Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

'Ou você aceita a ambiguidade da condição humana, ou será vítima dela'

Martim Vasques da Cunha reúne artigos em livro e fala sobre 'A Tirania dos Especialistas' ao 'Aliás'

Caio Sarack*, Especial para o Estado

30 de novembro de 2019 | 16h00

O livro que tenho em mãos não trata sobre epistemologia nem mesmo é um tratado político, mas busca na polêmica o eixo estruturador do seu texto. A intenção do autor é mesma de um despertador. Martim Vasques da Cunha, em seu A Tirania dos Especialistas (Civilização Brasileira), quer identificar no cenário global político os rastros sobre a vida social democrática e suas, assim ele escreve, ruínas e idealismos – já é hora! É preciso esclarecer. 

Trump, Bolsonaro, Lula e FHC se encontram, no olhar de Vasques, em um mesmo círculo de análise. O autor afasta a si próprio com a intenção de emparedar teorias históricas, razões que produzem narrativas políticas e imagens de referência para compreender a História com maiúscula. Subterraneamente, no entanto, o escritor não deixa de extraviar para seu texto um princípio de organização dos argumentos: o indivíduo do século 21 deve primeiro negar o impulso daqueles que escrevem as histórias, precisam funcionar como um professor de redação escolar, separar todos os elementos da narrativa e compreender sua realidade essencial unitária, de modo asséptico e direto. A verdade é, ela mesma, suficientemente persuasiva? Nós que é precisamos adotar uma nova postura? A verdade que é dada passa incólume, não porque resiste, mas porque nunca é posta à prova.

A dificuldade que o leitor encontrará, porém, é de justificar o movimento pendular entre a polêmica do discurso político de enfrentamento contra a disrupção de uma modernidade (que pouco conseguimos conhecer com clareza nos textos), e o chamado à autonomia reflexiva e individualizada que fugiria do mainstream da intelligentsia acadêmica brasileira. O texto está sempre alternando entre a calma de quem tem razão e a projeção de inimigos dessa razão. A questão para o leitor é se ele conseguirá finalmente entender quando se deve ativar o confronto, e toda a gritaria que lhe é intrínseca hoje; quando deve-se apostar no “silêncio, como ausência da linguagem, para expressar o sentido do Ser, o momento da espera” (p. 186). 

O livro apresenta esse pêndulo com uma contradição: ao escolher uma simplicidade funcional numa noção vaga de responsabilidade individual, daquela autonomia reflexiva que não precisa de tutores ou quem quer que seja, Vasques se esquece de pensar como essa responsabilidade se materializa nas relações subjetivas e intersubjetivas. As citações bibliográficas, todas elas, partem de discussões metafísicas importantes, mas a contradição está em não esclarecer as mediações necessárias que dariam, finalmente, como propõe em seu livro inteiro, um caráter funcional a essa ontologia que ele, por decreto, nos dá sem exposição – o que o autor pode dizer ser má vontade deste leitor que quer dar ares compreensíveis à realidade que é implacável e, por isso, suficiente. 

A Tirania dos Especialistas reúne ensaios que querem revirar a terra arrasada da modernidade com ferramentas que trazem certa aura rudimentar, conservadas de um tempo memorioso e nos convidando à nostalgia. Diante de nossos desafios, temos de verificar se o avesso virtuoso do progressismo moderno é necessariamente um saudosismo com toques de um rousseauísmo conservador. 

Leia a entrevista com o autor:

Em seus ensaios, pude perceber um tema subterrâneo, certo teor por todos os textos, eu diria, de uma nostalgia. Existe na letra de seus ensaios um espírito que aponta um modo de ser que teria sido substituído e, por isso, corrompido pela modernidade tecnocrática, digamos assim. Minha pergunta, e ela se abre inclusive à sua discordância ou não sobre meu diagnóstico, é: de que modo você exporia com clareza o conteúdo dessa nostalgia?

Bem, você não pode dizer que o meu livro tem um teor de nostalgia quando ele coloca, no mesmo patamar de reflexão, [a banda de rock grunge] Soundgarden, [o cantor e compositor] Bob Dylan, [o escritor austríaco] Robert Musil, [o poeta beatnik] Allen Ginsberg e [o filósofo renascentista] Montaigne (risos). Não, não há nada de nostálgico nele. Aliás, é justamente o contrário. Como mostro no decorrer do livro, especialmente ao analisar as obras de Paulo Eduardo Arantes e de Olavo de Carvalho, sou contra toda e qualquer forma de controlar o fluxo da História, seja sob a paixão apocalíptica do primeiro, seja sob a pleonexia do segundo. Em resumo, descrevo uma situação política que se tornou predominante desde o início da modernidade. Trata-se do terrível fato de que a verdadeira democracia foi traída por uma elite espiritual que, incapaz de manter a sua vocação, resolveu se apossar do poder indireto, sem a devida representação política, e interfere nos destinos da sociedade sem seu consentimento. E, neste ponto, não há nenhuma nostalgia, pois falo de um tema permanente, que nos afeta desde a época de Platão, pelo menos.

Tal situação traz consigo um exemplar, mesmo que difuso, de como ela pode vir a ser caso retomemos o percurso virtuoso desse modo de ser perdido: uma mistura de ceticismo com funcionalismo. Explico: tal virtude, hoje, estaria na crítica ao democratismo, mas na defesa dos dispositivos dessa mesma democracia que são garantidoras de certas naturezas humanas (como a responsabilidade de seus atos, certa convivência ética básica etc.). Ao que lhe pergunto: como superar as contradições intrínsecas dessa mistura que você propõe? Não poderíamos lhe perguntar o que trava o seu ceticismo quando diante de postulados naturais sobre os quais você escreve em seus ensaios (capacidade de fazer o Mal, princípio da responsabilidade, interioridade moral e tantos outros)?

A conclusão do livro é justamente esta: não há como superar essas contradições intrínsecas. A vida estritamente política nos impede de fazer isso. Ou você aceita a ambiguidade da condição humana, ou será vítima dela. Se optar pela primeira opção, talvez terá alguma chance de sobreviver – e olhe lá. O meu ceticismo não é o de Pirro, muito menos o dos “mestres da suspeita” do pós-modernismo. O meu ceticismo é o de Montaigne. Isto não significa que você ficará paralisado, sem saber o que fazer enquanto a política destrói a sua vida. Não, é o oposto: trata-se do ceticismo da ignorância que, por aceitar o mundo tal como ele é e não como eu gostaria que ele fosse, me traz uma profunda alegria. “Não faço nada sem alegria”, já dizia esse grande filósofo francês. E este é também o meu lema de vida. O livro lida justamente com uma tensão existencial da qual a vida política não dá conta e que você só consegue vencê-la se aceitar plenamente, com um sorriso nos lábios, o exílio interior que ainda conseguimos viver dentro dos nossos corações.

Sobre ‘responsabilidade’, este conceito extremamente matizado na História da Filosofia, ele assume um caráter bastante fluido quando diante dos objetos que você elegeu para seu livro, porque ele é reconhecido somente com contraexemplos. Afinal, que responsabilidade é esta que estaríamos perseguindo e ansiosos em ter de volta?

Você quer analisar o meu livro sob o prisma de uma “história da Filosofia”, enquanto, na verdade, ele é um livro de Filosofia Política. Portanto, eu argumento dentro de princípios – e não de conceitos que tiveram seus sentidos alterados conforme o transcorrer do tempo. Neste aspecto, a “responsabilidade” com a qual lido não é algo fluido ou matizado, mas sim algo que vive numa tensão implacável – e, por isso, existe dentro de circunstâncias históricas concretas que afetam diretamente o homem comum, aquele que sofre com o boleto no final do mês. Ao mesmo tempo, este mesmo homem não pode perder o pouco da eternidade que ainda lhe resta – e que não tem nada de nostálgico, e sim de duradouro. Além disso, não apresento apenas contraexemplos. Creio que, na verdade, há mais exemplos concretos do que significa a verdadeira responsabilidade no livro do que exemplos do que seria o seu oposto. Conto-os rapidamente nos dedos, esses bons modelos: Michael Oakeshott, Robert Musil, Harper Lee, Platão, Christopher Lasch, Juliano Garcia Pessanha, Joseph Brodsky, Tomas Tranströmer e Sophia de Mello Breyer Andersen. São pensadores e artistas que, em nenhum momento, se deixaram seduzir pela perversão do poder praticada pela “tirania dos especialistas” durante a nossa modernidade. Ficaram firmes diante de todos os holocaustos da História e jamais se permitiram se ver como vítimas dessas avalanches. Se você deseja tanto uma síntese, eis aqui uma definição da verdadeira responsabilidade: todo homem decente deve assumir as consequências dos seus atos e das suas ideias, preservando a sua liberdade interior e a dos seus semelhantes, independentemente da fúria da História e dos governos totalitários. Como dizem por aí, é pôr o seu na reta, por mais que isso lhe custe amizades, favores e dinheiro. O resto é nostalgia de quem ainda não tem coragem para admitir a si mesmo que o exílio, por mais assustador que pareça, é a fortaleza perfeita contra esses tiranos que pretendem sufocar o nosso espírito.

*CAIO SARACK É MESTRE EM FILOSOFIA PELA FFLCH-USP, É PROFESSOR DO INSTITUTO SIDARTA E DO COLÉGIO 

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