Paciência esgotada

Como um jovem virou com seu discurso a multidão da praça contra o presidente ucraniano, que fugiu

RICHARD BALMFORTH , REUTERS, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2014 | 02h07

Quando a história da sangrenta turbulência na Ucrânia for escrita, um jovem de 26 anos que aprendeu a combater como cadete do Exército poderá ser lembrado como aquele que levou Viktor Yanukovich a decidir abandonar a presidência e fugir.

Motoristas buzinam para ele e transeuntes apertam a mão de Volodymyr Parasiuk. O cara com rosto de menino ainda fica constrangido ao ser chamado de herói. Ele reserva esse título para seus camaradas e os demais manifestantes entre os cerca de 80 mortos nas ruas da capital na semana retrasada, durante três dias de choques com a polícia de Yanukovich.

Mas foi Parasiuk quem, depois que líderes da oposição assinaram um acordo negociado pela UE com Yanukovich para pôr fim ao conflito, assumiu o microfone na noite daquela sexta, 21, para virar a multidão contra o acordo. Com o ex-campeão de boxe e líder da oposição Vitali Klitschko observando com expressão pétrea, Parasiuk, da cidade de Lviv, oeste do país, improvisou um eletrizante discurso denunciando a oposição por "apertar a mão do assassino".

Ninguém, disse ele, está disposto a esperar até o fim do ano por uma eleição. Yanukovich teria de abandonar a cidade até a manhã seguinte ou enfrentar as consequências. Para surpresa dos líderes da oposição, o emotivo discurso - Parasiuk fez várias pausas ao lembrar dos companheiros mortos - ressoou com força entre os milhares de pessoas na Praça Maidan, que responderam com rugidos de aprovação.

"Os líderes da oposição disseram que concordaram com a realização de eleições antecipadas em dezembro. Isso esgotou a última gota de paciência do povo ucraniano", afirmou Parasiuk em entrevista à Reuters. "As emoções estavam à flor da pele, tínhamos perdido muitos companheiros. De repente, os políticos dizem que 'Yanukovich vai permanecer na presidência e novas eleições serão convocadas'. Tenho uma posição clara. Yanukovich é um terrorista, o maior terrorista da Ucrânia."

Apoiada pela intervenção direta de três ministros da UE, vindos da Alemanha, Polônia e França, a oposição ucraniana tinha assinado um acordo que parecia atender a muitas de suas demandas. Eleições seriam convocadas antecipadamente, um governo de união nacional seria formado e a Constituição retornaria a uma versão anterior, privando Yanukovich do controle sobre a nomeação do primeiro-ministro e a composição do gabinete e devolvendo esses poderes ao Parlamento. Quase imediatamente, o Parlamento, no qual o poder de Yanukovich se enfraqueceu devido à deserção de membros do seu Partido das Regiões, começou a converter em lei essas propostas.

Aqueles que viram Yanukovich assinar o acordo o descrevem como contrariado com as concessões que fora obrigado a fazer e consciente do risco que corria. "Sua aparência não era mais tão invencível e indiferente. Não parecia assustado, mas inseguro", afirmou uma testemunha da assinatura.

Klitschko e outros membros da oposição já tinham falado de seus feitos na busca por um acordo viável. Mas a Praça Maidan respondeu de maneira ambígua, com vaias e assovios. Foi a deixa que Parasiuk esperava. Enquanto a multidão trazia ao palco os caixões das vítimas, ele, com a voz entrecortada, tomou o microfone.

"Nós, as pessoas comuns, estamos dizendo aos políticos que nos apoiam: Yanukovich não vai passar outro ano na presidência", bradou. "Nossos irmãos foram mortos e nossos líderes apertam a mão desse assassino. É uma vergonha. Ele deve partir até as 10 horas da manhã de amanhã." Yanukovich, de fato, partiu na noite daquela sexta para Kharkiv, onde apareceu sábado e divulgou um pronunciamento pela TV no qual dizia ainda ser presidente.

Demandas. Sentado ao lado da namorada, Iryna, Parasiuk, dono de um sorriso sincero, disse ter participado "ativamente" dos enfrentamentos com a polícia, mas não quis descrever as armas que empregou. Ele defendeu o poder do movimento Maidan com a paixão de um revolucionário francês do século 18.

Indagado sobre quando as barricadas serão removidas em Kiev, Parasiuk respondeu: "Se o Maidan se dispersar, os políticos deixarão de ter medo. Não vamos a lugar nenhum. Não permitiremos uma repetição de 2004", ele afirmou. Foi uma referência à Revolução Laranja de 2004-5, que impediu a primeira tentativa de Yanukovich de se instalar na presidência, mas produziu governos que ruíram em meio a conflitos internos e permitiram a ascensão dele em 2010.

Parasiuk mandou a clara mensagem à liderança emergente na Ucrânia de que ela tem de agir com cautela numa transição pacífica para a era pós-Yanukovich. As novas autoridades precisam entender que o poder real está com o Maidan, não com os 450 representantes parlamentares, advertiu. "A declaração que fiz no palco tinha um objetivo: dizer à oposição que, se não atender às nossas demandas, as coisas serão de acordo com a nossa vontade, não com a dela. Simplesmente dissemos: senhores, ajam de maneira decisiva; caso contrário, nós o faremos." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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