Outro Castro, mesma Cuba

Direitos humanos são realidade virtual na ilha, mas surge a geração de críticos como a blogueira Yoani Sánchez

Daniel P. Erikson*, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2009 | 00h12

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CELEBRIDADE - Time pôs Yoani entre os cem mais influentes do mundo

 

Um dos maiores mistérios envolvendo Raúl Castro quando assumiu o poder em Cuba, em fevereiro de 2008, era se ele seguiria a política de supressão das liberdades civis e políticas na ilha defendida por seu irmão Fidel. Nas últimas semanas, o já péssimo histórico de Cuba no campo dos direitos humanos piorou com a avalanche de noticias negativas sobre o espancamento de blogueiros e prisioneiros políticos, ameaçando destruir qualquer esperança de uma normalização das relações entre Cuba e Estados Unidos. Claro que esse pode ser exatamente o resultado que os irmãos Castro pretendem, mas não há dúvida de que a atual situação no país está cada vez mais volátil.

Primeiro foi o estranho caso de Yoani Sánchez, blogueira cubana aclamada mundialmente por suas condenações e críticas mordazes do sistema cubano feitas no seu blog, Geração Y. Essa celebridade virtual ficou virtualmente famosa da noite para o dia. Há dois anos ninguém, dentro ou fora de Cuba, tinha ouvido falar dela; agora, seu blog está sobrecarregado de mensagens de reconhecimento, vindas especialmente dos EUA e Europa. Em 2008, foi apontada pela revista Time como uma das cem pessoas mais influentes do mundo; a revista Foreign Policy qualificou-a como um dos dez mais influentes intelectuais latino-americanos; e o jornal espanhol El País concedeu-lhe o Prêmio Ortega y Gasset de Jornalismo Digital. Este ano, o Fórum Econômico Mundial incluiu Yoani Sánchez no grupo de elite dos Jovens Líderes Globais e a Universidade Colúmbia, de Nova York concedeu a ela o prestigiado Prêmio Maria Moors Cabot de jornalismo latino-americano - pela primeira vez na história, dado a um blogueiro. Recentemente, o presidente Barack Obama chegou a reservar um tempo para responder a perguntas colocadas por ela no seu blog. Neste ponto, alguém pode perguntar se um Prêmio Nobel de Literatura estaria muito longe. Na verdade, Yoani Sánchez representa a última encarnação do paradoxo dos dissidentes cubanos que ficam conhecidos e são até tratados como celebridade no exterior, enquanto no seu país permanecem desconhecidos e suspeitos. O blog de Yoani Sánchez é traduzido para 17 línguas e recebe milhões de visitas por mês, mas quase não é lido em Cuba.

O confronto recente entre a blogueira e o aparato cubano começou a se agravar quando o governo negou por duas vezes permissão para ela deixar a ilha - primeiro, para uma viagem a Madri, depois, a Nova York - para receber seus prêmios. Yoani Sánchez expôs ao ridículo a recusa do governo, e as postagens no seu blog se tornaram cada vez mais ásperas. O conflito começou a migrar do ciberespaço para o mundo real quando, no início de novembro, ela reportou que tinha sido agarrada por homens que supunha serem agentes do governo e espancada durante 25 minutos. Foi também avisada para parar com as postagens críticas ao governo no blog. Em resposta, seu marido, Reinaldo Escobar, desafiou os agressores para um "duelo verbal" numa esquina. Quando apareceu, com 20 amigos, na hora combinada, uma multidão de partidários de Raúl Castro rodeou-os e, aos gritos, fez com que se calassem. Mas a saga ainda não acabou e tudo indica que a situação deve piorar.

Em relatório recente intitulado Novo Castro, a Mesma Cuba: Prisioneiros Políticos na Era pós-Fidel, a organização Human Rights Watch diz que o governo cubano tem preferido prender por menos tempo e assediar os dissidentes a colocá-los por muito tempo na prisão, como meio de manter os oponentes sob controle. A HRW documentou mais de 40 casos recentes de detenções sob alegação de "periculosidade social", enquanto a Comissão de Direitos Humanos de Cuba declara que o número de prisioneiros políticos na ilha aumentou ligeiramente este ano, para 208, depois de uma queda de mais de um terço desde 2006. Por outro lado, a HRW se mostra reticente com relação à "emergência de uma blogosfera independente em Cuba, músicas mais críticas ao governo e, mais recentemente, uma série de reuniões públicas organizadas pelo governo para reflexão sobre o socialismo cubano".

Mas os limites internos das críticas ao socialismo cubano são aparentes. O Partido Comunista é o único partido político legalmente reconhecido em Cuba e os líderes de oposição não podem se candidatar a uma cadeira na Assembleia Nacional. Não há eleições competitivas, multipartidárias. A vasta maioria da população só tem acesso à TV estatal cubana, que repercute as opiniões do governo (alguns cubanos instalaram antenas parabólicas ilegais que captam canais de TV internacionais, mas essas pessoas pertencem mais à elite governamental). As duas principais publicações jornalísticas do país, o Granma e Juventud Rebelde, são órgãos do Partido Comunista. Muitos dos mais acirrados opositores de Fidel Castro fugiram do país, no que começou como uma grande onda de exílios nos anos 60 e continua até hoje. Outros apodreceram durante anos nas prisões cubanas. Pertencer ao Partido Comunista é um requisito para se avançar na carreira e o Estado detém o monopólio de muitas formas de emprego, exceto no âmbito de um setor privado limitado e da economia informal que se alastra. Grupos de vigilância dos bairros, conhecidos como Comitês para a Defesa da Revolução, existem em cada quarteirão e um dos seus objetivos é a proteção contra as chamadas "atividades contrarrevolucionárias".

Quando Raúl Castro assumiu a presidência, exortou os cubanos a debater sem medo o futuro do socialismo. Agora, o governo parece estar novamente confiando nos instrumentos cuja eficácia já foi comprovada para garantir que os cidadãos não sejam ousados demais nas propostas de mudança. A próxima geração de críticos como Yoani Sánchez está usando novas tecnologias para compartilhar suas ideias com o mundo e mostrar como é a paisagem social e cultural dentro de Cuba.

A ilha observa uma emergente queda de braço entre o governo cubano e seus críticos mais duros, que deve contribuir muito para determinar o futuro do país.

*Diretor para os programas do Caribe no Diálogo Interamericano. Escreve para o Los Angeles Times, Miami Herald e Washington Post, entre outros jornais. Autor de Cuba Wars (St Martins Press)

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