Os últimos dias de Liev Tolstoi em uma estação de trem

Os últimos dias de Liev Tolstoi em uma estação de trem

Escritor fugiu de sua propriedade e morreu em uma estação

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2019 | 16h00

Ao se aproximar dos 80 anos Liev Tolstoi não suporta mais sua mulher, Sophie Behrs, que foi, no entanto, uma esposa generosa. Não sacrificou ela suas próprias ambições literárias para se submeter àquelas do seu genial marido, concebendo uma quinzena de filhos? Mas os gênios reagem sempre de maneiras curiosas: em pleno inverno, em novembro de 1910, ele foge. Deixa furtivamente sua suntuosa propriedade de Iasnaia Poliana, ao sul de Moscou, para tomar o trem e começar uma nova vida. Mas o que vai encontrar é a morte.

O trem não tem aquecimento. Tolstoi tosse, a febre o queima. Ele começa a morrer. Queimando de febre, ele é retirado do trem na pequena estação de Astapovo. O chefe da estação o instala em um quarto no rés do chão. Tolstoi é um homem célebre nesse tempo. Os telégrafos crepitam. Em Astapovo desembarcam hordas de ministros, jornalistas, aduladores, acadêmicos, vindos do mundo inteiro. Sophie, a esposa do escritor, chega também. De sua imensa família ele tolera apenas sua filha Sacha. A neve cai. O mundo está todo branco.

Sacha anota os últimos pensamentos do pai. Depois sua palavra se torna inaudível. Então Tolstoi começa a escrever com a ponta dos dedos sobre os lençóis da cama. Rapidamente, como se desejasse comunicar seus últimos pensamentos no momento em que vai entrar no silêncio de Deus. O que ele quis nos dizer escrevendo com a ponta dos dedos sobre os lençóis? Foi o último manuscrito do velho autocrata magnífico e insuportável, o homem que se equiparou a Homero, Shakespeare, Cervantes, Victor Hugo.

Essa última imagem de Tolstoi é fiel à alma complicada do grande russo. No âmago desse homem estranho se entrechocam todas as contradições. O romancista é genial, mas quando fala de filosofia é pueril. Ele é bom e muito cruel. Foi um soldado intrépido no Cáucaso e um pacifista exaltado. Um coração terno e uma alma trágica, um aristocrata e um anarquista, um homem muito rico que não se consola com o fato de não ser pobre.

Para um escritor, a multiplicidade desses diferentes impulsos é um ganho. Se ele tem necessidade de um avaro, ele mesmo é avaro. Se deve criar um tipo generoso, ele é um mão aberta. Se deseja descrever um tipo libertino levado pelo sexo, ele tem um na mão, mas se precisa de um asceta encontra o modelo no fundo de si mesmo.

Do seu estoque, que usa à vontade, ele extrai um idiota ou uma figura sutil, um cristão ou um ateu, um aristocrata ou um camponês com uma longa barba branca. Analisemos sua obra-prima, Guerra e Paz: cada personagem deste enorme livro é uma parte de Tolstoi. Em Guerra e Paz residem todos os avatares do escritor: um marechal Koutouzov astuto e adormecido, um Napoleão genial e imperioso que quer refazer o mundo segundo sua vontade, uma Natacha alegre como uma pombinha, uma princesa Marie triste como uma bruma, um príncipe André heroico e autoritário, um iluminado como Pierre Bezoukov. 

Tolstoi nasceu em 1828 em Iasnaia Poliana, uma propriedade de dez mil hectares. De uma família antiga e rica. É péssimo em gramática, mas muito bom para fazer o diabo com os pequenos camponeses. Seus pais morrem quando ele é ainda uma criança. O resto da família se ocupa dele, as tias, as primas... Ele viaja. É um dândi que adora o que é chique, mas sua cabeça lhe parece feia e os pés muito grandes. É forte como um urso. Quando completa 19 anos torna-se o senhor da imensa propriedade familiar. Conta com uma multidão de camponeses a seu dispor, rios e árvores. Os invernos ele passa em Moscou e nos bordéis. Torna-se militar e luta heroicamente no Cáucaso. E sempre escreveu. Sua grande obra, Guerra e Paz, foi publicada em 1865. Dez anos mais tarde publica Anna Kariênina. O americano William Faulkner, a quem foi perguntado qual o mais belo romance do mundo, respondeu: Anna Kariênina!

Na paz de Iasnaia Poliana ele escreve todas as manhãs. “A arte de escrever bem”, afirma, “consiste menos em saber o que escrever, mas saber o que não se deve escrever (...). Rever o esboço significa subtrair tudo o que há de inútil e principalmente não acrescentar nada.”

A vida de Tolstoi até aqui é feliz. Ele conseguiu tudo. E, repentinamente, a infelicidade chega. Ele despenca no abismo. Não compreende mais nada. Nem a vida e nem a morte. Nem Deus. Ele se vê tão tentado pelo vazio que evita deixar cordas penduradas na imensa casa por temor de se enforcar. A crise chega ao fim. Ele reencontra Deus e retoma o caminho da Igreja. Mas agora não se contenta mais em adorar Deus. E procura reformá-lo. E de passagem reformar também a Igreja que só diz bobagens; esse Deus em três pessoas, essa Encarnação, essa condenação eterna, os anjos, o diabo. Tudo isso não se sustenta.

E a ressurreição do Cristo! Ora, ora... E, do mesmo modo que modernizou o trabalho dos seus “servos” na sua propriedade, ele distribui seus conselhos, quase ordens, aos papas. Mas os papas são tão estúpidos. Não aproveitam a sorte. Não só deixam de aplicar as lições do Grande Homem, mas o excomungam. Pior para eles e para Deus, que perdem uma bela ocasião de se renovar um pouco. Tolstoi não se importa. E inicia um novo trabalho. Passa a atacar as sociedades modernas. O dinheiro é uma coisa horrível, tão perversa quanto a escravidão. A justiça, a polícia, o exército, tudo tem de ser reformulado de A a Z. A grande voz de Tolstoi é tão violenta que vemos ali uma predicação similar à de Marx. Mas é superior ao marxismo. Não há necessidade de fazer revoluções ou guerras para reconstruir uma sociedade falida. Nada de violência ou mortes. A mudança indispensável será obtida pela “não resistência”, a “não violência”.

As pessoas próximas de Tolstoi, especialmente sua doce esposa Sophie, não compreendem nada. Mas do outro lado do mundo um homem entende seu discurso profético: é Mahatma Gandhi, que utilizará a “não violência” para fazer vacilar o império colonial britânico na Índia. Mas agora Tolstoi se lança numa nova obra: reformar ele próprio. Nada mais de afetação. Eis que surge um camponês, um vagabundo, com longa barba e botas que ele mesmo fabricou. A carne e o tabaco são banidos. O grande Tolstoi participa (um pouco) dos trabalhos dos seus servos. Um último obstáculo resiste: o dinheiro, essa peste! Liev Tolstoi é um homem extremamente rico. Possui terras ilimitadas e rublos a não saber o que fazer com eles. Como se desembaraçar de tudo isto? Nada é mais difícil do que se tornar um pobre. Ele outorga todos os seus direitos autorais à sua mulher e seus herdeiros. Sente-se mais leve, contudo ainda resta a luxuosa propriedade de Iasnaia Poliana. Ele gostaria de se afastar dali, mas tem o direito de privar a mulher e os filhos desse lugar? Assim, ele se sacrifica e permanece nas suas soberbas terras.

Todo esse labor não melhorou seu caráter. Ele contradiz todo o mundo. Só ele conhece a verdade. Os outros só têm de aproveitar, mas há uma grande pedra no seu sapato: seu insaciável apetite sexual, ao passo que recomenda a todos uma castidade perfeita. Na falta de prostitutas ele recorre à sua mulher. Mas fica bem irritado. Não está ele violando seus próprios conselhos? Mas felizmente é um homem engenhoso. Tudo isto se deve à sua mulher, Sophie, que é uma tentação sexual permanente. Ela se defende. Evita tudo o que possa despertar o furor sexual no marido. Mas ele retruca, não é ela uma mulher? E a mulher, por sua natureza, seu corpo, não é um convite constante à libertinagem? E ele descarrega sua cólera em toda a literatura. Poucos escapam ao seu desprezo: Cervantes, Molière, Dickens, Victor Hugo. E especialmente Homero.

Dostoievski? No começo não era mau, “mas não deveria escrever à noite”. Baudelaire é um “menestrel mórbido”, Verlaine é um Mallarmé alcoólatra. Gorki é fraco, Puchkin é decepcionante. Além do que foi morto em um duelo!

Mas o verdadeiro inimigo de Tolstoi é Shakespeare. Seu teatro é grotesco. Suas tramas não têm lógica. Seus personagens se expressam num inglês absurdo que nenhum inglês jamais falará. Rei Lear é sua pior peça. Nula. Quem é esse velho rei solitário, no meio da sua terra árida, abandonado por todos, esse patriarca que no crepúsculo da sua vida é uma presa dos ódios, ciúmes e mentiras de sua família. Toda a família o traiu, exceto a filha mais jovem, a bela e doce Cordélia, que vai morrer também. Bizarro. Podemos jurar que estamos vendo o retrato de um outro patriarca que se chama Liev Tolstoi. 

Turgueniev, amigo de Flaubert, teme que Tolstoi abandone a literatura. Mas é tranquilizado. O velho Tolstoi jamais cessou de escrever. Seu gênio está intacto: o romance Senhor e Servo é uma obra-prima e A Morte de Ivan Illich, o relato de uma agonia, talvez seja, de todos os seus escritos, o mais magnífico. 

E sem dúvida porque Tolstoi, como seu personagem Ivan Illich, sente o sopro da morte. Ele está no pequeno quarto que lhe foi preparado pelo chefe da estação. Fora a multidão. A esposa tão amada e repentinamente detestada, também está presente. De tempos em tempos sua silhueta passa, tremulando, na neve, do outro lado da vidraça. Assim desaparecia o velho rei. Estava no fim e ainda escrevia com seus dedos. E muito depressa, pois estava no fim dos tempos. O mais belo manuscrito da história talvez seja este texto indecifrável escrito sobre os lençóis da sua agonia. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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