito e embarque nesta aventura muito interessante. Como disse um crítico inglês, de repente você pode se sentir num café suíço durante as cadências, mas a sensação passa logo. 

Neste departamento, 2017 nos oferece duas maravilhosas reinvenções de Bach e da música europeia do século 18. Ambas brasileiríssimas. Ambas superlativas. 

Primeiro, uma versão apaixonante de A Arte da Fuga, o monumento de 14 fugas e cinco cânones sobre um só tema deixados por Bach sem nenhuma indicação de instrumentação, com o quarteto de flautas doces Quinta Essentia. É seu terceiro CD em dez anos de existência, e atestado de maturidade e afirmação internacional, pois foi gravado para o selo ARS, em Hamburgo, Alemanha. Eles trabalham com instrumentos históricos, de época, ou réplicas, “porque oferecem mais contrastes (...) maior variedade na sonoridade, rica em contrastes, com maior número de instrumentos”. O resultado é arrebatador. 

Simultaneamente, Originais e Transcrições, dos cravistas Ana Cecília Tavares e Marcelo Fagerlande, mostra a verdadeira guerra entre os estilos italiano e francês pelo domínio da música instrumental no século 18 europeu. De um lado, Rameau, Lully e os cravistas franceses, como Couperin e Clérambault; de outro, a linhagem de Vivaldi e Corelli, entre muitos outros. Ana Cecília e Marcelo constroem um delicioso panorama do período em três obras. Duas delas muito conhecidas, o sexto concerto de Brandenburgo e o concerto a dois cravos de Johann Sebastian Bach. E A Apoteose de Corelli, gema da maturidade de François Couperin, um dos grandes mestres do cravo franceses do século 18, visando superar as diferenças de estilo entre os franceses e os italianos. Sempre em versões raras para dois cravos do Brandenburgo BWV 1051 (do cravista Kenneth Gilbert) e do concerto BWV 1061 (feita pelo próprio Bach).

Mas o pior mesmo para os intérpretes ditos eruditos é enfrentar a linda concorrência dos músicos populares, sobretudo os brasileiros, que ultimamente vêm invadindo o terreiro erudito. Claro, uma divisão artificial, postiça, que nada representa. Com uma vantagem explícita: eles reintroduzem o improviso em suas reinvenções dos clássicos – um hábito que até o final do século 19 ainda era comum na música de concerto. Infelizmente, a prática da música clássica engessou-se a ponto de os solistas dos grandes concertos clássicos e românticos nunca se atreverem a improvisar de fato nas cadências. Preferem esconder-se nas cadências escritas pelos compositores ou por grandes músicos do passado. Covardia que agora cobra seu preço.

A seguir, dois exemplos recentes das reinvenções extraordinárias que estão arejando a atmosfera da música instrumental brasileira. Compreensivelmente, Villa-Lobos domina as recriações.

O ótimo saxofonista Teco Cardoso gravou Villa-Lobos com o pianista Tiago Costa em Eruditopopular, com direito até a uma surpreendente reinvenção de um movimento do concerto para piano do russo Aleksander Scriabin. 

O piano virtuosístico de Amilton Godoy e a gaita precisa de Gabriel Grossi fazem o mesmo, mas com um diferencial: Amilton estudou com Nellie Braga, da Escola Magda Tagliaferro, e ganhou vários concursos clássicos de piano antes de embarcar na bem-aventurada viagem do Zimbo Trio. Daí a extrema adequação do enfoque deste duo de exceção. O CD é de 2012, mas merece ser ouvido com muita atenção e prazer.

Finalmente, nem só de boas sacadas vivem os músicos. Sobretudo os mortos, como o grande violinista ucraniano Nathan Milstein. Ele morreu em 1992, aos 88 anos. E naturalmente não pode reclamar da capa imaginada pelo marqueteiro do selo italiano Urania para um álbum duplo lançado ano passado com registros históricos de grandes concertos de Beethoven, Mendelssohn, Brahms, Bruch e Tchaikovski: uma modelo nua sentada numa cadeira, de costas, sugerindo o contorno de um violino nas linhas de seu corpo. 

*João Marcos Coelho é jornalista e crítico musical. Co-autor do livreto-DVD 'A Democracia das Madeiras' (Selo Sesc, 2016), entre outros

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