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Ouvidor-geral

Sonoplasta português arranca sonoridades inéditas de situações como o frear de um ônibus ou o clique do semáforo ao mudarem as luzes, mas sofre tanto com ruídos gratuitos que, como Kafka, é obrigado a usar tampões de ouvido

Sabrina Duque, O Estado de S. Paulo

20 Setembro 2014 | 16h00

Desde que vivem juntos, Vasco Pimentel pede à mulher que não lhe fale quando acaba de acordar. Toda manhã, esse diretor de som que inspirou Viagem a Lisboa, filme do cineasta Win Wenders, precisa de uma hora e meia sem ouvir nada. Quando a mulher se esquece e começa a lhe falar, ele levanta a mão como um guarda de trânsito. Stop. Silêncio, é cedo para escutar. A mulher do sonoplasta acostumou-se a vê-lo levantar-se, preparar seu café da manhã e ler sua correspondência sem dizer uma palavra. Pimentel já deixou de frequentar amigos porque falavam quase aos gritos. Deixou de ir a cafés porque o burburinho o aturde. Já pôs som em mais de cem filmes, mas não assiste a festivais de cinema. “Nos tapetes vermelhos” - diz ele - “há ruído demais.” Tampouco tolera o murmúrio de um televisor ligado em seu idioma: “É uma inflação de palavras de valor semântico nulo e entonação histérica e mentirosa”. Mas aprecia como soam os programas de televisão na China ou na Índia: por não falar os idiomas desses países, as palavras lhe chegam somente como sons, sem que entenda seu significado. 

Vasco Pimentel detesta o som de automóveis ruidosos andando. Enruga a cara de tal maneira que parece sofrer a pior das enxaquecas. No entanto, aprecia as notas musicais “grandes, infinitas, lacerantes” que produz uma corrente de veículos ao atravessar a ponte metálica de Lisboa, cidade onde nasceu. Mas, quando sobe num carro alheio e o rádio é ligado, se desespera e começa a dar socos nos botões até conseguir desligá-lo. 

Vasco Pimentel tem 56 anos, um matagal de cabelos prateados, escuras sobrancelhas grossas e uma gaveta repleta de caixas de tampões alemães Ohropax - paz para os ouvidos - em sua casa. É a mesma marca de tampões que Franz Kafka usava para suportar os ruídos durante a 1ª Guerra. Os Ohropax foram inventados por um farmacêutico alemão em princípios do século 20 como resposta ao ruído cada vez mais opressivo da era industrial. Quando o sonoplasta abre sua gaveta e descobre que só lhe restam uma ou duas caixas, sai a percorrer farmácias: se encontra uma que vende a marca, compra todas as disponíveis. Anos atrás, chegou à conclusão de que o caos de carros, ruídos e gritos que o esperavam fora de sua casa ia arruinar sua audição. Desde então, o lisboeta que viveu emprestando seus ouvidos a cineastas como Win Wenders, Vincente Galo e Manoel de Oliveira - o diretor mais velho do mundo - não pode sair à rua sem os tampões.

Nosso cérebro tem a habilidade evolutiva de suprimir os ruídos de fundo que não nos interessam. Numa festa cheia de gente, não escutamos nada de forma precisa até que alguém pronuncie nosso nome. Essa capacidade de concentrar a audição em certos sons e ignorar os que não nos interessam é conhecida como “efeito coquetel”. “Todos temos uma espécie de filtro” - diz Rui Poças, companheiro frequente de filmagens de Pimentel - “mas Vasco fica irritado porque acaba por captar coisas que não queria.” Poças, um dos melhores diretores de fotografia do mundo segundo o Hollywood Reporter, conta que Pimentel consegue interromper seu trabalho num set para pedir a alguém que pare de fazer um ruído que nem sequer sabia que estava fazendo: um tique nervoso, raspar a parede com as unhas ou até mascar chiclete.

Sonoplastas costumam ser detalhistas, obsessivos e anônimos. Nenhum de nós deixa de se emocionar com um efeito sonoro escolhido com precisão. O suspense é o guincho histérico de um violino enquanto uma mulher toma um banho de chuveiro (Psicose), duas notas repetidas - mi e fá - que soam cada vez mais fortes à medida que a câmera se aproxima de uma banhista (Tubarão), um canto infantil distorcido que se ouve quando um personagem vai caindo no sono (A Hora do Pesadelo).

Mas o sistema hollywoodiano tem seu próprio “efeito coquetel”: ninguém se vira ao ouvir o nome de um diretor de som. Gary Summers foi indicado nove vezes ao Oscar e ganhou quatro, tantos como Spielberg, só que dele não se tiram fotos nem lhe perguntamos como conseguiu o som de milhares de espadas se chocando em O Senhor dos Anéis. Mark Berger é um dos sonoplastas de Apocalypse Now. Ganhou o Oscar nas quatro vezes em que foi nomeado. O trabalho de som em Apocalypse Now tornou memoráveis algumas de suas cenas, como a do início ao filme: enquanto o soldado observa girar um ventilador de teto, escutamos as hélices de um helicóptero, e assim o jogo do som com as imagens contagia a alucinação de um personagem. O diretor Francis Ford Coppola entendeu que o trabalho de som havia contribuído de tal forma para o clima e a história do filme que os responsáveis não poderiam ser considerados meros “sonoplastas”. Desde então, em fins dos anos 70, eles são chamados de diretores de som.

Mas Vasco Pimentel vive às vezes seu dom como uma maldição. Ele não sofre de hiperacusia, síndrome que torna intoleráveis sons como a campainha do telefone ou o entrechocar dos talheres contra os pratos. Tampouco padece de misofonia, um ódio ao ruído, aquilo que experimentam os que se crispam com a fricção de um caneta esferográfica contra uma folha de papel. O problema para Pimentel é o ruído que nos envolve como uma bolha: aquele que ouvimos em todas as partes e não percebemos, por insensibilidade ou indiferença. 

Uma tarde, enquanto filmava com o diretor Wim Wenders, Pimentel tirou seus fones de ouvido e caminhou até uns meninos que jogavam ruidosamente. Eram os anos 1990 e eles estavam num terraço da Alfama, um dos bairros mais antigos da capital portuguesa. Pimentel colocou seus fones nas orelhas de um dos meninos e moveu o microfone para captar os sons que chegavam até aquele terraço com vista para o Tejo: o canto de um pássaro, os sinos da igreja, o vento entre as árvores, a sirene de um barco chegando ao porto. Um a um, os meninos foram silenciando como que hipnotizados: tinham se tornado cúmplices de um senhor que os havia feito ouvir um mundo que estava ali, mas eles não percebiam. 

Wim Wenders gostou tanto da cena que decidiu incluí-la em Viagem a Lisboa, filme que trata de um diretor que se propõe a fazer um filme só com sua câmera, sem som, até se dar conta de que seu projeto está fracassando. Aí pede ajuda a um amigo sonoplasta - o protagonista -, que viaja à capital portuguesa com sua maleta e microfone para salvar o filme. Wim Wenders pediu ao ator que fazia o sonoplasta que seguisse Pimentel pelas ruas da cidade. O sonoplasta português, que já havia trabalhado com Wenders em O Estado das Coisas, era o personagem maníaco que o diretor alemão queria retratar.

Quando fala, Vasco Pimentel é tão expressivo como um mímico acelerado e, enquanto gesticula, de seus lábios brotam onomatopeias. Parece um menino que ainda não aprendeu a falar e tenta contar uma história com todo seu corpo e todos os ruídos. Pimentel é um ouvidor do cinema, um sonoplasta que tenta nos fazer escutar aquilo que deixamos de ouvir.

Também é conhecido por seu vínculo visceral e exaustivo com o que escuta. Maria de Medeiros, atriz que o considera mais “um poeta” que um “técnico com obsessão pela técnica”, recorda que Pimentel prendia sua equipe durante horas falando de um som. Pimentel nunca para de trabalhar: quando a filmagem termina, ele caminha com o microfone até o ponto de ônibus para registrar o som que o ônibus faz ao frear, ou o leva até o semáforo da esquina para gravar o clique da mudança de luzes. Quem sabe incluirá algum desses detalhes no fundo do filme que está rodando. 

No cinema, os sons estão ali ajudando a construir um sentido de realidade. O som das espadas a laser de Guerra nas Estrelas foi conseguido com o ruído de um televisor e o zumbido de um motor. O grito de Tarzan surgiu misturando a voz do ator, uns latidos de cão, o uivo de uma hiena e o dó de uma soprano. Para fazer O Exorcista, o diretor incluiu na trilha enxames de abelha, ruídos de porcos sendo degolados, miados de gatos e rugidos de leão. Stanley Kubrick utilizou em O Iluminado o rangido da neve, o quique da bola, o som do triciclo de um menino enquanto corre pelos andares do hotel, os ecos distantes de uma velha canção. 

Na última primavera, Pimentel estava preocupado: como soaria o consultório de um psicanalista instalado na barriga de uma baleia? Para sua nova película, o cineasta Miguel Gomes o encarregou de projetar essa cena. Durante o inverno, para o mesmo filme, ele havia gravado o canto de pássaros engaiolados e pensado em como dar som a essa reinterpretação do mito de Jonas. “Vasco é um músico no lugar errado”, diz Rui Poças. “Mas, se fosse músico, seria um cineasta no lugar errado.” 

Para a maioria dos homens e mulheres, o ruído mais insuportável é o choro de um bebê. Isso porque, de acordo com um estudo publicado no Journal of Social, Evolutionary, and Cultural Psychology, quando soa esse alarme, somos dotados de uma “mola psicológica” para abandonar o que estamos fazendo. Se o choro de um bebê nos desespera tanto, é por uma reação biológica para a conservação da espécie. Segundo Vasco Pimentel, a inquietude que nos provoca esse choro tem relação com o poder evocador do som e com seu caráter imprevisível. “É pelo potentíssimo poder que tem o ouvido - e nenhum outro sentido - de suscitar a fantasia, os temores, as lembranças. O choro de um bebezinho não tem um padrão idêntico, nem de frequência, nem de ritmo, nem de desenvolvimento: “Você não sabe o que vai se passar, e isso irrita as pessoas”. 

Para ele, porém, o mais insuportável de todos é o som de um carro parado com o motor ligado. “Todos os sons são cíclicos. Mas o ciclo de um carro que faz trrrrrrrrr é particularmente estúpido. Nunca sucede algo novo, não há expectativas, não há surpresa.” Se para a maioria de nós o motor de um carro não incomoda, diz, é porque estamos acostumados à repetição. A música que ouvimos num bar, num táxi, numa publicidade no YouTube corresponde ao ruído que faz aquele carro parado com o motor ligado. Fomos formatados para nos sentir cômodos com o repetitivo. O imprevisível nos inquieta. Nos faz sentir inseguros.

Alguns anos atrás, um estudo da Universidade Harvard assegurava que escutar música barroca estimulava mais conexões neuronais nas crianças. Ficou na moda, então, o “efeito Baby Mozart”: grávidas colocavam fones em suas barrigas com a ilusão de ter bebês mais inteligentes por fazê-los ouvir A Flauta Mágica. Meio século antes, Vasco Pimentel e seus cinco irmãos se criaram escutando composições dos séculos 14, 15 e 16. A música medieval e renascentista devolve a Pimentel seu berço de criança, onde do térreo de uma casa senhorial moderna, num bairro afastado do centro, ele escutava os ensaios de música barroca de seus pais. Duarte Pimentel e Tita Lamas. 

Hoje, dois dos seis irmãos Pimentel ganham a vida com seu ouvido prodigioso. O caçula é capaz de afinar pianos em minutos. Vasco Pimentel consegue lembrar a nota exata com a qual começa uma ópera que ele não ouve há 30 anos. O sonoplasta atribui ao seu ouvido musical a facilidade que tem de aprender idiomas: ele fala português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano e um pouco de checo. 

Já na ilha de edição, ele observa o monitor do computador como se olhasse uma paisagem vazia. Sua obsessão é encontrar o tom certo, como se compusesse uma canção. A memória acústica de um sonoplasta é uma torre de babel de lembranças tão confusas quanto inauditas. De suas viagens, Vasco Pimentel lembra quando os muçulmanos chamavam para a oração em Sarajevo: “Eram cantos melancólicos e vibrantes, em vozes de tenor eslavo beirando o falsete do bel canto italiano: Bellini russo com letra em árabe”. Lembra o som dos sinos de Varanasi, na Índia: “Todos em tons diferentes, um único toque cada um, dentro do zumbido constante de milhares de campainhas de bicicleta”. Não esquece a música dos celulares em Tessalit, no Mali: “Todos tocam músicas de guitarras elétricas”. Evoca assim o silêncio em São Petersburgo, Rússia: “Havia um pardal ferido, gritando sozinho, jogado na neve que continuava caindo”. Ali entendeu pela primeira vez o silêncio. “O silêncio”, diz, “é tudo que continua soando ao redor de um pardal que está morrendo.”

Como todo sonoplasta, Vasco Pimentel é um criador de sons e de silêncio. Na obra mais famosa do compositor John Cage, chamada 4’33, uma orquestra interpreta partituras em branco durante 4 minutos e 33 segundos. O público só escuta seu próprio silêncio e os sons do teatro. Segundo o Guinness, a câmara sem eco dos Laboratórios Orfield, em Minneapolis, nos EUA, é o lugar mais silencioso do mundo. Fechada atrás de três portas pesadas, a maioria dos visitantes pede para sair. O silêncio causa prazer, mas a ausência prolongada de sons nos incomoda mais.

O dramaturgo Harold Pinter disse que o silêncio força o público a contemplar o que o personagem está pensando. Em Tabu, de Miguel Gomes, há uma sequência em que os personagens falam, sussurram e gritam uns com os outros, mas o público não ouve suas vozes, e sim o ladrar dos cachorros, o arrastar das cadeiras, o ronco das motos nas montanhas e as músicas de rock que saem do rádio. Vasco Pimentel usou o som ambiente como pano de fundo para jogar com a ideia de que não temos certeza das palavras que ouvimos ou dizemos, só podemos reconstruí-las. “O som de um filme age sobre a pessoa de uma maneira metafórica, secreta, inconsciente, dolorosa, prazerosa. Mas são zonas secretas da nossa psique”, afirma. Para adquirirmos a consciência do silêncio numa cena, Pimentel utiliza a presença distante de um som qualquer: o personagem ouve um latir de cão a um quilômetro. Não existe nada mais entre o personagem e o cão que ladra ao longe. O cão está sozinho. Em silêncio. Sem ninguém. É o estado platônico de Pimentel sem tampões no ouvido. Como gosta de estar cada dia, todas as manhãs, depois de despertar. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK E ANNA CAPOVILLA

SABRINA DUQUE É JORNALISTA E ESCRITORA EQUATORIANA. ELA ESCREVEU ESTA REPORTAGEM PARA A REVISTA PERUANA ETIQUETA NEGRA

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